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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

No regrets

Tiago Moreira Ramalho, 14.01.11

Há coisa de um ano e meio, já a crise era velha, andou por aí uma senhora, a quem também chamavam velha, a pedir, num quase desespero que devia ter deixado as gentes um pouco mais atentas, para a necessidade de calminha nestas brincadeiras dos endividamentos, que são muito bons até ao momento em que vêm as obrigações. Reclamava a suspensão das Obras Públicas, exigia a redução do peso do Estado, rogava pela transparência e coerência dos políticos, condição essencial para que qualquer economia chegue a bom porto. Nada. Dali, ninguém quis ouvir nada. O povo deixou-se seduzir pelos luxos de um comboio que apenas uma reduzida percentagem iria alguma vez utilizar, pela glória de mais uma ponte, pela beleza de mais uma infinidade de auto-estradas. Progresso, pediam, julgando que o progresso se pode comprar com recurso a empréstimos no estrangeiro. Fora o ‘atavismo’ e o ‘pobrezinhos, mas honrados’, que nós cá, gente deste século, ligamos pouco à honra, um apêndice inútil quando temos asfalto em quantidade. Hoje, claro, ninguém sequer a nomeia. É inconveniente admitirmos um engano tamanho. Preferimos dizer que os ‘políticos’ é que nos fazem mal, quando quem nos faz mal somos nós mesmos, ao escolher mal. Sim, é o peso da democracia. Não se trata apenas de um conjunto de direitos, mas também de um conjunto de obrigações. É um grande activo, mas também um colossal passivo, que deve ser assumido. As escolhas contam e cada voto baseado no tom de voz, na beleza do rosto, na idade ou no preconceito foi parte responsável pelo estado a que chegamos. Não afirmo que tudo seriam rosas com Manuela Ferreira Leite. Erraria, humana que é, e humanos que seriam os que a rodeariam. Mas, pelo menos, não nos impingiria uma droga política, própria dos tempos, distribuída em forma de cheque e alcatrão e carruagem. Teria sido há um ano e meio atrás a inversão, ao invés de apenas agora. Teria sido há um ano e meio atrás, quando os juros já eram pornográficos, mas não tanto. Teria sido há um ano e meio atrás, quando a insolvência era um horizonte não tão próximo. Há um ano e meio atrás apoiei a ida da senhora para S. Bento. Um ano e meio depois não me incomoda um grama de arrependimento.

Praga

Bruno Vieira Amaral, 13.01.11

O Lourenço decidiu tomar os posts publicados em alguns blogs pela blogosfera. Brincadeiras à parte, o mais importante não é a generalização, a habitual incursão pelos meandros da psicologia colectiva (os portugueses ao volante, etc), o tomar os anónimos pelo país real, mas observar os efeitos desses comentários (quase todos veiculados em sites de jornais): a degradação de um espaço público de debate e a disseminação de mensagens de ódio a coberto do anonimato e do sentimento de impunidade. Já sabíamos que há gente estuporada nas caixas de comentários, mas todas as ocasiões são boas para combater a praga.

Paradoxos em verso

Tiago Moreira Ramalho, 12.01.11

Imagino com alguma frequência o que é a rotina matinal de Manuel Alegre. De manhã, depois de acordar, vai colocar-se de pé junto ao púlpito e escreve o seu Guardador de Rebanhos diário, com as prelecções com que nos vai presentear ao longo dos tempos de antena que lhe estão destinados. Tal como o outro, escreve a coisa de uma ponta a outra sem sequer olhar para o verso que precede o verso presente. E aqui radica aquilo que, porque somos essencialmente bondosos e confiantes na possibilidade de existir ali algo mais que voz e barba, julgamos ser todo um processo de construção artística, construção sobre construção, destinada a uma claque iluminada que, através do estudo cuidadoso e paciente, lhe desconstrói a tese e, dado o brilhantismo, lhe dá apoio. Como os tempos mudaram. Antigamente, quando os homens eram inteligentes, ou quando, pelo menos, os havia assim em número natural, rogava-se aos poetas que não se imiscuíssem na política. Hoje, são chamados e abraçados e, até, quem sabe, compreendidos.

