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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Eu quero monopólios privados

Tiago Moreira Ramalho, 15.05.11

Não há, lamento, nenhuma alternativa ao monopólio privado que me satisfaça nos caos de monopólios naturais. A intervenção do Estado, seja pela intervenção directa ou indirecta na produção, nunca traz especiais benefícios, trazendo, no entanto, particulares prejuízos. Está tudo com medo das privatizações. Eu cá, só quero é vender.

I go first

Tiago Moreira Ramalho, 14.05.11

Há três anos atrás estive na campanha do PSD. Maluquinho, eu, na altura, de me meter em coisas dessas. O facto é que há três anos, quando o PS ganhou, o tom na campanha do PSD era exactamente o mesmo: nós não queremos José Sócrates. Há três anos a campanha do PSD cometeu o fatal erro de transformar umas eleições legislativas num referendo a um homem. Hoje, voltamos ao mesmo. E o próprio PS compactua. Afinal, quais foram as ideias do PS que se revelaram nesta campanha, para tão excelentes resultados estatísticos? A repetição até à náusea de que o PSD quer acabar com a Escola Pública? O aviso alarmado de que o PSD quer cortar na Saúde? A defesa aguerrida do Estado Social contra uma Direita apologista do Estado Mínimo?

Não há, no PSD, quem diga que quer Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro. Ou se há, não se faz ouvir. O que se ouve é que não podemos ter mais Sócrates. O voto pedido é um voto contra um homem. E a circunstância vitimiza-o. No limite, valoriza-o. Afinal, se o melhor que os adversários têm a dizer é que não o querem a ele, então algo de bom ele há-de ter.

Muito bem. Eu não quero José Sócrates, mas, mais do que isso, quero um regresso do centro-direita ao governo em Portugal. Um centro-direita que, tendo assistido durante quase vinte ao afundar de uma economia num pântano que se regenera ciclicamente, pode e deve trazer um programa diferente. E haja ou não coligação, o facto é que o primeiro-ministro só pode ser um: Pedro Passos Coelho. E já que todos o dizem sem o dizer, eu vou primeiro: eu vou votar no PSD nestas eleições.

Um homem especial

Priscila Rêgo, 14.05.11

Muita gente está indignada com a taxa de juro cobrada a Portugal pelos parceiros europeus. Provavelmente, vai ficar próxima dos 6%, um valor que muitos economistas consideram uma verdadeira agiotagem. O argumento é simples: taxas de juro elevadas destinam-se a cobrir riscos de incumprimento, mas este risco de incumprimento caiu abruptamente depois de Portugal ter aceitado levar a cabo um programa de consolidação orçamental tutelado e vigiado por FMI, BCE e Comissão Europeia. Os 6% não são uma margem de segurança. Só abuso de poder.

 

Contudo, há que ter em conta que há sempre a probabilidade de o plano não ser implementado, ou ser colocado no terreno de forma deficiente. E aqui joga um papel fulcral a credibilidade dos líderes políticos. Tendo em conta que Sócrates não esperou sequer uma semana para vir negar aquilo a que tinha ainda há pouco tempo dado o seu assentimento, devemos ficar surpreendidos não com o facto de a taxa ser mais alta do que esperavamos, mas com o facto de ela ser porventura bem mais baixa do que se justificava.  

Auditoria à dívida pública

Priscila Rêgo, 14.05.11

Sinceramente, tenho alguma dificuldade em perceber a ideia. Louçã comparou a auditoria ao acto prosaico de olhar para a factura depois de se comer num restaurante, mas a analogia está longe de ser satisfatória. Uma factura está consignada a uma despesa específica: um bem que se utiliza ou um serviço a que se recorre. Mas uma dívida é não é emitida para cobrir responsabilidades concretas. Só para tapar um buraco - a que, por conveniência, se chama défice.

 

A receita com obrigações, bilhetes do Tesouro ou créditos bancários vai toda para o IGCP, que depois a disponibiliza (via Ministério das Finanças, provavelmente) aos serviços públicos. Não há nenhuma forma de dizer para que despesa concreta foi emitida uma determinada série de obrigações. É tão legítimo dizer que estas foram lançadas para pagar salários da função pública como para arcar com as responsabilidades financeiras das PPP associadas ao Grupo Mello.

