Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Explica lá como é que se faz aquela coisa de só ler os posts do João Miranda no Google Reader e passar por cima de cretinices destas.


Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

O que os social-democratas da Madeira fizeram na noite eleitoral ultrapassa todos os microfones roubados e mais providências cautelares e o que mais se apresentar como ataque à imprensa nos últimos anos. É extraordinário que um jornal tenha sido atacado com cânticos de ódio e de instrumentinhos de hooligan e ninguém, ou quase ninguém – honra se faça à Fernanda Câncio – tenha trazido a questão a público. Não vejo televisão portuguesa, mas tenho acompanhado os jornais e pouco ou nada vi.

Há que dizer, também, que não deixa de ser extraordinário que as pessoas que há meia-dúzia de meses saíram de casa numa tarde soalheira para se prostrarem à frente da Assembleia da República em defesa a liberdade de imprensa, se remetam agora a um infeliz silêncio. Parece que a «causa» acabou quando acabaram a sobremesa e foram para casa.


Tiago Moreira Ramalho

Quando regressar, vou ler um livro do José Luís Peixoto, um do valter hugo mãe e um do Gonçalo M. Tavares. Temos de começar a saber quem é esta malta.


Rui Passos Rocha

Talvez seja simplista chamar anti-capitalistas aos manifestantes gregos, espanhóis e, mais recentemente, norte-americanos. Parte importante deles pode apenas querer reformar o sistema, torná-lo mais igualitário ou simplesmente receber mais dele, em vez de querer uma revolução.

 

Isto aplica-se também a quem for para a rua no dia 15: a página oficial diz apenas "é tempo de nos unirmos; É tempo de eles nos ouvirem". Até o blogue português do 15Out, afirmando-se contra "a lógica neoliberal que atribui aos mercados mais direitos do que às pessoas", escreve que é composto de "gente que votou em muita gente, e gente que nunca votou".

 

Mas para simplificar vou chamá-los anti-capitalistas. Uma das pessoas que encaixam no perfil, e que - imagino - se manifestará no dia 15, acusou-me ontem de tratar as pessoas como números depois de lhe ter dito que as manifestações serão mais significativas nos países cuja percentagem de manifestantes for maior face à população total e cuja percentagem de anti-capitalistas (a avaliar pelos indicadores incluídos em sondagens) for menor.

 

Ou seja, se saírem à rua 5% de gregos e 5% de americanos será mais significativa a manifestação norte-americana, uma vez que tradicionalmente nos Estados Unidos há maior apoio ao sistema capitalista. Mas concluir algo como isto, de acordo com o meu crítico, é olhar para as pessoas - que merecem, todas elas, igual respeito - como se elas fossem números.

 

O problema é que há situações em que devem ser isso mesmo: nas ciências sociológicas faz todo o sentido estudar grupos de pessoas; e na política decide-se formas de maximizar o bem-estar ou minimizar o mal-estar de grupos sociais, laborais ou económicos.

 

A própria moral também funciona com números: o filósofo Michael Sandel apresentou aos seus alunos de Harvard a seguinte hipótese: o indivíduo A está numa ponte junto ao indivÌduo B, que desconhece. Ao fundo, perto de ambos, aproxima-se uma carruagem que, com toda a certeza, matará por atropelamento cinco indivíduos que caminham nos carris.

 

Há apenas três soluções possíveis, diz ele: não fazer nada e assistir à morte dos cinco desconhecidos; atirar o indivíduo B para a morte por atropelamento nos carris, tendo a certeza de que o seu corpo parará a carruagem e assim poupará a vida dos outros cinco; ou o indivíduo A atirar-se heroicamente em vez de voluntariamente promover a morte do indivíduo B.

 

Depois Sandel perguntou aos alunos o que fariam. A resposta da larga maioria? Não foi, garanto-vos, ficarem parados a assistir...


Priscila Rêgo

Genericamente, concordo com o Tiago na crítica que faz ao post do João Galamba. Mas acho que foi demasiado brando em relação uma ideia que me parece mal concebida de raiz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Não conheço a obra dos últimos laureados para o (chamado) Nobel da Economia, mas também não é isso que pretendo discutir. O que pretendo discutir é se podemos ou não olhar para a Economia como uma ciência ou nos teremos de resignar a chamar-lhe arte, como escreve o João Galamba.

