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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Economia, essa batata

Priscila Rêgo, 15.06.11

João Pinto e Castro pergunta aqui por que é que os economistas aparentam saber tão pouco acerca de economia. Dou-lhe a palavra.

 

Os Nóbeis atribuídos nos últimos anos comprovam que os economistas investigam assuntos de grande relevância para o entendimento do funcionamento dos mercados, como sejam a psicologia dos consumidores, a informação assimétrica, as falhas de coordenação (...) Todavia, a síntese dessa investigação que é servida aos estudantes e à opinião pública ignora sistematicamente as limitações da racionalidade humana e as falhas dos sistemas económicos que delas decorrem, em favor de uma visão cor-de-rosa do funcionamento dos mercados desregulados. Assim, embora o estudo do comportamento dos agentes económicos demonstre que os pressupostos da microeconomia estão errados, ela continua a ser ensinada como se nada fosse.

 

É verdade que a opinião pública não está muito por dentro da "psicologia dos consumidores, a informação assimétrica""falhas de coordenação". Por outro lado, também duvido que saiba muito acerca de custos marginais crescentes, concorrência perfeita, lucros económicos e estratégias dominantes. Não é de estranhar: o espaço mediático pura e simplesmente não é muito propício à dissertação académica. Mesmo nas universidades este é um ambiente difícil de fomentar, como qualquer professor de licenciatura facilmente atestará.

 

O que vemos são boutades, palpites e "opiniões de especialistas", que dificilmente podem ser considerados grandes defensores do mercado. Admito que possamos ter experiências diferentes, mas nos jornais que leio o que costumo ver são economistas e empresários a pedirem constantemente apoios à exportação, mais investimento em I&D, ajudas sectoriais, linhas de crédito para aqui e acolá, etc. Aliás, é curioso que o exemplo paradigmático dado pelo JPC não tenha praticamente nenhum defensor no debate público - pelo menos que eu saiba, ninguém pede a eliminação do salário mínimo. 

 

Quanto à Academia. Sim, a microeconomia básica continua a ser ensinada nos cursos introdutórios como se nada fosse. Tal como a teoria da selecção natural centrada no indivíduo, a mecânica newtoniana e a divisão de números inteiros com recurso ao "resto", a despeito da descoberta do modelo mais sofisticado da selecção natural centrada no gene, da teoria da relatividade e da possibilidade de se utilizar fracções nas contas de dividir. Em parte, é inevitável. Temos de começar por algum lado e é mais fácil, útil e didático começar pelos modelos mais simples antes de se evoluir para os mais complexos.

 

É importante referir que mesmo os modelos mais simples permitem chegar a conclusões robustas e importantes. Ainda mais importante, são uma evolução enorme face à situação anterior, em que era impossível pensar a economia devido à ausência de qualquer enquadramento teórico. Mesmo que não seja rigorosamente verdade que F=m.a, esta fórmula é muito mais útil do que a ideia aristotélica de que os sólidos tendem a seguir a sua "posição natural".

 

Já agora, penso que dizer que os economistas académicos procuram, à semelhança dos físicos, uma "teoria geral unificada" não tem grande sustentação. A física tem progredido por convergência: abarcando cada vez mais fenómenos num corpus teórico mais fundamental e robusto. Newton mostrou que a queda dos graves e as órbitas planetárias são explicadas pela mesma força, Maxwell unificou o magnetismo e electicidade, algum físico cujo nome me escapa juntou a força nuclear fraca a estas últimas duas (força electrofraca) e o "Santo Graal" actual é conseguir conciliar tudo.

 

A economia, por outro lado, tem progredido por ramificação. Partindo de um conjunto sólido de fundamentos (a "baunilha" do cozinhado), os economistas acrescentam paulatinamente "ingredientes" mais exóticos: informação assimétrica, expectativas, preços e salários rígidos e por aí fora. Completa-se o modelo e vê-se até onde é possível explicar os fenómenos; quando a coisa não funciona, acrescentam-se mais uns pozinhos de mercados imperfeitos. Os físicos que procuram elegância nas suas explicações devem olhar para a moderna macroeconomia como um conjunto de retalhos muito pouco apelativo.

 

De facto, a crítica do JPC até poderia ser feita ao lado oposto do debate económico. Durante a década de 60, gerou-se a ideia de que a política orçamental teria de ser sempre expansionista. Depois vieram críticas que, na sua essência, diminuíam o valor dos multiplicadores. Havia efeitos de crowding out, economias abertas, expectativas dos agentes económicos e por aí fora. Quando, em anos recentes, estes efeitos foram mencionados para atacar a política orçamental pró-cíclica seguida em Portugal, não ouvimos propriamente elogios à decisão de "tornar o modelo mais realista", mas acusações de "neoliberalismo" e voodoo economics...

 

JPC nota também que "o presente ensino da economia não melhora em nada - bem pelo contrário - as competências dos gestores". Não sei se melhora ou não, mas também não me parece claro que isso fosse expectável. Afinal de contas, a economia estuda a forma como os seres humanos tomam as suas decisões e criam riqueza, mas não diz nada acerca da forma como é possível criar essa riqueza. Pedir a uma licenciatura em economia que ensine os seus alunos a criarem empresas e investirem parece-me um pouco como pedir a uma licenciatura em biologia que ensine os seus alunos a reproduzirem-se de forma bem sucedida.

 

PS- Ver também a resposta do Miguel Madeira.

 

  

 

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