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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Caro Killer

Bruno Vieira Amaral, 06.08.10

Aproveito para republicar esta singela carta e aconselhar o leitor a comprar a edição de amanhã do jornal i, com textos inéditos de Francisco José Viegas, Hugo Gonçalves, João Tordo, Mónica Marques e V.M. Barreto sobre crimes reais.

 

 

 

Caro Serial Killer de Santa Comba Dão,

 

Folgo muito em saber que, para cometer os seus hediondos crimes, ter-se-á inspirado na obra-prima de Nagisa Oshima, O Império dos Sentidos. De início, pensei que você seria mais um daqueles psicopatas comuns que recebem ordens dos cães ou dos electrodomésticos; engano meu. Você pode ser um pouco abrutalhado mas, no seu íntimo, resiste uma centelha estética que normalmente não é associada a criminosos e, muito menos, a cabos da GNR. Por este motivo comecei, não a simpatizar, porque não simpatizo com pessoas que esquartejam outras e que guardam os restos em sacas de ração mas, a compreender as suas motivações artísticas. Digamos que eu estou para si como Stockhausen esteve para o 11 de Setembro. Estou certo de que compreenderá o que quero dizer. O que o torna único e especialmente digno de não ser apedrejado e arrastado desde Santa Comba Dão até à Figueira da Foz é a sua coragem ao assumir-se como adepto de cinema asiático. Você é uma minoria. As suas perspectivas podem não ser as mais animadoras neste momento mas eu antevejo-lhe uma pena levezinha, um indulto e, dê-lhe mais uns três ou quatro aninhos, um subsídio. O seu arrojo estético pode muito bem tê-lo resgatado das acaloradas arengas de Hernâni Carvalho e da minúcia científica de Moita Flores; você conquistou o direito a ser comentado pelo João Lopes. Você não é apenas mais um caso de polícia; você é um enigmático problema de semiótica. Gostaria muito de discutir consigo Kurosawa, sobretudo a multiplicação de pontos de vista em Rashomon, mas presumo que, nesta linda manhã de 6ª feira, você esteja mais preocupado em preservar a sua integridade física, objectivo que considero louvável e, até certo ponto, construtivista.

Peligrosidad

Rui Passos Rocha, 02.08.10

Se não é vencedora, Cuba merece pelo menos uma menção honrosa no campeonato legislativo por uma lei sobre a peligrosidad, que prevê o encarceramento preemptivo de pessoas que, diz o Estado, poderiam vir a cometer crimes no futuro. Aparentemente a coisa dá-se assim: se alguém falha uma manifestação pró-governo, não está inscrito numa organização do partido (não é por falta de variedade, diga-se) ou pura e simplesmente está desempregado pode ser preso preemptivamente em prol do bem-estar social. Mas parece que a coisa pega-se: se alguém for visto junto de um tal parasita social poderá também ser detido preemptivamente. Então, e porque de bom humor estão os partidos comunistas cheios, parece que um senhor - de nome Digzan Saavedra Prat, já de si digno de suspeita, digo eu - passou em 2008 algum do seu tempo livre a descrever abusos de direitos humanos pelo Estado para uma associação clandestina cubana, uma espécie de Human Rights Watch de bairro. Vai daí, o sr. sapateiro foi preso por peligrosidad porque, segundo a acusação, tinha "ligações a pessoas de moral e conduta social reprováveis", era "um mau exemplo para as novas gerações" e, porque o melhor vem sempre no fim, "pensava que era bonito". Assim mesmo, minha gente: "Thinking he is handsome". Deus, o redactor dos pecados capitais, não poderia concordar mais.

Apontamentos sobre a Guerra do Ultramar

A Douta Ignorância, 02.08.10

Convidámos o escritor Vasco Luís Curado, autor do romance A Vida Verdadeira, publicado pela Dom Quixote, a escrever um pequeno texto sobre a guerra colonial, tema que também é abordado naquele livro. Pensamos que o drama dos antigos combatentes merece mais atenção do que aquela que lhe é dispensada; foi esse o motivo do convite feito ao Vasco e que ele prontamente aceitou. O Douta agradece-lhe a colaboração:

 

 

 