Há dois argumentos que são particularmente repetidos nesta discussão. As relações causais não podem ser estabelecidas na Economia porque, em primeiro lugar, todas as acções dos agentes são contingentes (argumento que o João usa) e, em segundo lugar, porque não podemos fazer experiências controladas, o que nos impediria de saber o real efeito de cada acção de um agente (argumento que o João, felizmente, não usa). Curiosamente ou não, ambos os argumentos partilham a mesma fonte de desgraça: facto de assumirem, sem demonstrarem, que um obstáculo ao desenvolvimento da ciência constitui um entrave absoluto ao seu desenvolvimento. Estes obstáculos até poderiam ser inultrapassáveis, é um facto. No entanto, nada nos diz que o são. E é até bastante plausível que o não sejam.

A impossibilidade de criar experiências controladas para testar teorias não é exclusiva da Economia. Pensemos nas ciências ‘naturais’. Já alguém conseguiu meter um satélite à volta de Júpiter para ver se orbita? Não. No entanto, ninguém nega o carácter científico da Astronomia. Mesmo se nos primeiros duzentos anos havia gente a dizer que a Terra era o centro do universo e semelhantes coisas.

Já a multiplicidade de contextos e a variabilidade de comportamentos dos agentes dificilmente constituirão impeditivos do desenvolvimento de regras de causalidade em Economia. A única coisa que tem de se perceber é que em vez de a regra ser simplesmente ‘Se A, então B’ (que são, verdade se diga, bastante raras), tem de ser ‘Em C, se A, então B’ (muito mais comuns). Se eu atirar uma pedra para o chão aqui onde estou, ela vai cair; se eu a atirar para o chão num outro planeta, ela talvez flutue (isto é um contexto, mesmo que possa ser incluido na teoria científica). E para se descobrir aqueles ‘C’s, temos ainda de passar muitos e bons séculos a estudar o que os define, pegando nas irmãs marrecas da Economia, geralmente pouco interessantes para os actuais ‘artistas’ – a Psicologia, a Sociologia ou a Antropologia. Ou isto, ou continuar convictamente a fazer acrobacias.


Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

«So now we know that there is a secret memo that authorized a secret killing of a US citizen—and both the memo and the killing remain officially “secret” despite having been reported on the front page of The New York Times. Whatever one thinks about the merits of presidents ordering that citizens be killed by remote-controlled missiles, surely there is something fundamentally wrong with a democracy that allows its leader to do so in “secret,” without even demanding that he defend his actions in public. (…)

As American citizens we have a right to know when our own government believes it may execute us without a trial. In a democracy the state’s power to take the lives of its own citizens must be subject to democratic deliberation and debate. War of course necessarily involves killing, but it is essential that at a minimum, the lines defining the state’s power to kill its own are clearly stated, and public—particularly when the definition of the enemy and the lines demarcating war and peace are as murky as they are in the current conflict. Leaked accounts to The New York Times are no substitute for legal or democratic process. As long as the Obama administration insists on the power to kill the people it was elected to represent—and to do so in secret, on the basis of secret legal memos—can we really claim that we live in a democracy?»

 

David Cole, NYR Blog


Rui Passos Rocha

Acabou de sair do forno um livro chamado The Dictator's Handbook: Why Bad Behavior is Almost Always Good Politics, onde os autores comparam os governantes em ditaduras e democracias recorrendo a uma série de estudos científicos sobre a matéria. Algumas das conclusões não surpreendem, como a de que, apesar de ambos terem o mesmo objectivo - o de se manterem no poder o maior tempo possível -, os ditadores perseguem-no distribuíndo recursos junto das elites e forças da segurança, ao passo que os democratas devem fazê-lo sobre o maior número possível; e a de que o envio de dinheiro humanitário para países pobres governados por ditaduras tende a perpetuar o regime, pois é sobretudo redistribuído pelas elites e não pelo povo (vejam no YouTube o que a Dambisa Moyo e o George Ayittey têm a dizer sobre isto).

