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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A política e a moral

Tiago Moreira Ramalho, 06.06.10

O primeiro-ministro José, sendo certo que nunca leu a Fenomenologia do Ser de Sartre, que não estamos a ver o vice-primeiro-ministro Pedro a emprestá-lo, é muito senhor de se pronunciar sobre, entre outras coisas, filosofia. Filosofia moral, se quisermos ser mais exactos. Ao longo destes anos, quase tudo aquilo que o primeiro-ministro José fez decorreu de um suposto imperativo moral, que, obviamente, só os homens de má fé não conseguiam compreender. Claro que o entendimento sobre a moral que o primeiro-ministro tem é, como, de resto, tudo o resto, medíocre. Dizer publicamente que seria «criminoso» não fechar escolas constitui, depois de um violento golpe nos tintins de dois mil anos de pensamento humano, um simples exercício de atirar barro à parede. Não sou desfavorável ao encerramento de escolas com poucos alunos, salvo raras excepções em que seja óbvio que os custos excedem os benefícios. No entanto, gostaria, por uma vez, de ouvir o primeiro-ministro José fazer uma defesa séria de uma política sua, sem tratar Portugal como se tivesse andado na escola com ele, a baldar-se às aulas como ele. Não somos todos assim, José.

E que bem que ficava como Primeira-Dama, valha-me Deus

Tiago Moreira Ramalho, 05.06.10

 

Nesta feira do livro encontrei o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica num alfarrabista, à venda por cinco euros. A graça levou-me a comprá-lo. A figura interessa-me e a polémica também. Hoje folheei-o, li umas coisas na diagonal e notei algo interessante: as supostas queixas públicas relativamente à habilidade de Pulido Valente para, digamos, satisfazer uma senhora, são completamente disparatadas. Maria Filomena Mónica escreve maravilhas sobre Pulido Valente. Sobre a inteligência, a cultura e o efeito que nela causava. Conta, claro, histórias de namoricos, de ciúmes, de adolescentices tardias, enfim; mas tudo isso é completamente secundário. E, na parte da suposta inabilidade, Maria Filomena Mónica diz, tão-só, que não resultou. Não adianta pormenores, não maltrata ninguém, apenas fala de uma relação falhada. A «polémica» gerada só o foi porque é muito mais fácil comprar um rumor do que ler três páginas. Esta é apenas uma das muitas evidências disso mesmo.

A sra. Pássaro é um manual de Colectivismo

Tiago Moreira Ramalho, 05.06.10

O reboliço em torno dos acidentes nas praias portuguesas está a atingir patamares absurdos. Se é certo que ter um nadador-salvador nas praias o ano inteiro é um disparate, como muito bem escreve a Helena Matos, mais grave ainda, parece-me, é a criação ou agravamento de coimas para quem tenha «comportamentos de risco».

Obviamente, há aqui um factor de infantilização. O Estado infantiliza adultos racionais, controlando-lhes a predisposição ao risco. Chega a cúmulos de penalizar quem coloca a toalha em sítios ditos perigosos. Mas há algo de muito mais enterrado por baixo desta infantilização. Vivemos uma crescente erosão de qualquer réstia de individualismo que pudéssemos ter entre nós. Além de arbitrar conflitos, a sua motivação natural, o Estado reserva-se, cada vez mais, o direito de controlar os mais ridículos pormenores da vida de cada um. O poder, em Portugal, julga ter nas suas atribuições a definição de um código, uma conduta correcta e a sua imposição. E o problema é que nós, tolos, aceitamos tudo, tantas vezes com satisfação. Achamos muito bem e assim. Só até um dia.

No mesmo lado do espelho

Tiago Moreira Ramalho, 04.06.10

«O Alentejo do meu avô era igual ao Alentejo das invasões francesas. Aquilo era a Mauritânia, meus amigos. Coisa áspera. O terceiro mundo estava ali estacionado. Mas, apesar de ser um camponês analfabeto, o meu avô arregaçou as mangas e tirou o país do terceiro mundo. Quando o meu pai nasceu, Portugal já estava no 'segundo mundo'. Por isso, o meu pai já pôde ir à escola: tirou a quarta classe e fez-se à vida. Foi o meu pai, meus amigos, que colocou Portugal a crescer a 9% ao ano. Foi o meu pai, ex-operário e agora empresário, que colocou Portugal no hall de entrada do primeiro mundo. E foi nesse hall que eu nasci. Devido ao trabalho do meu pai, eu estudei além da quarta classe, e, agora, sou o cronista-benjamim do maior jornal do país (para grande desgosto do meu avô, que me queria no "Avante!"). Portugal mudou, e muito, meus amigos. Eu sou a prova disso. E há milhares e milhares de histórias familiares idênticas à minha. Temos juízes, advogados, professores, investigadores, empresários, gestores, escritores, jornalistas e médicos que têm algures um avô analfabeto e um pai com a quarta classe. O país inteiro devia ter orgulho nestas histórias. Porque são estas histórias que fazem a História de um país. São estas epopeias familiares que constroem as narrativas históricas que unem uma nação em momentos de aperto e redenção.

