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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Infiltrações

Tiago Moreira Ramalho, 24.10.11

A pátria assemelha-se a um pequeno barquinho de madeira que flutua precariamente sobre um leito de idiotice. Tentamos coordenar-nos o melhor que podemos, remando à esquerda e à direita em repetições infinitas até que, mais cedo ou mais tarde, quem sabe num daqueles muitos momentos em que estamos a descansar o braço e a cantar um fadinho, damos com um buraco no fundo que nos enche de estupidez em estado líquido. E aí começamos a falar de reformas de políticos.

A argumentação dói no estômago. Defendemos que aos políticos deveriam ser retiradas pensões às quais eles têm direito, desprezando pelo caminho o facto de alguns deles abdicarem delas livremente. Consideramos um direito adquirido isso de violar os direitos (ponto) de um certo grupo de pessoas que só pertencem (aqui reside a ironia) a esse grupo porque nós assim o quisemos.

Entendamo-nos: se for necessário, pois que se retirem temporariamente as reformas aos políticos – isso não é pior que retirar temporariamente os subsídios aos trabalhadores do Estado. Mas as ‘elites’ que façam o favor de evitar esse anarquismo cool de ataque indiscriminado ao poder, de ridicularização absoluta de quem apenas murmura, com medo das eventuais pedras arremessadas, que aquilo que recebem não é roubado, mas que está na lei. Os «nossos» direitos não são mais «direitos» que os deles, meus caros. Isto não é a quinta dos animais de pernas para o ar.

Ninguém salvou o coronel

Bruno Vieira Amaral, 24.10.11

Perante as imagens dos últimos momentos do coronel Khadafi - impotente, ensanguentado, a pedir clemência – a nossa moralidade flexível socorre-se de ensinamentos bíblicos (quem mata pela espada, etc.) e de uma ideia de justiça poética, de equilíbrio cósmico entre a vida que se leva e o fim que se tem. Ora, é precisamente a natureza daquelas imagens que me leva a pensar no absurdo dos conceitos de justiça e política, de bondade e, por estranho que possa parecer, de clemência. Absurdo aquele espectáculo de sede de sangue, primitivo e tribal, comparado com a respeitabilidade desejada por um Conselho Nacional de Transição de fato e gravata, sóbrio e sério, a acalmar o mundo e a proclamar a libertação do povo líbio. Que palavras são estas: Conselho Nacional de Transição, democracia, eleições, justiça? Onde é que, nessa linguagem tranquilizadora e grandiosa, prenhe de futuro e de ordem, se enquadra a morte de um homem daquela maneira? A natureza humana em acção, sem freios morais, indiferente à benevolência da linguagem, assusta. Não cabe nos livros, nem sequer em palavras que pensamos duras: ódio, violência, barbárie. A natureza humana que mata um homem daquela forma não conhece barreiras ou limites, é apenas um desejo de morte em movimento. Esperar que, Khadafi, uma vez capturado, tivesse um fim diferente, é ter mais fé nas palavras do que nos homens. E a única palavra que aqueles homens podiam dizer naquele momento era “morte”. Esqueçam justiça, liberdade, futuro. Morte. Não havia ali mais nada. Morte. Nada do que ali se fez serve para a reivenção do país. Morte. Viva a morte!

Somos todos de classe média

Rui Passos Rocha, 23.10.11

Lembram-se deste texto épico de Fernanda Câncio: «a maioria das pessoas da chamada “classe média” tem pelo menos umas horitas de “empregada” por semana. É talvez, digamos, a definição de classe média: ter uma/um empregada/o para “puxar as orelhas à casa”» (aqui)?

 

Até teve direito a resposta de Luís Aguiar-Conraria: «metade dos trabalhadores a tempo inteiro com salário completo recebe menos do que €735 (e não estamos a falar de salários líquidos). Cerca de 70% dos trabalhadores recebe menos de €1000. Não vejo como pode este trabalhador médio dar-se aos “luxos” descritos por Fernanda Câncio.»

