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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Rilke

Rui Passos Rocha, 10.02.11

«If your daily life seems poor, do not blame it; blame yourself, tell yourself that you are not poet enough to call forth its riches»

Hey bloggers, bite me

Rui Passos Rocha, 10.02.11

90% do que é escrito nos blogues não teria sido assim publicado se os seus autores, em vez de despejar às três pancadas, o retivessem como rascunho durante um dia. Contra mim falo. Os blogues são tanto melhores quanto mais os seus textos forem retocados antes de publicados.

180

Rui Passos Rocha, 09.02.11

O PSD quer tanto reduzir o Parlamento em 50 deputados que até já encomendou um estudo Manuel Meirinho, um tipo que rejeita a redução: «Portugal não tem deputados a mais, muito pelo contrário. Quando comparamos a situação portuguesa com a de países com uma dimensão populacional equivalente à nossa verificamos que o rácio indica claramente que a dimensão do nosso Parlamento não é exagerada, muito pelo contrário: temos um Parlamento pequeno. Além disso, uma redução significativa da dimensão do nosso Parlamento poderia contribuir para comprimir a proporcionalidade (dependendo do figurino de círculos), reduzir a representação territorial e social, bem como contrariaria a ideia de aumentar a qualidade da representação (pois o aumento do rácio vai em sentido oposto). Por isso, recomendaremos apenas uma redução de um deputado, para evitar empates» (p. 205 - Para uma melhoria da representação política: A reforma do sistema eleitoral, com André Freire e Diogo Moreira).

Bipolarização

Bruno Vieira Amaral, 09.02.11

Parece que o grandiloquente Rogério Alves, o tal que se alegrou com a goleada que o Benfica sofreu no Dragão, faz parte de uma lista qualquer. É bom sinal. Talvez o Sporting feche as portas ainda este ano. E, para um clube que se gaba das linhagens, das dinastias e respectiva heráldica, é bonito ver candidatos do calibre de um Braz da Silva e de um Bruno de Carvalho. São milhões atrás de milhões. A este cenário juntam-se as inacreditáveis declarações de um funcionário do clube que, se tivesse vergonha na cara, tinha apresentado a demissão imediatamente. Enquanto isto, alguns leões miam contra o Benfica, lembram o Vale e Azevedo e arrenegam qualquer aliança com o FCP. A bipolarização do futebol português é um facto. Ainda bem.

Ir ao Fundo

Priscila Rêgo, 09.02.11

Leiam este post acerca da possível vinda do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois, voltem cá e leiam o meu. Se o Miguel Madeira tivesse dito que a vinda do FMI não é garantia de que Portugal se safe, eu tenderia a concordar. Mas a afirmação, bastante mais forte, de que mesmo com o Fundo Portugal não se vai salvar parece-me bastante mais discutível.

 

O melhor paralelo que me ocorre para perceber esta situação é a de um ataque especulativo a uma moeda nacional. Se o Governo de uma pequena economia está a acumular défices orçamentais insustentáveis, pode gerar-se o receio de que, mais cedo ou mais tarde, ele recorra à emissão monetária para financiar esses défices. Neste caso, a ideia de que a divisa poderá desvalorizar no futuro levará os investidores a venderem, no presente, os títulos denominados na moeda em causa. O resultado é uma desvalorização imediata. Se houver muita dívida denominada em moeda estrangeira, é o caminho para o caos.

 

Mas há uma forma de combater este movimento: o banco central do país em causa pode usar as suas reservas externas para comprar a própria moeda e, assim, impedir (ou adiar, conforme as interpretações) a crise cambial. Esta estratégia é um pau de dois bicos porque se o ataque especulativo tiver fundamento o banco central acabará por esgotar as suas reservas e a moeda desvalorizará à mesma: os investidores vão continuar a vender até que o banco central "perca as munições". Mas se o Governo acabar por estabilizar as suas contas e não tiver de recorrer à emissão monetária, o ataque especulativo vai terminar e o esforço do banco central poderá, de facto, ter impedido uma grave crise monetária e cambial.

