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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Descubra as diferenças

Priscila Rêgo, 17.09.11

A derrapagem na Madeira não é novidade. O Governo Regional informara já a população de que, para defender o Povo Madeirense, a alternativa às medidas financeiras político-partidárias do anterior Governo socialista que visavam parar a vida do arquipélago foi a de não se render, resistir, mesmo à custa do aumento da dívida pública (...) Nem paro com as obras nem vou afastar ninguém da função pública. 

 

Qual é o sentimento da maior parte dos portugueses em relação a isso? Espanto por um político que assume o descontrolo total das suas contas; desprezo  pela pesporrência com que garante que se vai manter em business as usual; e nojo pela lata de ainda vir pedir ajuda e atirar as culpas para a "Esquerda". 

 

Agora imaginem que o Jardim dizia alguma coisa deste género: 

 

Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias. Aumentou por uma boa razão: para responder à crise. E tivemos bons resultados, foi [o aumento do défice] que permitiu à economia resistir à crise. [Ela] ainda não acabou e em 2010 o Estado vai continuar a fazer um esforço orçamental muito grande.

 

A principal diferença está na linguagem mais polida. Mas para quem vomita ao ouvir o Jardim, a citação anterior fornece uma boa pista para a razão pela qual a Alemanha está pouco interessada em emitir eurobonds. Ou, na formulação feliz do João Miranda, parece que o João Jardim quer lusobonds.


Take it easy, boys

Priscila Rêgo, 15.09.11

O Estado Social morreu. Vamos todos ter de viver com menos direitos, menos segurança e menos amparo. É um facto da vida. É senso comum. É, no fundo, uma treta.

 

A morte do Estado Social costuma ser enunciada em três passos: a) o Estado social foi financiado a crédito; b) o crédito secou com a crise; c) sem crédito, lá se vai o Estado Social. É uma narrativa simples, segundo a qual o Estado Social é um monstro alimentado a défices. O seu estertor da morte é ditado pela paciência dos credores.

 

A tabela de baixo mostra, para os principais países da OCDE, o peso do Estado Social e respectivo défice orçamental. O Estado Social é o somatório das despesas com educação, saúde, prestações sociais e apoios à habitação. Não é um conceito perfeito, mas sempre é melhor do que estarmos a falar sem números à frente. Os valores, em percentagem do PIB, são relativos a 2009, o período mais recente para o qual há dados. 

 

 

 

Não me dei ao trabalho de fazer regressões, mas até a olho nu salta à vista que não há praticamente relação nenhuma entre o peso do Estado Social e défices. A causalidade até parece ser a inversa: entre os quatro países com mais gastos sociais estão três dos que apresentam rombos orçamentais mais curtos (Dinamarca, Finlândia e Suécia); e os três portentos liberais - EUA, Reino Unido e Irlanda - estão no pelotão da frente dos deficitários. Se alguém está prestes a morrer, não parece ser o Estado Social.

 

Como é que isto se explica? A pergunta é capciosa, porque parte do princípio que há um fenómeno a explicar. Não há. Os défices são a diferença entre receitas e despesas: os países com Estados Sociais mais robustos simplesmente conseguiram, com sucesso, adaptar os gastos à sua dimensão económica. É no Reino Unido e na Irlanda, não na Suécia e Finlândia, que os Governos estão a cortar salários e a despedir. Ok, na Grécia e Portugal também - mas então chame-se-lhe, assumidamente, um problema de défices e não de Estado Social.

 

Isto não implica que, ceteris paribus, o Estado Social não implique uma perda de eficiência, se interpretarmos "eficiência" num sentido puramente paretiano. Eu até concordo com a ideia de que pôr uns poucos a gastar o dinheiro de muitos em benefício de terceiros é um óptimo caminho para o desperdício; e parece-me óbvio que o Estado Social é mais um luxo de países ricos do que um factor explicativo dessa riqueza.

 

Mas e depois? A não ser que haja uma súbita - e inédita em 60 anos... - preocupação com a eficiência económica em detrimento de tudo o resto, não vejo razões para antever uma vaga de fundo contra o Estado Social. Parece-me um pouco o wishful thinking de ver "contradições internas" do sistema económico como catalizadores de mudanças sociais. Nunca foi um modelo de previsão muito robusto.