A guerra do Ultramar acabou há demasiado pouco tempo. Os combatentes, esquecidos pela sociedade e pelo poder político, têm uma coisa fundamental contra eles: milhares ainda estão vivos. Tem de passar tempo suficiente para se ter uma melhor perspectiva histórica, o que implicará que todos tenham morrido. Cruzamo-nos nas ruas, ou temos nas nossas famílias, pessoas que participaram no encerrar de um ciclo que Portugal tinha iniciado 560 anos antes, em 1415, com a conquista de Ceuta. Declarámo-nos cabeça de um Império tropical espalhado por quatro continentes, fechámos esse ciclo repentinamente e aderimos com entusiasmo à integração europeia. O País, empenhado em contar os quilómetros de boa estrada asfaltada até Bruxelas e Estrasburgo, quis esquecer-se daqueles que andaram a picar estrada de terra à procura de minas, em Nambuangongo, em Buba ou em Mueda. Os próprios também quiseram esquecer, porque as guerras impõem aos combatentes uma necessidade impossível de satisfazer: esquecer o inesquecível, reprimir o irreprimível.

 

Forças e tendências estruturantes da identidade, ou pseudo-identidade, portuguesa se conjuraram para dificultar a vida aos veteranos da guerra colonial. Achou-se que o colonialismo era uma missão atribuída por Deus, um dever nobre e altruísta de civilizar povos mais atrasados. Outras potências coloniais eram movidas por cobiça de lucros e montavam empresas de exploração comercial com nomes de países. Nós não. Deus tinha planos especiais para os portugueses e dizia-lhes para irem civilizar quem tanto precisava de ser civilizado. Assim, não havia condições mentais para se aceitar as mudanças políticas do mundo, e Portugal erigiu um ideal de defesa da civilização latina cristã em África contra a vaga liberal que apadrinhou os nacionalismos africanos a partir de 1945. A segunda tendência ou força que prejudicaria os combatentes foi negar-se que havia uma guerra nas colónias: era apenas um policiamento contra meia dúzia de terroristas estrangeiros a soldo dos comunistas. Se não havia guerra, como poderia haver stress de guerra, indemnizações, reconhecimento?

 

O ambiente de guerra adormece as emoções e leva a fazer coisas que noutras circunstâncias não se faria. Não há uma consciência individual, mas colectiva, cada um trabalha para objectivos que o ultrapassam. O problema é que depois se regressa à consciência individual e se assume individualmente coisas que tinham sido colectivas. O País, que durante a guerra não assumia a própria existência de uma guerra, a seguir ao 25 de Abril cometeu erros de igual monta: mandou-os para casa como se nada fosse, como se os 560 anos anteriores fossem uma nota de rodapé de um manual escolar ou um Padrão dos Descobrimentos para turistas fotografarem, deixou-os sozinhos com responsabilidades que tinham sido nacionais, não preveniu as consequências de se ter sido em tempos um combatente. O País, isto é, todos nós, não quis saber daquele combatente que, regressado a casa, dormiu um mês no bosque próximo com a faca de mato, ou daquele que de vez em quando acorda convicto de que aos pés da cama está um saco cheio de orelhas e dedos humanos, ou daquele que se levanta todos os dias às cinco da manhã e se senta no sofá da sala, a que chama o “canto da morte”, e recapitula a guerra e pensa em matar-se. O País é que foi combatente e reduplica à escala nacional a experiência individual. Assim como o combatente se apazigua aceitando as marcas físicas ou mentais como tatuagens que são parte indelével de si mesmo, o País, ou seja, todos nós, amadurece recuperando o seu passado e aqueles que enviou para o combate. Por isso é que temos de começar a fazer História agora, não num vago tempo futuro, e, em respeito pelos que combateram, ajudá-los num outro combate contra um duplo esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer e não podem, e o que o País cobardemente lhes quer impor e não devia.

 

Vasco Luís Curado

As citações

Rui Passos Rocha, 02.08.10

«The Quran is a vast, vague book, filled with poetry and contradictions (much like the Bible). You can find in it condemnations of war and incitements to struggle, beautiful expressions of tolerance and stern strictures against unbelievers. Quotations from it usually tell us more about the person who selected the passages than about Islam»

 

Fareed Zakaria

Revisionismos

Tiago Moreira Ramalho, 01.08.10

Um terrorista assassina o herdeiro do trono de um país vizinho, aliado. Acrescente-se que, além das relações diplomáticas, existem laços familiares a ligar as famílias reais dos dois países. Qual é o movimento natural, à luz do Ocidente actual? Apoiar o país vizinho, aliado numa retaliação.

Na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha, pelo menos numa fase inicial, esteve ao lado da vítima do terrorismo. Já a Rússia envolveu-se na guerra por fanfarronice e o resto veio por arrasto. Claro que a História é escrita pelos vencedores e, no caso, quem venceu foi a Rússia e companhia.

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