 

O FMI pode, neste caso, fazer o papel de banco central, garantindo o financiamento enquanto pomos a casa em ordem. Neste momento, o Estado português joga a sua sorte semanalmente nos mercados. O maior risco nem é que as taxas de juro se mantenham ao nível actual, mas que elas acabem mesmo por subir. No ponto em que estamos, basta uma má notícia acerca da execução orçamental. Se isso acontecer, voltamos à estaca zero: mais pacotes de consolidação, mais pressão, mais risco, mais juros, mais pacotes… e por aí fora.

 

Com o FMI, o Estado assegura o financiamento durante dois a três anos e pode concentrar-se em cobrir o buraco das contas, sem precisar de se preocupar com o que os mercados pensam da execução orçamental. Haverá menos pressão, mais certeza e, até, juros mais baixos. Além do mais, o cumprimento das medidas de consolidação seria muito mais bem monitorizado do que está a ser agora. Em 2013, poderíamos calmamente voltar aos mercados, pagar a dívida ao FMI e financiar os défices sem problemas de maior.

 

Claro que não há almoços grátis. A segunda opção comporta riscos para o próprio FMI: se Portugal não conseguir pôr a casa em ordem, é o Fundo que fica a arder nuns bons milhares de milhões de euros (os défices mais a dívida que vence entre 2011 e 2013). Mas a ideia é ver o que nos convém mais a nós, não é?

 

Adenda: Não ficou claro à primeira, mas espero que fique agora. A insustentabilidade da taxa de juro depende não só da taxa de juro e do crescimento nominal da economia mas também do montante de dívida a que a taxa de juro se aplica. Uma taxa de 7% pode ser sustentável se vigorar durante um ou dois anos; pode contudo tornar-se insuportável se se mantiver durante um período mais longo. O que o FMI permitiria fazer era "estancar a sangria" no momento actual: impedir novas subidas da taxa de juro e dar tempo ao Governo para fazer o ajustamento orçamental sem mai problemas. Com sorte, em 2013 os juros estariam de novo nos 3 ou 4% e a situação voltaria a tornar-se gerível.

David Ricardo vs. Vieira da Silva

Priscila Rêgo, 09.02.11

O Governo português, e o ministro da Economia em particular, referem frequentemente o facto de as exportações portuguesas terem cada vez mais conteúdo tecnológico (sem link, que não tenho pachorra). Hoje, no I Congresso para as Exportações, houve nova sessão de doutrinação. São as forças de mercado a submeterem-se às linhas estratégicas delineadas pelo Governo. Sócrates sonha, Vieira da Silva faz, a obra nasce. Uh...

 

Acontece que este resultado não é especialmente surpreendente. A abertura do comércio a Leste colocou Portugal a concorrer com economias especializadas em produtos de baixo preço (a China é o maior exemplo). Isto criou dificuldades às empresas que competiam nessa divisão. Mas abriu um mercado enorme a todas as outras que jogavam numa divisão acima, aumentando a procura pelos seus produtos. Não é sapiência. É o mercado.

 

E isto é a nossa maior tragédia. Os tipos que definem as grandes linhas da política económica nacional, que gizam os planos de investimento, que escolhem as prioridades, alocam recursos e mexem os cordelinhos ainda não conseguiram perceber uma das ideias mais antigas da economia: o conceito de vantagem comparativa. Citam Krugman e Stiglitz sem terem percebido Ricardo.

 

 

My own, personal Deolinda

Rui Passos Rocha, 07.02.11

 

Acima podem ouvir a nova música dos Deolinda. Imagino que já a conhecem bem, mas pareceu-me melhor deixá-la aqui. Isto porque resolvi refazer a letra da música Parva que eu sou, desfazendo a tese socialista original e substituindo-a por uma liberal, que me parece mais consistente e moderada. O título é Parvos que eles são e é melhor lido se ao mesmo tempo ouvirem o original, porque perceberão que mantive a cadência da música. Cá vai:

Sou da geração sem remuneração
e sei que me tentam vender uma ilusão.
Os parvos que lá estão!

Porque isto vai mal e está p'ra piorar.
Não é assim tão mau eu poder estagiar.
Que parvos que eles são!

Assim posso demonstrar
que tenho valor
e que, quando for possível,
quererei assinar.

Sou da geração «casinha dos pais».
Como ficaram com tudo, vou exigir-lhes mais.
Que parvos que eles são!

Filhos, esposas, estou sempre a adiar
E a culpa é de quem nos quis deslumbrar.
Que parvos que eles são!