 

Sim, muitos países estão a cortar despesas e a aumentar impostos. Mas eu proponho uma grelha interpretativa diferente. Em vez de "o Estado Social tornou-se insustentável e está a morrer", acho que faz mais sentido dizer que alguns países, por inépcia, irresponsabilidade ou azar, gastaram demasiado e vão ter de passar por um período de ajustamento, provavelmente longo e com toda a certeza penoso. Vão ter cortar a fundo na despesa. Inevitavelmente, alguma será social. Mas não vamos decretar o fim do Estado de Direito só porque o nosso próprio Governo quer diminuir os gastos com tribunais.

 

Lições islandesas

Priscila Rêgo, 08.09.11

Rui Tavares escreveu ontem no Público acerca do caso islândes (podem consultar o artigo no seu blogue). O artigo é mais um "puxão de orelhas" à Esquerda tuga que preferiu ficar em casa a dialogar com o FMI do que propriamente um elogio às maravilhas da heterodoxia económica, e por isso o meu apontamento pode até parecer um pouco injusto. Ainda assim, e como estava para escrever acerca disto há algum tempo, aproveito a oportunidade.

 

O Luís explica

Tiago Moreira Ramalho, 08.09.11

«O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente, não explicam a situação.

Claro.

O que explica a situação é o sol e a praia, a ausência de valores, o colapso das famílias, o tabagismo e o consumo de psicotrópicos, o declínio da fé verdadeira, o aborto livre e a natural propensão para a indolência do barrasco lusitano.»

 

Luís M. Jorge, no Vida Breve

Lista de prioridades

Tiago Moreira Ramalho, 08.09.11

O Henrique Raposo escreveu há dias sobre esta brincadeira de se manter o aborto completamente gratuito no Serviço Nacional de Saúde, ao mesmo tempo que se aumentam impostos e taxas sobre bens e serviços de primeira necessidade, incluindo outros serviços de saúde de relevância bem maior. Reaccionário, chamar-lhe-iam, porque não aprenderam palavras alternativas para evidenciar simples discordância. O facto é que o Henrique estava coberto de razão e mais razão tem hoje quando se anuncia que a pílula vai deixar de ser comparticipada. Isto já não está no âmbito da desorganização. Isto entrou no reino da estupidez.

O futebol como metáfora

Bruno Vieira Amaral, 08.09.11

No seu livro A Doença Como Metáfora, Susan Sontag insurgia-se contra o recurso a metáforas bélicas quando se fala de doenças. Sontag pensava que essa utilização despreocupada da metáfora condicionaria a percepção que o paciente tinha da doença (um ataque, uma declaração de guerra) e do próprio corpo (um campo de batalha). Isto contribuiria para uma auto estigmatização do doente de cancro (e todos nós sabemos como ainda hoje o cancro é tão dificilmente verbalizado, encolhido no eufemismo da doença prolongada) que depois se transferiu para os doentes de Sida (A Sida e as suas Metáforas foi o livro que Sontag dedicou ao assunto).

 

Será que a doença tem um potencial metafórico bélico inato ou foi a utilização continuada da metáfora bélica que formou a nossa percepção da doença enquanto guerra? Certamente o conhecimento científico do modo como o nosso corpo se defende (já estou no domínio da metáfora) das doenças aumentou a metaforicidade da doença. Algumas pessoas vencem a batalha contra o cancro (fortes) e outras perdem-na (fracos). O sobrevivente do cancro é um vencedor, mas aquele que sucumbe ao cancro será um derrotado? Quando se sabe que uma figura pública padece de uma doença grave, a metáfora é inevitável: “x prepara-se para a maior batalha da sua vida”. No fim, quando as coisas correm mal: “Esta era uma batalha (desafio, guerra) que não podia ganhar” ou “o grande x finalmente encontrou um inimigo que não pôde derrotar”, etc.

