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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Volta ao mundo

Tiago Moreira Ramalho, 23.11.10

É rara a minha viagem de regresso a casa que não me permite guardar um episódio na memória. Raríssima. O que, na realidade, é bastante bom, independentemente da miséria que constitui cada um deles.

Hoje, no autocarro, entrou um homem, claramente doente, com a estrutura óssea deformada dos pés à cabeça, com baba a pingar e olhos perdidos. Trazia por todo o corpo malas penduradas. Malas de senhora, mochilas de criança, tudo. Vergava-se perante o peso, mas não as largava. Nunca as larga, que já não é a primeira vez que o vejo. Pavoneia-se, na sua provável demência, com aquele conjunto imenso de acessórios, que não sei se roubados, se achados, não sei, aos quais acrescenta, além da vasta colecção de pulseiras que leva nos braços, uma carteira de senhora, que abre e fecha, todo torto, sem nunca meter ou tirar nada. A isto tudo, junta um fedor insuportável, provavelmente causado pela merda que lhe escorre pelas pernas e transparece pelas calças. E nós ali, e ele ali, todos ali, a cheirarmo-nos uns aos outros, nós a ele, ele a nós, até que ele sai, em pulos desengonçados, que não anda bem, como poderia, e nós continuamos viagem a pensar para onde irá, o que fará, ou se algum carro, à conta da sua distraída caminhada pela via rápida, o impedirá de voltar a cheirar quem quer que seja.

Fura Greves

Tiago Moreira Ramalho, 23.11.10

Geralmente o que o leitor vê por aí é propaganda a incentivar a participação nas greves. É natural num país que, mais que estruturalmente tombado para a esquerda, é estruturalmente tombado para a folga. Bem, nós, que somos essencialmente tudo o que um dirigente sindical colocaria no Inferno, lembramos o leitor que cada português em greve será um português a votar na entrada do FMI em Portugal. Cada português em greve será um português a apoiar um Estado pretensamente «social», mas que na verdade é um artifício publicitário que, ano após ano, encarece. Cada português em greve será um português a dizer que, na realidade, está muito bem como está, já que a greve pretende a simples manutenção da situação actual. E agora prendam-me ou assim.

Dardos e assim

A Douta Ignorância, 19.11.10

O Pedro Correia deu-nos um prémio porque «merecíamos». Não colocamos, obviamente, isso em causa. Merecemos, e muito. No entanto, deparados com a inevitabilidade de dar o prémio a alguém, que é assim que a coisa se faz (é a lição número dois), decidimos, após longa reunião à porta fechada com muitos cinzeiros em cima da mesa e garrafas de vodka, dar o prémio a blogues que achamos que, lá bem no fundo, até merecem ser lidos, mas que não lemos nem que nos paguem. Enfim, cá vão:

 

31 da Sarrafada

A Pipoca Mais Doce

Blogue de Direita

Blogue de Esquerda

Cocó na Fralda

Darwinismo

José Maria Martins

Máquina Zero

Portugal Contemporâneo

Um Homem na Cidade

Paredes de vidro [2]

Tiago Moreira Ramalho, 19.11.10

Lamento profundamente, no entanto, que, por um lado, se compare a divulgação desta escuta à divulgação das escutas no processo Face Oculta. Uma é uma básica revelação de um facto íntimo da vida de alguém; outra é uma séria denúncia do mau funcionamento de uma Justiça perturbadoramente politizada. Em ambos os casos há uma lei quebrada, é inegável. Mas enquanto se pode vislumbrar num dos casos alguma pertinência na violação da lei – sim, a violação da lei pode ser pertinente – no outro não se vê pertinência alguma além da satisfação da triste necessidade de espectáculo. Lamento, por outro, quem defende, sem grandes argumentos, que os não há, a publicação deste lixo, puro lixo, apenas porque dá jeito.

Resumidamente, lamento uma gente que é incapaz, estruturalmente incapaz de escrutinar o trabalho da imprensa sem se deixar tolher pelas preferenciazinhas a montante. Comportamentos destes são estrada alcatroada para destinos menos recomendáveis.

Paredes de vidro

Tiago Moreira Ramalho, 19.11.10

Durante uns dias optei por não ler. Acontece que li sobre o assunto e, deparado com visões contraditórias, e para tirar qualquer dúvida, lá fui ao Correio da Manhã procurar a notícia sobre o que andou Edite Estrela a dizer dos seus colegas do Parlamento Europeu.

Objectivamente, aquilo é um exemplo acabado do que não é jornalismo. A divulgação despudorada de uma simples conversa entre dois amigos, uma conversa que, a atentar no conteúdo da notícia, não tem qualquer tipo de relevância para a coisa pública, é simplesmente repugnante. Edite Estrela não gosta de quem a acompanha? Seja ou não verdade, dificilmente será notícia. Supomos que a senhora Tânia Laranjo, a autora do texto, também não morrerá de amores por todos os seus coleguinhas de redacção. Digamos que só um jornal com uma linha editorial com um grau de inteligência (e não só) ao nível de uma amiba poderá considerar realmente que pequenas intrigas em grupos de trabalho têm relevância jornalística.

O problema é que enquanto este tipo de «produto» for procurado, dificilmente desaparecerá. Dificilmente se resolve com a lei aquilo que vem do costume. E é do costume que se vasculhe a vida alheia até à exaustão. Até que, um dia, a febre nos leve a demolir cada prédio e a colocar, em substituição, outros com paredes todas em vidro.

