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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Procura-se teórico brilhante de esquerda

Rui Passos Rocha, 12.04.10

Vasco Pulido Valente queixava-se há dias de que já não há, à esquerda, como houve em tempos, uma alternativa suficientemente apelativa ao sistema político liberal - resultante de um consenso sobre a suposta superioridade da economia de mercado. Não é que, vindo de quem vem, isto soe a mandamento celestial; afinal, não é assim tão raro VPV contradizer-se no espaço de semanas. Mas é verdade que a narrativa da sociedade alternativa foi sendo mirrada e é um nicho de cada vez menos ortodoxos - que não são, diga-se, assim tão poucos em Portugal: talvez uns 15% do eleitorado, ou seja, os da CDU e algumas facções do Bloco de Esquerda. Um intelectual com consciência de esquerda não mais é um tipo que concebe uma sociedade alternativa, com democracia directa ou participativa, igualitarismo e - como nos foi dito pelos marxistas soviéticos - um crescimento económico muito superior ao capitalista, baseado na muito maior vontade de trabalhar dos trabalhadores libertos. A prática demonstrou que não há tal coisa como uma vontade geral, a não ser, talvez, em comunidades tribais. Por isso, hoje ter consciência de esquerda é apelar a uma maior e melhor redistribuição, a um maior nivelamento salarial; em suma, a uma mais eficiente distribuição dos proventos da produção capitalista. A esquerda mainstream vergou-se à superioridade da produção capitalista e a ela submete as suas reivindicações igualitárias. Até que, previsivelmente, um novo teórico conceba uma sociedade alternativa mais próspera, porque a igualdade não é, para o eleitor médio, mais importante do que a riqueza.

5 comentários

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    RPR 17.04.2010

    Mas é esse o fundamento de sempre: o eixo esquerda-direita nasceu de clivagens sociais originárias na Revolução Industrial, ou seja, de modo muito redutor entre patrões e trabalhadores, entre ricos e pobres, entre as elites e as massas. Essa clivagem era uma clivagem económica, entre conservadores da ordem vigente e progressistas/socialistas/redistributores.

    O que o caro AFF poderá dizer, e com razão, é que o eixo esquerda-direita tem hoje menos relevância e/ou que há outras dimensões a acrescentar a essa análise: não há só o eixo económico esquerda-direita, mas também um eixo libertário/conservador em questões sociais, de costumes. Esse é um ponto mais ou menos assente na literatura académica.
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    A. F. F. 17.04.2010

    Ora viva,

    Penso que historicamente a divisão esquerda/direita surge na assembleia em França, o que coincide temporalmente com o momento a que se refere. Na altura, a questão económica certamente esteve na raíz dos levantamentos da burguesia, mas era também uma questão financeira (excesso de tributação) e sócio-política (a burguesia queria um voto por "deputado", para com a nobreza liberal reformar as finanças).

    A divisão era certamente redutora quando comparada com a actualidade, onde a separação esquerda-direita foi-se diluindo nas teias dum mundo cada vez mais rápido e complexo. O liberalismo embora tenha nascido pela esquerda em França, hoje são poucos os países onde se ouve que ser-se liberal é ser-se de esquerda (há o caso dos EUA e mais alguns, embora isso também seja discutível, principalmente depois da crise financeira... a intromissão do Estado no sector liberal par excellence).

    Parece-me, tendo em conta o contexto histórico onde surge a clivagem esquerda/direita, que pensar nesta nos moldes actuais (por ex., Estado versus "privados") é fruto dos caminhos da História, onde uma dita experiência de comunismo na Rússia serviu de desculpa de aspiração de poder de homens desprezáveis como Estaline.

    [O próprio Lenine escreve uma teoria de Estado com base na literatura de então, Marx. Acontece que a interpretação da literatura é (propositadamente) leviana. A Rússia era tudo menos uma sociedade super-capitalista, onde a previsão de Marx poderia acontecer, pela razão que i) não cumpria requisitos ii) este nunca definiu os moldes concretos do comunismo.]

    O mundo assistiu porém à prática do comunismo na Rússia e países satélites, experiência que impressionou diversa gente. Olhando para o outro lado, os EUA, via-se o liberalismo com bons olhos...

    Enfim, pondo de parte vicissitudes históricas, se nos centrarmos nos dias de hoje, a meu ver, faria mais sentido pensar na clivagem esquerda-direita de uma forma parecida com que na Filosofia se pensa no transcendente versus material. Aí é fácil distinguir a que clube pertence um pensador. [O mesmo não acontece no campo da política, onde mesmo o discurso mais económico nunca é científico (a Economia é uma disciplina com método e alguma matemática, mas não é Ciência).]