 

O critério das taxas de juro também não é muito útil. ÉS verdade que o Estado português se financiou durante grande parte do ano passado a juros altíssimos, mas os agiotas de serviço não foram apenas os bancos internacionais. Foram também os particulares que aproveitaram a subida dos juros implícitos das obrigações para comprarem Certificados do Tesouro (CT), cuja remuneração está indirectamente indexada a estes títulos. Duvido que Louçã queira aplicar um "haircut" à minha avó, que acreditou na seriedade do Estado português quando aplicou as suas poupanças em CT.

 

Suspeito que Louçã tem uma ideia mais precisa do que pretende com a auditoria à dívida pública: perceber quais os grandes grupos (nacionais ou estrangeiros) que detêm dívida para fazer incidir sobre eles o ónus da reestruturação que tem vindo a defender. É uma opção legítima e compreensível. Mas ganharia em ser assumida como tal.

 

 

Questão sincera

Priscila Rêgo, 11.05.11

Gerou-se um consenso súbito em torno da necessidade de reduzir as margens de lucro do sector não transaccionável (SNT). Mas, se o SNT é demasiado rentável, no sentido de extrair rendas económicas do resto da economia, a solução para a maleita seria, em princípio, facilitar a entrada de empresas no SNT, aumentando a concorrência e esmagando as margens de lucro. Acontece que toda a gente está a falar precisamente no contrário: retirar recursos ao SNT e canalizá-los para o ST. Diminuir a concorrência num sector oligopolista e aumentá-la num sector que já é price-taker. Alguém me ajuda com isto?

Da figura de estilo

Tiago Moreira Ramalho, 08.05.11

No Expresso desta semana a Dra. Clara Ferreira Alves, cujo comentário sempre me aquece o espírito e me enriquece a mente, avisa-nos, dado ser esse o seu dever, avisar pessoas de coisas, que Bin Laden é «uma contradição». Adivinhem: logo no cabeçalho do longo ensaio que me escusei a ler, o indivíduo é «um exterminador exterminado». Linda, doutora, linda.

Pobrezinhos, mas honrados

Tiago Moreira Ramalho, 08.05.11

No meio do ruído que se instalou nos últimos meses, coisa desconfortável mesmo quando o jornal está guardado e a televisão desligada, distinguem-se duas correntes, se «correntes» é o nome apropriado. Uma defende que a primeira prioridade que o Estado português deve ter é o pagamento das dívidas e que tudo o que ponha esse objectivo em causa deve ser rejeitado. Outra defende que a dívida é secundária, que pode ser renegociada, e que o relevante é assegurar o emprego e o crescimento económico.

Como parece evidente, não há aqui um certo e um errado. Trata-se de simples confronto de preferências. Pessoalmente, tendo a concordar com a primeira linha, apesar do desemprego e recessão geradas, por uma razão muito simples: uma questão de dignidade e credibilidade. Renegociar a dívida, o que, posto em termos simples, significa pedir condições especiais que, no limite, podem concretizar-se em «perdões» (daqueles que demos à África subdesenvolvida à conta, dissemos na altura, da sua incapacidade de se governar) significa que seremos por muitos e bons anos, isto se não for permanentemente, considerados quase inimputáveis pelos restantes Estados. Um país do primeiro mundo que é incapaz de se organizar a fim de pagar o que deve. Isto traz incerteza e pode comprometer seriamente o investimento durante os próximos anos, dados os prémios de risco que tal incerteza implica. Claro que o caminho tem um custo – a recessão no curto-prazo. E é claro que optar pelo caminho diverso poderia ter outros interesses (o problema não é a dimensão da dívida, mas sim a nossa capacidade de a suportar – afinal, há por aí muitos países com dívidas públicas assustadoramente superiores à nossa). No entanto, se queremos ser um Estado respeitado, tanto na esfera económica como na esfera política, temos de ser capazes de, numa situação destas, dar um passo atrás para que nos seguintes possamos ter a coluna direita. «Pobrezinhos, mas honrados»? Sim. É isso mesmo.