 

Mas parece que há um capítulo dedicado a algo que nunca me tinha passado pela cabeça: os aeroportos. Segundo os autores, nas ditaduras os aeroportos tendem a ser mais próximos das grandes cidades, sendo as estradas praticamente rectas, do que nas democracias, em que são ziguezagueantes e mais longas. Em princípio isto espelha a menor preocupação (para não lhe chamar outra coisa) dos ditadores para com a propriedade privada, até porque os pequenos proprietários não têm poder contra um Estado poderoso; e, por outro lado, também poderá significar que os ditadores querem poder pôr-se a milhas depressa caso haja fumo de revolução.

 

Como só li a recensão que acima linkei não sei como fizeram os autores para distinguir ditaduras de democracias. O pouco que sei é que a ciência política tem vindo a abandonar esta dicotomia em favor de uma abordagem por graus: há democracias e democracias, assim como há ditaduras e ditaduras. Por isso, à partida parece-me discutível o ponto de partida do livro. Por outro lado, não sei se a tese dos aeroportos - a ser verdadeira também numa abordagem por graus - seria aplicável num estudo comparativo de ilhas não independentes mas com estatutos constitucionais em parte autónomos dos Estados centrais. Ainda assim, só por curiosidade fui dar uma olhada no Google Maps à distância entre o aeroporto da Madeira e o Funchal e descobri (nunca lá estive) que é de aproximadamente 16km. Um bocadinho acima, o aeroporto João Paulo II dista apenas 5km de Ponta Delgada. Ou seja, em princípio não é por aí...


Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

A Palmira Silva respondeu às minhas objecções (esta e esta).  Bom, ela não me refere explicitamente, mas o post tem todo o aspecto de me ser dirigido. Diz que Portugal é um dos países europeus com mais desigualdade, afirma que o nosso sistema fiscal é um dos que mais se apoia na tributação indirecta e nota que a nossa economia foi muito afectada pela crise.

 

Concordo com tudo. Mas fico a pensar: que é que isto tem que ver com o que estava a ser discutido?

 

Convém recuar alguns posts. A Palmira defendeu que não há nenhum "monstro" na função pública, argumentando com o peso do emprego público no emprego total. Eu mostrei que, se compararmos a verdadeira "factura", medida pelo peso dos gastos públicos no total dos gastos, ficamos com uma imagem bastante diferente daquela que é transmitida pelo seu post. Portugal está à frente da média e no pelotão mais avançado quando se compara like with like.

 

Depois, mostrou a percentagem da despesa com saúde que é paga directamente pelos portugueses. Eu nem percebi muito bem aonde é que ela queria chegar: limitei-me a salientar que o corolário mais provável desse raciocínio seria a pouca eficiência do Serviço Nacional de Saúde - ainda para mais tendo em conta que, nas comparações internacionais, o Estado português já gasta com saúde um pouco mais do que a média da OCDE. Um atestado de ineficiência que é precisamente o contrário daquilo que uma colega sua tinha afirmado antes, e que ela aparentemente tentou corroborar. 

 

E foi só isto. A Palmira fala agora de desigualdade, estrutura de impostos e por aí fora; mas o meu propósito com os dois posts que escrevi era muito mais restrito: mostrar que, no que diz respeito à saúde e função pública, a realidade é um pouco mais complexa do que aquilo que a Palmira tentou fazer crer. Não são a última palavra na discussão; mas talvez justifiquem um pouco mais de humildade em vez daquela ironia professoral.


Tiago Moreira Ramalho

Sou a única que pessoa nascida na década de noventa sem um aparelhinho da Apple. Nunca cedi à tentação de adquirir uma engenhoca pimpona duas a três vezes mais cara que as competidoras directas do mercado. Consumidorzinho racional, desde pequenino. Significa isso que quando oiço ‘Steve Jobs’, não penso nas aplicações extraordinárias do iPhone, do iPod, do iPad ou do Macbook, isto apesar de assumir que são mesmo extraordinárias (toda a gente conhece aquela história de o hardware e o software serem feitos para combinarem em perfeita harmonia – coisa que a mim não me assiste). Penso sim no homem resumido neste Commencement Speech e na lição que os quinze minutinhos deixam. A sua carreira ajudou a construir o mundo em que eu vivo; este discurso ajuda qualquer um a construir o carácter com que quer viver.


Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
Bruno Vieira Amaral

Eu queria que ganhasse Chinua Achebe, mas vai ganhar um israelita.


Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
Bruno Vieira Amaral

Na polémica inaugurada por Maria do Rosário Pedreira, no blog Horas Extraordinárias, a propósito de uma crítica de José Riço Direitinho ao novo romance de Valter Hugo Mãe, reparei no comentário (e já são mais de oitenta) da leitora Carla Ferreira. Diz isto: “Poderá servir (a crítica), para nos situar na história do livro daquele autor, e nunca para julgar o que lá expõe, que pode ser perceptível ou não ao crítico, depende.” Depreende-se, pois, que a crítica é aceitável desde que seja feita ao nível dos textos de badana e contracapa, isto é, que sirva de bússola para “situar” o leitor, mas que nunca se atreva a querer ser farol para o iluminar. Lembrou-me este comentário um post publicado pela autora do blog há uns meses. Nele, insurgia-se, e com razão, contra alguns textos de divulgação de livros em que pouco mais se faz do que reproduzir por outras palavras a informação da badana e da contracapa. Critica-se a crítica por ser crítica, por julgar, e criticam-se textos que se fazem passar por crítica mas que, na verdade, não julgam, reproduzem.

 

A questão com a crítica de José Riço Direitinho é diferente, porque a mesma não é discutida no post de Maria do Rosário Pedreira. Fala-se na indignação de algumas pessoas pela parcimónia na atribuição de estrelas ao romance de Valter Hugo Mãe e a autora até sugere que o crítico, por ser também escritor e concorrente do outro, não deveria ter escrito sobre o livro para evitar que pessoas atribuam a crítica negativa a dor de cotovelo e rivalidade. Sobre aquilo que JRD escreveu nada se diz. Mas creio que ainda há uma grande diferença entre pessoas que se indignam com estrelinhas sem terem lido o livro (e provavelmente sem terem lido os livros de José Rodrigues dos Santos e de Mónica Marques que mereceram mais estrelinhas de outros críticos do Público), entre pessoas que vêm logo falar de rivalidade e dor de cotovelo, e um crítico que assina com o nome e que toda a gente sabe que é escritor (e podemos até ignorar que alguns dos críticos mais conhecidos são romancistas/poetas com obra publicada e menciono apenas quatro: Eduardo Pitta, José Mário Silva, Miguel Real e Pedro Mexia). A crítica só vincula quem a escreve. Da mesma forma, as acusações de rivalidade, de ajuste de contas e de inveja, ou em alternativa, as de lambe-botismo, amiguismo e fellatios literários, só descrevem as pessoas que as proferem. Uma coisa é certa: quando se lê uma crítica, não se está a consultar o oráculo de Delfos ou a subir ao Monte Sinai para regressar com as tábuas da Lei. Lê-se a opinião de alguém, uma opinião parcial, subjectiva, condicionada pelas leituras (que podem ser mais ou menos do que as do autor), pela cultura, pelos preconceitos, pelo gosto e até por aquilo que se comeu ao almoço ou por quem se comeu a noite passada, ou seja, a opinião de um indivíduo. Até aquilo que se espera de um escritor influencia a crítica: pode-se ser mais exigente com um grande autor do que com outro de quem nada se espera. É por isso que a crítica é assinada por alguém e não é reclamada por um colegiado de sábios. É por isso que um crítico dá cinco estrelas a um livro e outro dá uma bola preta ao mesmo livro.

