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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Liberalismo

Priscila Rêgo, 05.07.11

O Filipe Faria escreveu um post essencial acerca dos perigos de subscrever a versão "social" do Liberalismo. Nas suas palavras, "quando um liberal social advoga o direito à saúde, tal implica que alguns seres humanos (médicos, enfermeiras) irão ser forçados a trabalhar em prol de outros, nas condições que o Estado quer,  independentemente da vontade desses profissionais de saúde. Usando um argumento sob forma de Reductio ad absurdum, se todos os médicos se recusassem a exercer nessas condições, o Estado, sob o postulado da liberdade positiva e do direito à saúde, podia obrigar os mesmos a fazê-lo sob coerção (o que colocaria o acto ao nível da escravatura)".

 

Apesar de o argumento ser suficientemente bem conseguido para granjear ao Liberalismo Clássico hordas de seguidores fervorosos, julgo que o Filipe, certamente por distracção, deixou passar um exemplo bem mais revelador do totalitarismo a que o Liberalismo Social pode conduzir: o caso da limpeza da via pública. Sob o pretexto de que é bom para todos que não haja lixo no chão, entregamos a esse Leviatã que é o Estado a possibilidade efectiva de nos obrigar a percorrer as ruas imundas das nossas cidades a recolher porcaria. O princípio é o mesmo dos médicos, mas em vez de se obrigar o pobre cidadão a prescrever, de forma higiénica e cómoda, medicamentos a utentes, obriga-se o pobre coitado a recolher dejectos dos cãezinhos a horas pornográficas. O Liberalismo Social é isto*. O resto é areia para os olhos.

 

Agora a sério: não é difícil compreender que o Liberalismo tenha tão poucos adeptos. A ideia de que o mercado se adapta às necessidades dos consumidores sem um planificador central é, ainda hoje, tão difícil de apreender para a maioria das pessoas como a ideia de selecção natural foi para quem vivia no século XIX. Se as coisas já são complicadas assim, não vale a pena acrescentar ruído com exemplos deste género. Não vamos andar a imitar quem, do outro lado da barricada, diz que com padarias privadas vamos todos passar fome, ou vamos?

 

*E se não é, podia ser...

2 comentários

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    Miguel Madeira 07.07.2011

    Penso que o argumento do Filipe não é que o direito à saúde implica a escravatura dos médicos, mas que implica essa possibilidade - se ninguém quiser ser médico, então para garantir o direito à saúde é necessário obrigar alguém a ser médico.
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