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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Despesa I

Priscila Rêgo, 01.09.11

Há duas formas de avaliar os cortes de despesa pública feitos pelo Governo. A primeira é ler a blogosfera portuguesa e ouvir a generalidade dos comentadores nacionais. A segunda é ir ver os números que já são conhecidos. As duas metodologias conduzem a resultados substancialmente diferentes.

 

Segundo a blogosfera (vejam o que se escreve no Blasfémias, por exemplo), o Governo não tem feito outra coisa que não aumentar impostos para acomodar despesa adicional. É um maroto, este Vítor Gaspar. Mas os números revelados pela Direcção-Geral do Orçamento retratam uma realidade ligeiramente diferente. Até Julho deste ano, a despesa do Estado estava a recuar 4,8% relativamente ao ano passado. E esta hein?

 

Sei que em terra de cegos quem tem um olho é rei, mas mesmo assim vale a pena comparar com o legado socrático. Segundo a mesma fonte, no final do ano passado o Governo socialista tinha feito a despesa aumentar em 3,7%. E isto em ano de "austeridade sem tréguas", com um Orçamento e dois ou três PEC's pelo caminho. Não se pode dizer que Vítor Gaspar não fica bem na fotografia, por muito que o termo de comparação também lhe dê uma ajuda valente.

 

De onde vem toda esta indignação? Presumo que uma parte seja percepção selectiva. Desde que o "desvio colossal" foi detectado, o Governo apresentou medidas exclusivamente do lado da receita (e acabou por se pôr a jeito ao abrir a porta a cortes de despesa que  acabaram por não se confirmar). Mas isto não implica que a redução de despesa previamente anunciada não esteja no terreno, a ser implementada como o previsto. Lamentavelmente, só nos lembramos do mais recente. Fica no ouvido.

 

É possível argumentar que o Governo está, nesse caso, apenas a aplicar o plano gizado pelo anterior Executivo. Isto é verdade, mas não lhe retira mérito, porque a execução de um Orçamento é tão ou mais difícil do que a sua planificação. Aliás, um dos problemas do Governo socialista era precisamente o facto não conseguir - por falta de vontade ou de talento - aplicar no terreno aquilo que desenhava no papel. Só por isso, já valeu a pena a mudança.

 

 

 

 

Gays, parvoíce e liberdade (2)

Rui Passos Rocha, 01.09.11

Em resposta ao texto em que defendi o direito de incentivar à não compra do Sol, o Ludwig Krippahl escreveu (vale a pena ler o texto todo) que "se mil pessoas não comprarem o jornal Sol em protesto contra o José António Saraiva e as suas opiniıes, causam um prejuízo mínimo ao jornal, quase nenhum ao José e nenhum às suas opiniões", pelo que a melhor solução será reagir "pelo diálogo, sátira ou persuasão racional, mas não pela força, ameaças ou coerção".

De acordo. A liberdade de expressão só será plena se for permitida de igual forma a expressão tanto de opiniões tidas como correctas, como das erradas e das dúbias, pois as primeiras sairão reforçadas pela sua divulgação, as segundas poderão ser alvo de contra-argumentação e as terceiras de debate frutífero. Em qualquer dos casos tenderá a sair reforçada a opinião que mais se aproximar da verdade (vem no Mill, filha). E, o que é mais importante, sairemos todos mais informados e tolerantes.

É por isso que, usando as palavras do Ludwig, temos "o dever de não erguer o punho só porque dizem algo de que discordamos, de não choramingar que nos ofendem e de não retaliar só por alguém defender uma opinião que nos incomoda". Isso faz com que, apesar de sermos livres para organizar boicotes deste tipo, devamos abster-nos de o fazer.

Se é verdade que editoriais parvos têm como consequência provável menos leitores futuros, também é verdade que a defesa de boicotes a opiniões parvas nos aproxima da intolerância e da aceitação de decisões mais radicais, como a proibição da venda do jornal. É neste ponto que o texto do Ludwig muda a minha opinião inicial.

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