 

No nosso pequeno meio, uma crítica negativa gera sempre discussão, mas normalmente pelos motivos errados: fazem-se processos de intenções, contabilizam-se agravos passados, alguém recorda um episódio obscuro entre crítico e escritor, esquadrinha-se a vida privada de cada um, mencionam-se invejas por prémios atribuídos, desentendimentos na fila do supermercado, estado civil, preferências sexuais, etc. Que o que está escrito seja a opinião livre de alguém que assina com o próprio nome e que, dessa forma, leva a jogo a sua honestidade intelectual e o seu trabalho é coisa pouco valorizada. O que interessa é falar das intenções subterrâneas, de jogadas de bastidores, dos ódiozinhos. Se formos por aí, a discussão arrisca-se a ser longa e desagradável e, aliás, até pode começar por onde tudo começa, pela publicação de um livro (porque é que uns são publicados e outros não),  passar pelo interesse mediático (porque é que um romancista estreante dá cinco entrevistas e outro não tem sequer direito a uma notícia) e acabar na atribuição de prémios (porque é que uns ganham mais prémios do que outros). Mais vale fazer de conta que vivemos no melhor dos mundos e que tudo isto tem apenas a ver com a qualidade do livro e não com factores extra-literários. Porque, a haver alguma discussão, não é justo que, sendo possível atirar tanta lama para cima de tanta gente e esconder a mão, havendo tantos factores a contribuir para o sucesso ou insucesso de um livro, para o reconhecimento ou esquecimento de um escritor, só as motivações do crítico/escritor sejam escrutinadas.


Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Vivo com dois alemães e um francês. Quando me perguntaram de onde vinha, disse baixinho que era ali para os lados da Espanha. Durante dois segundos não disseram nada, até que ‘Are you Spanish?’. ‘God no!’. E pronto, armado em Nuno Álvares, denunciei a minha falida origem aos meus mais generosos credores. Dede aí, sempre que peço sal ao alemão mais velho sinto o embaraço de quem já está a pedir de mais. Imagino-lhe o pensamento, todo em alemão. Como se a minha estadia não estivesse já a ser paga pelos pais dele, ainda tenho o descaramento de pedir pitadas de sal para dar melhor gosto à minha cozinha mediterrânica, tão parca em shnitzel. O alemão mais novo não tem sal, por isso não o chateio. O francês, ligeiramente mais alto que o seu presidente, age sem grandes conflituosidades.

Mas isto é apenas uma pequena ponta do iceberg. Evito andar com outros portugueses e tento encobrir o sotaque lusitano. E, claro, quando digo de onde sou, e para quebrar o gelo que a minha origem cria, digo logo, numa gargalhada triste, ‘Yes, we are broke’. A pessoa, vendo que estou à vontade com a miséria da minha pátria, sente logo uma solidariedade relaxada, que permite a paródia sem o vexame. E tentamos discutir o que Portugal tem para discutir. Ontem, por exemplo, depois das cervejas, comecei a explicar ao neo-zelandês como é que o nosso sistema parlamentar funciona. Ele ficou admiradíssimo com a nossa prática de recrutar deputados nos escritórios de advogados. Achou ‘retard’ (não o culpem, é novo e neo-zelandês). Claro que lá mandei a laracha: ‘Oh, New Zealand probably works better, but you’ve got to admit that’s way easier to rule sheep’. O tipo mandou uma risada meio desgostosa, mas, como eu, lá quebrou o gelo ‘Actually, it’s quite complicated to manage 25 million sheep. We have seven sheep per person’. And we laughed. E a gente riu-se, porra. Tal como nos rimos no outro dia do americano contador de histórias. Muito crítico para com o seu país, que não é Portugal, o americano perdia-se nos podres que denunciava. No fim, dizia-nos ‘Every country has its own flaws. You can’t have it perfect, the whole package’. Até tem razão.


Rui Passos Rocha

Caros leitores: só porque na sexta-feira passada Isaltino Morais perdoou o Estado de Direito e o seu sistema judicial, que também é feito de seres "humanos como nós", não significa que viesse agora dar a outra face e sujeitar-se a levar segunda chapada da mesma juíza. Fez muito bem em pedir o seu afastamento do Tribunal de Oeiras. Afinal o homem é um bom cristão, mas não é - ainda - um Cristo.


Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Depois de falar sobre despesas com a função pública, o Jugular debruça-se sobre a saúde. Confesso que não percebi bem o corolário dos dois posts (o da Mariana Vieira da Silva e o da Palmira Silva). Houve muita gente indignada com as conclusões das duas, mas eu acho que elas até são contraditórias.