Portugal não está condenado ao declínio. Aliás, a ascensão tem sido a marca da nossa história recente. O meu avô e o meu pai trouxeram Portugal para o primeiro mundo. Com o país às costas, eles subiram a escadaria, desde a empoeirada Mauritânia até à reluzente União Europeia. E, meus amigos, não vai ser no meu turno que Portugal vai aos trambolhões pela escadaria abaixo. Até porque estou mais bem preparado. Só tenho de encontrar o coração que eles tinham.»

 

Henrique Raposo

João de Brito Batista Aires Fitas

Bruno Vieira Amaral, 04.06.10

Fins de Maio, princípios de Junho trazem-me à memória os dias da cortiça com o meu avô. O corpo dele, pequeno e ágil como o de um felino, a trepar pelo sobreiro, o machado cravado na árvore, os pés nus, o suor que lhe escorria pelo rosto, o descanso a meio da manhã, o movimento da maçã de Adão enquanto bebia o vinho de uma liturgia profana de trabalho e esforço, o Ti’ Jaime, com menos anos mas mais pesados, que ficava lá em baixo e iniciava o dia cuspindo a palma das mãos e invocando auxílios divinos, “Deus m’ajude”, atacando o sobreiro com golpes precisos de cirurgião natural, o almoço, um tomate migado e salgado pelas mãos rudes do meu avô, aquele sabor que mo lembra tanto, como se lhe beijasse ainda as mãos, a água fresca da tarde bebida de um cocho, os estrangeiros de máquinas fotográficas em punho fascinados pela destreza dos homens antigos, pela beleza arcaica da actividade de despir uma árvore da sua casca, o fim do dia a descarregar as pranchas, a paragem num café de beira de estrada para mastigar uma bifana, saborear uma cerveja, enganar o cansaço, agradecendo ao Deus do Ti’ Jaime a resposta silenciosa, mas inegável, à prece matinal, o regresso a casa, os dois sentados a ver a bola, o repouso merecido. Ver o meu avô trabalhar naqueles dias quentes foi a herança que ele me deixou. Morreu há cinco anos, no final de Julho, depois de tirada toda a cortiça.  

Somália, I love you

Tiago Moreira Ramalho, 03.06.10

Quando um ministro declara abertamente, numa comissão parlamentar, que o seu governo vai desrespeitar a Constituição de forma consciente e intencional, só a loucura geral permite complacências. Controlar o poder do governo é o principal motivo para a existência de uma Constituição. Permitir ao governo fazer interpretações livres do texto é o mesmo que recuar trezentos anos na História.

Levantar a bandeira do «bem comum» e do «interesse nacional» não pode ser um passe para o poder se controlar a si próprio, na medida em que deseja. O precedente que se abre é perigoso, mas é simples consequência de uma deficiência cultural. Nunca tivemos espírito liberal e, pelos vistos, continuamos a ignorá-lo. Isto vê-se pelo comportamento da oposição e, mais grave, do povo português, cuja preocupação única é o imposto em si e não o crime que está prestes a ser cometido.

Não há crise económica nem bem comum que permitam algo assim. Parece-me que estamos perante a necessidade clara de assegurar o bom funcionamento das instituições democráticas. Que se oiça o Conselho de Estado.

 

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Fantástico. Esta gente, que admitia que Cavaco ia promover um golpe de Estado constitucional, que morre de amores pela Constituição «que nem pensar em ser revista», acaba de decretar a retroactividade dos impostos com o argumento de «um princípio protegido na Constituição» é muito bom mas «não é um princípio absoluto». Está aberto o caminho para outras ilegalidades (a Dra. Manuela é que queria suspender a democracia, não era?). Basta querer e invocar o princípio do «interesse nacional». Parabéns.

 

Francisco José Viegas

 

 

Aguardemos pela reacção indignada da comunidade de juízes e de outros juristas especializados em licenças de poluição, conforme aconteceu com o acesso às escutas do processo Face Oculta por uma comissão parlamentar de inquérito.

 

Pedro Lomba