 

Com o desporto passa-se algo idêntico. O futebol, por exemplo, é em si mesmo, no rectângulo de jogo, uma metáfora da guerra, e os próprios jogadores são caracterizados metaforicamente (defesas, atacantes, ponta-de-lança, médio defensivo, o guarda-redes que protege “o último reduto”, etc), há remates que são bombas, petardos, mísseis; há entradas assassinas (mas que não matam ninguém), ambientes infernais (mas é só barulho), equipas que sofrem baixas (mas recuperáveis a tempo do próximo jogo), toques a reunir, treinadores especialistas em levantar o moral das tropas, guerreiros do Minho, sargentões, bombardeiros alemães, setas apontadas à baliza adversária, etc, etc. Num desporto que é todo ele uma imensa metáfora porque é que o termo “desertor” causou tanta indignação a algumas pessoas? Paulo Bento respondeu à altura e justificou-se precisamente com as inúmeras metáforas à volta do futebol (algo tão natural que Ricardo Carvalho arranjou logo outra, a do mercenário, tão frequentemente utilizada). A acusação que Paulo Bento ter-se-á excedido ao usar uma linguagem militar não é ofensiva, mas simplesmente estúpida. Paulo Bento limitou-se a esticar o potencial metafórico do futebol para cobrir uma situação concreta e pouco habitual. Porque no imenso parque de diversões metafórico que é o futebol àquilo que Ricardo Carvalho fez chama-se deserção. Ao contrário do que se pode pensar, Paulo Bento não teve um excesso de imaginação militar. Limitou-se a falar na língua que mais bem domina, o futebolês.

Leituras criativas

Tiago Moreira Ramalho, 07.09.11

A Shyznogud faz uma interpretação algo, digamos, ‘livre’ das palavras de Vítor Gaspar. Porque se é certo que tudo o que cita está na entrevista dada, o problema são aqueles ‘(…)’, já para não dizer o que está atrás e o que está depois. Ora vamos lá analisar cuidadosamente o que disse o Ministro das Finanças ao Público, através da leitura integral da resposta:

 

O que pensa quando ouve as críticas que têm sido feitas, mesmo por membros dos partidos que formam o Governo, à vossa decisão de aumentar impostos e à inexistência de anúncios do lado da despesa?

Tem de se começar por reconhecer que é fundamentalmente diferente anunciar medidas de corte de despesa e efectivar cortes de despesa. O Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) parte do Orçamento de Estado (OE) para 2011. E esse OE de 2011, em conjunto com os documentos de execução que o acompanham e alguma medidas tomadas na

Primavera de 2011, dá lugar a um ajustamento previsto de 5,7% do PIB e, desses 5,7, o esforço está predominantemente do lado da despesa. Estamos a falar de 3,7% do lado da despesa. Isto corresponde a quase dois terços do esforço de ajustamento. Estes cortes na despesa estão a ser realizados e verificam-se mês após mês. Em 2011, há cortes de despesa todos os meses. E esta diminuição da despesa pública contrasta com o crescimento verificado em anos anteriores. Entre 2007 e 2010, a despesa total das administrações públicas cresceu mais do que seis pontos percentuais do PIB e ultrapassou em 2010 os 50% do PIB.

 

Fazendo uma pequena ficha de leitura ao pequeno mas pelos vistos quase impenetrável texto, quando o ministro acentua as diferenças entre anúncio e efectivação, não está a dizer que anuncia e não faz. Pelo contrário. Está a afirmar que a não existência de um anúncio não significa necessariamente a não existência de uma acção. Aceito que estejamos todos um pouco fechados no modelo antigo, em que se julgava que o anúncio público era por si só um acto performativo, mas algumas coisas mudaram nos últimos tempos.

Podemos atacar políticas, podemos atacar opções, podemos atacar curricula, se necessário. E neste momento, há muitas políticas, muitas opções e muitos curricula passíveis de, pelo menos, cuidadosa análise. Facto que me leva a espantar-me com a necessidade de criar, num processo próximo do artístico, matéria de discussão que à primeira leitura se revela confrangedoramente básica.

Apimentar

Rui Passos Rocha, 06.09.11

Notícia (uns grãos de pimenta): Pedro Passos Coelho afirmou hoje em Castelo de Vide, no encerramento da Universidade de Verão do PSD, que espera fazer do ano de 2012 o ano do princípio do fim da emergência nacional. [...]

Lead da notícia (meio frasco): O primeiro-ministro fez hoje uma espécie de anúncio do fim da crise, apontando 2012 como o ano do princípio do fim da emergência nacional.

Título da notícia (o frasco todo): Passos Coelho anuncia princípio do fim da crise em 2012