    Será possível definir tal clivagem? Talvez, se basearmos a nossa definição a algo que tenha em conta a grande diferença entre as pessoas: a suas proporções de altruismo/egoísmo, a sua visão de justiça, etc.

    Em suma, como diz, há certamente novas dimensões que nos fazem repensar na melhor definição esquerda-direita, ou até abandonar tal dicotomia. Quanto à literatura académica é importante como ponto de referência, mas apenas como tal. Devemos tentar pôr em causa a literatura, sempre que possível, foi assim que os maiores avanços intelectuais foram feitos.

    Abraço,
    AFF.
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    RPR 18.04.2010

    De acordo: é preciso pensar "out of the box". Mas, colocando de lado os termos esquerda e direita, vê alguma clivagem nos tempos correntes? Nos aspectos económicos, talvez sejam distinguíveis apenas os pró-sistémicos e os anti-sistémicos, ou seja, os que dão maior ou menor legitimidade difusa (aceitam como superior) ao capitalismo versus os que o rejeitam, mesmo na eventualidade de dele resultar mais prosperidade económica do que com qualquer alternativa já imaginada ou a imaginar. mas isto não é uma clivagem, porque as clivagens fazem-se de blocos populacionais "maciços", coisa que os anti-sistémicos não são no ocidente.
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    A. F. F 18.04.2010

    Caro RPR,

    As clivagens que me refiro são de espírito crítico e académico, não propriamente clivagens de massas. Apesar que pode acontecer que uma e outra aconteçam no mesmo período histórico (por ex., revolução francesa acontece no momento em que muitos "pensadores" denunciavam e criticavam a falta de solidariedade e liberdade). Exemplos de tais clivagens existem em todas as disciplinas mais metódicas (mesmo na física...).

    Não vejo que haja uma convicta atitude anti-capitalista, excepto em partidos como o bloco de esquerda, mas como acreditar nestes, se falam no abstracto quando falam duma alternativa ao que criticam em primeira instância?. É como dialogar com um ultra-céptico; não é frutuoso nem gratificante, pois ele acabará sempre por duvidar da realidade ontológica.

    De qualquer modo, como poderia haver tal convicção anti-capitalista? Não há nada de errado com o capitalismo, i.e. com a propriedade privada, mercados livres, etc; ele é fruto do entendimento entres os humanos, no decurso da sua evolução. Algo superior ao capitalismo só poderá acontecer num futuro distante e nunca será nada que consigamos prever de momento, só por mero acaso, num exercício de ficção.

    Actualmente, o capitalismo sobrevive em milhões de combinações possíveis, em países melhor ou pior governados. Até, "no matter what", o capitalismo outrora oprimido permeia lentamente a sociedade (a China, ou até Cuba, por ex.). Tal acontece, pois empreendedorismo/egoísmo/necessidade de afirmação/etc fazem parte da espécie e, por conseguinte, da sociedade. Não me refiro aqui ao egoísmo no seu sentido entorpecido, mas egoísmo como característica da espécie, reflexo da sobrevivência e evolução.

    O que pode haver eventualmente de errado tem que ver com a forma precisa do capitalismo se implementar na sociedade. Ou visto de outra forma, a forma com que a sociedade explora a idéia de capitalismo.

    Por exemplo, se RPR vier a descobrir que as suas empresas favoritas colocam funcionários não por mérito, mas por qualquer tipo de favorecimento não aleatório, poderá sentir-se desiludido. Mas o seu vizinho, por outro lado, poderá sentir-se bem com essa realidade.

    A meu ver, o tipo de mérito, as condições, etc. dum dado indíviduo terão de ser coerentes com o tipo de sociedade que se pretende. Ora isto não é o que acontece, por exemplo, no nosso malfadado país e o seu tropel de incompetentes, corruptos e acomodados. Poderá também sentir-se desiludido quando os governantes da sua potência preferida mentem e violam os direitos humanos para ganhar vantagem competitiva.

    Etc.

    Em suma, ser-se de esquerda e direita pode ser uma convicção interior de como conciliar as aspirações políticas do indivíduo com as da espécie. Esta convicção germina no século XVIII e assume novas variações à medida que o capitalismo se torna mais complexo. É natural dum ser inteligente e limitado que procura aperfeiçoar-se. Essas variações (conservadorismo do tipo A, B, C; socialismo-democrata A, B, C; etc.) nem sempre são compatíveis; a tal clivagem que sempre existe fora do equilíbrio. E nós estamos longe do equilíbrio.

    O que me diz RPR da situação presente do País, onde o capitalismo mais parece na sua infância, onde psicologias baratas de educação foram importadas do outro lado do oceano com 50 anos de atraso?

    Cump.
    A.F.F.

    // Não admira que no seu curto ensaio "o alma do homem sob o socialismo", Wilde pareça, em muitos momentos, o que hoje se entende por liberal.
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