Pois bem, vejam o resultado deste recente estudo argentino:

 

 

Uma possível explicação: «The authors suggest that this misperception may be related to the types of people respondents interact with, and therefore use as a reference point. If you’re mostly exposed to people earning about as much as you, you’re likely to think your earnings are average.» (daqui)

Revoluções

Bruno Vieira Amaral, 21.10.11

Agora que passaram alguns dias desde esse momento inteiro e limpo que foi o 15 de Outubro da indignação, já me sinto com forças para escrever sobre o assunto. Nos dias que se seguiram à manifestação, não me foi possível pensar coerentemente sobre o maravilhoso exemplo de participação cívica, de democracia directa e de construção do futuro que nos foi legado por milhares de compatriotas, um dos quais empunhava o que me pareceram ser duas garrafas de cerveja enquanto era infamemente varrido da democrática escadaria por forças policiais comprometidas com o Mal. Para me emocionar mais, só faltou um carrinho de bebé por ali abaixo. A bizarra proposta de invasão da Assembleia da República, que pode ser tranquilamente visitada por qualquer cidadão durante a semana, encantou-me: ficámos a escassos degraus de um novo regime, de uma nova constituição e de termos, finalmente, o governo que merecemos. Estava tudo muito bem feito: houve debate de ideias, votações de braço no ar e um megafone usado por um empenhado democrata que aconselhava, aos berros, os restantes democratas a não provocar distúrbios. Houve aplausos e apupos, imprecações e cartazes arte povera para ajudar ao realismo da reconstituição histórica. Foi assim um género de feira medieval, mas para recriar o ambiente dos anos 70. Sou um apreciador das revoluções feitas nestes moldes pacíficos e em que toda a gente procura, acima de tudo, não se aleijar e não enervar a polícia. Isto, para quem não teve a oportunidade de acompanhar as cerimónias em directo, é a verdadeira democracia e, se estiverem de acordo, podemos fazê-la uma vez por mês, à porta da Assembleia ou num descampado qualquer. Temos sempre o pretexto da austeridade que, insensível ao talento e à criatividade dos indignados, vai continuar a andar por aí.

Ensinamentos

Tiago Moreira Ramalho, 20.10.11

Há um capítulo do Macroeconomics dos Dornbusch, Fisher e Startz em que, discutindo a Grande Depressão, os autores defendem que o que levou à demora na recuperação nos EUA foi o facto de terem aplicado medidas de austeridade no meio da recessão (o keynesianismo, ao contrário do que é tão amplamente propalado, não foi aplicado por Roosevelt) e que no presente as economias já não passam por situações semelhantes, pois governo nenhum aplica medidas de austeridade num período recessivo. Hoje estamos a sentir nas carteiras que isto não é assim tão linear. Medidas de austeridade estão hoje a ser aplicadas por diversos governos. E o motivo é simplesmente a não existência de uma alternativa.

Há coisa de 80 anos aprendemos que o governo é fundamental para a atenuação dos ciclos económicos. Hoje estamos a rever a matéria, naquela parte menos agradável. É que se um governo quer gastar em períodos recessivos, para que os seus cidadãos possam evitar profundas recessões, então não pode gastar estupidamente em época de prosperidade. Vejamos se nos entendemos: toda a gente sabe que as medidas que hoje estão a ser aplicadas vão levar a uma recessão. O que toda a gente deveria saber é que estas medidas estão hoje a ser aplicadas porque não nos lembrámos no tempo de bonança que a tempestade poderia chegar.

Somos o Chile

Priscila Rêgo, 19.10.11

Pedro Lains diz que não somos a Grécia: somos o Chile.  Uma economia tradicional a ser gerida de acordo com ideias importadas à última da hora de um sítio distante e remoto. E eu concordo. Gaspar, de facto, mais parece um friedmaniac dos anos 80 do que o tipo europeu que costumamos (nós, europeus - e, nós, latinos, especialmente) deixar conduzir as finanças públicas. Não é assim que se faz as coisas por cá. Pelo menos, não foi assim que nos habituámos a fazê-las.