E fico a pensar,
endividar os mais novos,
assim, cada vez mais,
só pode acabar mal.

Sou da geração «vou queixar-me p'ra quê?»
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parvos que eles são!

Sou da geração «eu já não posso mais»,
que esta situação dura há tempo demais.
E parvos eles não são!

Isso faz-me desejar
que quem me governa
pense mais na minha
do que na sua geração.

O que sei sobre o Egipto [3]

Rui Passos Rocha, 07.02.11

Um senhor de nome Mário Bacalhau (não, isto não vai correr mal; ou pelo menos se correr será por outro motivo) lançou há uns tempos valentes um livro sobre as atitudes políticas dos portugueses desde 1973. Sim, 1973. E o que concluiu, entre outras coisas, foi que a população era muito favorável a reformas democráticas. E a revolução aconteceu, mas teve de ser despoletada pelos capitães descontentes. A democracia fez democratas. O que está a acontecer no Egipto pode ser o inverso (democratas a fazerem uma democracia), se for verdade o que disse há tempos Charles Kurzman numa conferência em Lisboa: que as atitudes políticas dos árabes em países, vá, árabes são praticamente tão pró-democráticas quanto as dos ocidentais. E isto é assim para perguntas gerais, mas também para as mais miudinhas. Partindo disto, talvez seja possível criar paralelismos entre o Egipto e Portugal: tal como Marcello Caetano, também Mubarak só sairá se empurrado pelos militares (cujos vencimentos aumentou) e para o exílio; El Baradei será o Mário Soares, o líder pró-democrático do sítio; mas também haverá um Cunhal, o tipo da Irmandade Muçulmana (acho que é assim que se chama). Falta é saber se entre os militares há capitães de Abril, ou de Fevereiro, ou de Março; militares menores descontentes com o desnível salarial da corporação e influenciados por uma ideologia democrática, liberal ou iliberal.

Baldas

Rui Passos Rocha, 07.02.11

Eu digo-vos o que para mim seria óptimo: o PSD ter um discurso sensato, paternalista até, que contrastasse com a gritaria do PS; e o PSD coligar-se desde já com o - novinho em folha - PAN-Partido pelos Animais e pela Natureza, que daria ao país o próximo ministro do Ambiente. Mas a realidade é outra: o PS grita que o PSD não pode vencer as eleições porque delapidará o nosso virtuoso Estado Social; e o PSD responde com tretas vagas, indiciando que é mesmo isso que vai fazer mas fazendo-o como se fosse errado. Feliz ou infelizmente, o PSD é um partido português, logo centralista, estatista e mais um ou outro ista que não se m'alembra agora. Por exemplo há dias, quando Sócrates anunciou que o PS não despedirá ninguém da função pública (ó votos, votinhos, venham até mim), a reacção do PSD deveria ter sido que qualquer serviço, privado ou público, será apenas prorrogável se não der prejuízo, à empresa ou ao Estado. Assim Passos Coelho demarcar-se-ia do despesismo do PS - e do PSD também, atenção - e faria saber que o seu PSD não aceitará baldas.

A brutalidade rural

Tiago Moreira Ramalho, 07.02.11

O Público de hoje nomeia, quando possível, as quarenta e três mulheres que, ao longo de 2010, morreram por violência doméstica. Além de as nomear, ainda apresenta uma série de dados estatísticos sobre as mortes. Um deles é francamente revelador do quão errados estamos, tantas vezes, sobre a nossa terra. Quando se distribuem as mulheres pelo mapa do país, notamos que, grosso modo, só se morre de violência doméstica nos grandes centros urbanos. Não há mulheres assassinadas em Beja, em Évora, em Bragança ou na Guarda. As mulheres morrem em Lisboa, em Setúbal, no Porto e em Coimbra. É o país avançado, civilizado, moderno a viver em pura barbárie, enquanto os nossos saloios, os nossos rednecks, apesar de tudo, conseguem dar uma lição a todos os outros. Nas brutais aldeias rurais, pobres, desdentadas e com sotaque, os homens e as mulheres, com todos os seus problemas, vivem, pelo menos, atrás da morte. Antes de lhes apontarmos o dedinho «educador», devíamos pedir-lhes umas orientações.