 

O post da Mariana é o mais fácil de interpretar. Ela apresenta um gráfico que mostra como a despesa com saúde per capita em Portugal (medida em paridades de poder de compra) está abaixo da média da OCDE. A ideia é simples: o SNS português não gasta muito dinheiro, ao contrário do que se pensa, e até tem bons resultados (medidos pela esperança média de vida). Há aqui duas questões diferentes que convém separar.

 

Em primeiro lugar, a despesa em causa inclui despesa pública e privada. Logo, é difícil estabelecer uma correlação entre gastos do SNS e eficiência do SNS. E quanto maior for a percentagem de despesa privada no total dos gastos mais difícil será atribuir os resultados da saúde ao input do SNS. Ironicamente, é a própria Palmira Silva que acaba por mostrar que Portugal é o quarto país da OCDE onde os gastos privados mais pesam. Não foi grande ajuda.

 

Este é o primeiro ponto. O segundo é que medir a eficiência do SNS através da taxa de mortalidade é, no mínimo... Enfim, redutor. Portugal está à frente da média na esperança de vida, mas está bem atrás na esperança média de vida aos 65 anos e ainda mais atrás no número potencial de anos de vida perdidos (fonte). O cherry-picking dá para os dois lados. É só saber escolher.

 

Já agora, há uma boa explicação para o facto de a despesa per capita com saúde ser, em Portugal, mais baixa do que na média da OCDE. É mais baixa pela mesma razão pela qual as despesas per capita em educação, em material militar, em segurança social também são: porque o nosso PIB per capita é dos mais curtos. Mas se pegarmos na despesa pública em saúde em percentagem do PIB, chegamos a uma conclusão ligeiramente diferente.

 

 

Portugal aparece a verde. A amarelo assinalei os países que têm um PIB per capita semelhante ao nosso (o intervalo é longo para não restringir demasiado o âmbito da comparação, mas é-o tanto no limite superior como no limite inferior). Estes valores estão provavelmente subestimados por não incluirem as despesas de hospitais empresa (os EPE como o S. João do Porto), que tecnicamente deviam ser considerados hospitais públicos.

 

Acho que a tese que a Mariana expõe está errada, mas pelo menos é clara. Quanto à da Palmira, não percebo o que quer dizer. Ok, Portugal é um dos países onde a despesa privada com saúde mais pesa na totalidade da despesa com saúde. Logo?...

 

Se é um argumento para alargar a cobertura do SNS, cai em saco roto. Como se vê ali em cima, o Estado português já gasta um valor relativamente elevado da riqueza produzida com a saúde pública - acima da média da OCDE e muito mais do que gastam países com um nível de desenvolvimento semelhante. Gasta mais e tem um défice muito maior. "Mais despesa", neste momento, não me parece uma recomendação que vá ter grande acolhimento.

 

Aquilo que os gráficos da Palmira me levam a concluir é precisamente o contrário do que a Mariana defende: o SNS não está a cumprir o seu papel. Imaginem uma Universidade com alunos mais pobres do que a média, que gasta uma quantidade de recursos superior à média na confecção da comida da cantina. Apesar disto, os alunos preferem comer nos restaurantes à volta da faculdade. Que é que isto nos diz acerca da qualidade da cantina?

 

Provavelmente, diz que os recursos estão a ser mal aproveitados, que há deficiência na gestão da cantina e trabalhadores eventualmente pouco motivados. Uma das razões para isto pode ser, paradoxalmente, preços demasiado baixos. Que incentivam os alunos a consumir demais, baixando a qualidade média do serviço e "expulsando" quem quer boas refeições para restaurantes da vizinhança. 

 

Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos práticos: as casas de banho do café ao lado de minha casa passaram a ser muito menos frequentada a partir do momento em que a casa de banho pública contígua começou a ser "portajada". As pessoas preferem pagar um café e usar o wc que vem como "bónus" a ir a usar uma sanita mal cheirosa e cheia de graffitis. Mas se a alternativa for uma sanita limpa e cuidada, podem escolher esta alternativa - mesmo que tenham de pagar 50 cêntimos para entrar.

 

Update - Este comentário pode ser útil para esclarecer uma parte mais confusa do texto.


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Vasco M. Barreto

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