Claro que nós, que mais do que acreditar na possibilidade etc., somos essencialmente pragmáticos e não duvidamos, até porque é pecado, disse alguém, não sei, da tese socrática, do outro, de que os poetas, ou melhor, este poeta, e aqui estamos a transpor, não a citar, acautele-se, leitor incauto, é como os da Apologia. Entra-lhe a musa pela narina, fá-lo cuspir pela ponta dos dedos, mas depois, nada. Sabemos nós melhor o que ele escreveu que ele próprio. Sim, caros, porque este homem, de duas escolha-se uma, ou não sabe mesmo do que anda a falar ou, sabendo, quer mesmo gozar com a nossa cara laroca, que a temos, que a temos.

A teimosia da banalidade

Tiago Moreira Ramalho, 12.01.11

Se fossemos pessoas decentes, depois disto, fechávamos o blogue. Como que num ritual todo pimpão. Acontece que, como o leitor regular já percebeu desde que se tornou regular, isto é tudo gente ruim, daquela que não quebra, como os vasos, está, claro, a ver. Pois que venha a banalidade, então.

Tão simples

Bruno Vieira Amaral, 10.01.11

O que seria de nós sem os comentários esclarecidos nos sites da imprensa? O homicídio…não, homicídio tem uma carga demasiado negativa, o acto de justiça que se abateu sobre Carlos Castro é de uma transparência cristalina. A “vítima” era uma bichona, um velho nojento, praticamente um pedófilo, que se aproveitou da inocência depilada de um rapazinho (tão bonito que ele é, e gosta de mulheres, tinha resmas delas), uma ingénua criatura de Cantanhede (em Cantanhede não há paneleiros, ora essa), um anjinho de Deus que vendeu a alma ao Diabo em forma de um sexagenário gordo e feio. O porco seduziu a pobre criança cujo único pecado era ter um sonho e lá foi ela atrás do sonho agarrada às calças do maricas. Estava mesmo a pedi-las. Estão todos a pedi-las. Andam para aí a meter-se com rapazinhos exemplares que até praticam desporto e sorriem aos concidadãos e estão à espera do quê? E nem se sabe se não foi a “vítima” a provocar a situação ou até mesmo a pedir para que o jovem lhe fizesse aquelas coisas, porque homens daqueles são uns pervertidos. Quem nos garante que a “vítima” não tentou coagir o rapazinho, que não tentou obrigá-lo a fazer coisas que este não queria e que o rapazinho, ferido no seu orgulho heterossexual, apenas se defendeu, espancando o verdadeiro agressor durante uma hora, enfiando-lhe um saca-rolhas no olho e cortando-lhe os tomates? Seria muito diferente se em vez de um paneleiro velho, estivéssemos a falar de um septuagenário heterossexual que andasse com uma “dançarina” brasileira (puta, claro está, porque estas são muito sabidas e querem é subir na vida porque lá na terra delas passam fome). Já se sabe que estas atrevidas só andam atrás deles pelo dinheiro e que eles aproveitam (quem é que, podendo, não aproveitaria?) para ferrar o dente em carne fresca, e fazem eles muito bem, provando a macheza do garanhão lusitano que nem no leito de morte perde a tusa. É tudo tão simples: a culpa é sempre dos maricas e das putas.

Lido no Câmara Corporativa

Rui Passos Rocha, 09.01.11

[...] First lie to yourself about what grade the diamond is; then you can sincerely tell your customer "the truth" about what it's worth. As I would tell my salespeople: If you want to be an expert deceiver, master the art of self-deception. People will believe you when they see that you yourself are deeply convinced. It sounds difficult to do, but in fact it's easy -- we are already experts at lying to ourselves. We believe just what we want to believe.