O Inocêncio engata, mas não obriga

Tiago Moreira Ramalho, 19.11.10

«São [as regras de cortesia ou de trato social] simples normas de convívio, destinadas a torná-lo mais agradável, como o dever de corresponder ao convite para um jantar ou para um passeio, agradecendo o convite ou justificando a sua não aceitação. A sanção correspondente ao não cumprimento de tais deveres não vai além da reprovação social do comportamento observado. Está aqui inteiramente fora de causa a ideia de coercibilidade.»

 

Inocêncio Galvão Telles, Introdução ao Estudo do Direito

Profissões bem antigas

Tiago Moreira Ramalho, 18.11.10

Há um rapazinho cuja moleza o levou a deixar os estudos, mas cuja audácia, ou, se quisermos ser rigorosos, o espertismo, lhe trouxe um salário chorudo na Câmara de Lisboa. Nada que choque, no maravilhoso país dos 'assessores'.

A notícia é do Público e, ao que sabemos, ainda tudo continua na mesma. Pedro Gomes, um funcionário do PS que andou a saltar de um lado para o outro dentro do partido, e cuja experiência profissional e académica se resume a isso mesmo, recebeu a extraordinária proposta de fazer assessoria, coisa supimpa, à vereadora Graça Fonseca. O seu salário, aos vinte e seis anos e sem dois livros lidos, é de quase quatro mil euros mensais pagos em recibos verdes.

Como se isto por si só não fosse, já de si, um escândalo, acontece que o tal assessor Pedro Gomes tinha recebido um subsídio do IEFP para criar um negócio. O IEFP é mesmo amigo da malta, então enfiou quarenta mil euros na cuequinha de Pedro Gomes para que ele fizesse o servicinho de começar uma negociata qualquer - como se fizesse algum sentido que um negócio comece nestes termos. O Pedro Gomes recebeu as notinhas, agradado, claro, mas não fez negócio nenhum, que agora está de bem com a vida, com os seus quatro mil euros mensais pagos pela "amiga do povo", ou pelo menos de algum povo, Graça Fonseca.

Não condenamos o desgraçadinho do Pedro Gomes. Afinal, não foi ele que se passou os cheques. Dele sentimos mais uma espécie de peninha, que a coluna vai acabar a ressentir-se com uma vida a fazer de quatro. Condenamos, sim, a amiga Graça Fonseca, competentíssima vereadora que acha que os dinheiros públicos brotam de uma qualquer mística árvore das patacas e que, portanto, está tudo bem. Gostaríamos imenso de ler a sua carta de demissão. Condenamos, claro, um sistema que permite a entrega cega de dezenas de milhar de euros a quem quer "abrir negócios", como se essa fosse uma função do Estado. Adoraríamos ver o fim de tais "programas". Ou então não condenamos nada nem ninguém, porque, a bem da verdade, Pedritos e Gracinhas e demais "programinhas" há-os aos molhos e, suspeitamos, o povo até gosta, que pode ser que calhe algum. Remar contra a maré dá músculo, mas cansa muito.

 

 

Publicado no Expresso Online.

O Churchill é que era, e o catano; sobretudo porque sabemos pouco do que fez

Rui Passos Rocha, 17.11.10

Um gajo passa dias a estudar as atitudes políticas dos portugueses, como estão insatisfeitos e desafectos e tal, e lê teorias sobre o afastamento progressivo dos representantes em relação à sociedade, bem como dos eleitores em relação aos partidos. Há a percepção crescente de que os partidos do sistema são praticamente iguais; ou, na Europa, que não são como os partidos do pós-guerra, integradores e perfeitamente antitéticos. Obviamente, se esse gajo se ficar por aí vai concluir que shit happens: a sociedade mudou, os partidos adaptaram-se, a representação é diferente e as atitudes negativas são irremediáveis. Depois, o mesmo gajo vai ler sobre a comunicação social independente, sobre como ela molda atitudes, e poderá concluir cancioneiramente que gente como o José António Cerejo está a contribuir para o desgaste da política, para o anti-partidarismo, e merecia ser processada a bem da nação; ou então conclui que, porra, a esquerdice deveria ficar reconhecida porque finalmente a prática elitista de checks-and-balances é complementada pelo olhar atento do eleitorado, via imprensa. Há descontentamento porque há informação. Melhor democracia é um cidadão comum, de nome Luís M. Jorge, fazer um post a encaminhar olhares para mais um caso de clientelismo. Só lhe falta mesmo - para receber um subsídio meu - começar a falar de patronagem (parece que, apesar de tudo, somos os menos clientelistas da Europa do Sul) ou de cartelização (esta é para quem está a seguir o debate sobre a nova lei do financiamento aos partidos).

Correndo grandes perigos

Tiago Moreira Ramalho, 16.11.10

A pessoa de bem que se movimenta pelas redes sociais saberá seguramente que, por um motivo qualquer, toda a gente decidiu colocar imagens de bonecada que marcou as respectivas infâncias. Sendo eu de uma geração que foi mais educada pelas manhãs da SIC (os da SIC eram, de longe, os melhores desenhos animados) que pela família, foi seguramente difícil escolher. Acabei por optar pelo Dartacão. Tinha tudo. Era «do tempo dos reis e das rainhas», e o infante adorava toda a ideia à volta, apesar do republicanismo que já lhe corria nas veias; tinha uma bonita história de amor, que o infante sonhava para si; tinha aventura, a que o infante aspirava; tinha vilões, que o infante atacava; tinha tudo. O Dartacão tinha, simplesmente, tudo. Inclusivamente a melhor música de genérico que a memória guardou.