 

Mas notem que a crítica é substancialmente diferente daquela que se generalizou ao longo das últimas semanas: criticar o modo (e os modos) do programa e não a sua eficácia. Porque se a questão é a eficácia, o Chile, que em 1980 tinha um rendimento de 10% mais baixo que a média latino-americana, e em 2010 estava no pelotão da frente (mais 50% que a média), acaba por ser um exemplo inspirador. Ok, crescimento não é tudo. Mas para quem pensa que isto vai ser um poço sem fundo, deve ser mais do que uma mera consolação. 

 

«É segredo, avô»

Tiago Moreira Ramalho, 19.10.11

«O meu avô, comunista dos quarenta e sete costados, ensinou-me a "desconfiar do Poder" (assim mesmo, com uma maiúscula sublinhada por aquele vozeirão). Para o meu avô, o "Poder" estava nos banqueiros. É verdade que encontrei caminhos distintos do meu patriarca barbudinho, mas acabei por seguir o conselho avoengo: um brutal cepticismo, ontologicamente colado à minha pele semi-alentejana, leva-me a desconfiar de banqueiros e do crédito. E desconfio dos bancos pela mesma razão que desconfio dos partidos: o poder, seja ele político ou financeiro, deve ser olhado de esconso. O céptico, alentejano ou não, nunca baixa a guarda. Neste sentido mui visceral, nunca pedi dinheiro emprestado e, acima de tudo, não gosto de ver o meu país a viver do crédito, fingindo que é um sultanato mediterrânico. É por isso que defendo a imposição de um teto constitucional que limite o acesso de Portugal aos mercados da dívida.

Sendo um esquerdista coerente, o meu avô era ainda mais radical do que eu. Para ele, a constitucionalização do limite da dívida não seria suficiente. Apenas a proibição do acesso aos mercados poderia satisfazer o meu ancião. O mestre Raposo detestava os mercados, logo, queria impedir que Portugal pedisse dinheiro a esse capitalismo global. "Não pedes dinheiro ao demónio quando sabes que ele é o demónio", dizia ele. Devidamente imune ao materialismo histórico, esta teodiceia raposiana era coerente. O Sôr Agostinho não era louco, era apenas coerente com as suas crenças, isto é, queria um Portugal fechado, a viver do que tinha, sem a loucura dos dinheiros emprestados pela "agiotagem", recebendo apenas ajuda dos países amigos, como o Laos ou Coreia do Norte (desculpe, avô, mas já não há a Checoslováquia).

Posto isto, o meu avô não reconheceria a esquerda de hoje, a começar pelo PCP. Os herdeiros de Cunhal são contra a constitucionalização da dívida. O PCP, que devia ser o primeiro a tentar separar Portugal dos maléficos mercados, não quer esta medida. E, para mal dos nossos pecados, o centro-esquerda não parece muito distante desta posição. Quando defendeu o teto constitucional, Luís Amado foi rotulado de "neoliberal" pelo PS. A hipocrisia é notável: de manhã, o dr. Soares & afilhados dizem que o mercado financeiro é o demónio global, o sicário universal dos povos; depois, à tarde, os mesmos socialistas não apoiam a limitação do acesso a esse temível mercado. Então como é? Como é que ficamos? O problema é que a governação socialista depende dos mercados. O problema é que o socialismo local tem sido financiado pelo capitalismo global. Este é, aliás, um dos segredos de polichinelo do nosso tempo: sem os mercados, sem o "capitalismo de casino", a esquerda não sabe governar. A esquerda tem financiado a sua "justiça social" com o dinheiro da "malévola especulação". A crise de hoje representa o corte deste cordão umbilical omnipresente, mas nunca comentado (é segredo, avô). Sem o acesso ao reino das agências de notação, a esquerda está a ficar desorientada, sem bússola. Era por isto que o meu avô não queria a esquerda viciada nos mercados. É por isto que a esquerda precisava de ler as prosas que o grande Agostinho Raposo deixou lá nas terras situadas entre o Sobralinho e a Pouca Sorte.»

 

Henrique Raposo