Quinta-feira, 28 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Alguns leitores defendem a política da subsidiação dos transportes com o argumento de que é preciso ajudar os pobrezinhos. Ajudar os pobrezinhos é um objectivo louvável, mas baixar os preços dos transportes é uma má maneira de o fazer. Em primeiro lugar, porque nem todos os que utilizam os transportes públicos são pobres; em segundo lugar, porque nem todos os pobres utilizam transportes públicos. A política do passe subsidiado abrange muita gente que não deveria ser beneficiada e deixa de fora muita gente que deveria estar bem à frente na lista de espera.

 

Na verdade, a política apenas atinge permanentemente um segmento bem identificado da população: funcionários (entre os quais os gestores) das empresas públicas de transportes, que ficam dispensados de concorrer no mercado, de reduzir custos e oferecer um serviço de qualidade. Como a receita é "insuflada" pelo factor subsídio, têm menos incentivos para racionalizar a rede, melhorar o serviço ou controlar os gastos. Os partidários da política do passe social têm razão quando dizem que o preço subsidiado ajuda muita gente. Só se enganaram ao identificar o estrato.

 

 


15 comentários:
De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 01:37
Mas estamos mesmo a discutir que a esmagadora maioria que usa os transportes não o faz por necessidade? Que precisa mesmo de um meio bastante barato de se deslocar. Sabem que o salário médio (médio repito, há pior) ronda os 700 euros certo? Alguém acha que vão de bicicleta?

O problema é que isto não é essencialmente um mercado… é a forma de manter uma cidade e uma região a funcionar de forma a minimizar o conflito social. Ninguém nega que o subsídio coloca estas empresas numa posição vantajosa simplesmente, em áreas básicas, há coisas mais importantes que assegurar que as operadoras dominantes do sector abram mais um mercado.


De iupi a 28 de Julho de 2011 às 11:10
não concordando nem discordando, mas:
"deixa de fora muita gente que deveria estar bem à frente na lista de espera"
- como é que, sendo o passe mais barato quando subsidiado, essas pessoas ficam de fora e, se o passe não for subsidiado, logo mais caro, essas mesmas pessoas já o podem comprar? já passam a estar 'dentro'?
- quais são os critérios para identificar os estratos?



De Luís Lavoura a 28 de Julho de 2011 às 11:14
Nicolau, você não conhece o mundo real: grande parte dos trabalhadores portugueses que aufere o salário mínimo não utiliza os transportes coletivos.

Tomemos os meus primos que são trabalhadores fabris. Vivem numa aldeia do centro do país e trabalham em fábricas que ficam perto (até 5 km de distância). Julga que eles vão para o trabalho de transportes coletivos? Não - vão de carro ou, ocasionalmente, de motorizada. E julga que eles ganham muito? Julgo que não ganhem o salário mínimo, mas não ganharão muito mais do que isso.

A questão é que só há transportes coletivos nas cidades. E boa parte dos trabalhadores mais pobres do país não vivem em cidades.

Eu pergunto, por que é que o Estado há-de estar a beneficiar quem vive em cidades?


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 12:04
Não leve a mal Luis Lavoura mas com o que já vivi e vi essa de não conhecer o mundo real é uma piada de mau gosto vindo de um grupo de pessoas que só fazem é teorizar.

Quanto aos transportes parece claro que a maioria das pessoas que por exemplo entra em Lisboa (por exemplo) todos os dias não o faz de viatura apesar de acreditar que para quem vai dentro duma assim o possa parecer.

Isto está ao mesmo nível que o infeliz comentador de TV que afirmou que para poupar a maioria dos portugueses tinham que parar de ir jantar fora todos os dias. É não ter noção de como vive o país real nos grandes meios urbanos.


De Luís Lavoura a 28 de Julho de 2011 às 12:15
Sim, mas o problema é, por que é que tanta gente entra em Lisboa. Por que é que não vivem em Lisboa, ou por que é que não trabalham fora de Lisboa, ou por que é que não vão viver para outra cidade que não Lisboa.

Sejamos claros, vivemos num mundo em que o petróleo está a aumentar de preço brutalmente e rapidamente. As pessoas têm que se adaptar a essa realidade. Não podem continuar a fingir que as deslocações não custam dinheiro, que se pode perfeitamente viver na Reboleira e trabalhar no Rossio, como se os quinze quilómetros entre a Reboleira e o Rossio não fossem muito caros a transpôr.

A vida é dura? Pois é.

As pessoas vão ter que se adaptar. Mudar de casa, arranjar um emprego mais perto de casa, arranjar uma bicicleta ou uma motorizada, partilhar um carro, eu sei lá.

O que não é possível é as pessoas como os meus primos, que vivem muito longe de centros urbanos, andarem com os seus impostos a financiar modos de vida insustentáveis nas grandes cidades.


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 13:05
E claro que as pessoas não compram casas no Rossio ou nas Avenidas Novas porque não querem?! Tal como não querem parar de ir jantar fora todos os dias! Vocês conhecem pessoas normais??

Quanto à tentativa de transplantação forçada das pessoas dos grandes meios urbanos já comentei isso no meu sítio há pouco tempo por isso não leve a mal se não lhe responder aqui. Basta dizer que nada é inocente nessas mudanças.

Eu disse que os transportes fora dos grandes centros não deviam existir nas mesmas condições? Ódios regionalistas não têm qualquer sentido. O que disse é que dada a situação de concentração populacional (e problemas derivados) a situação é mais urgente e mais perigosa. O que é verdade. Quanto à sustentabilidade já se viu que depende dos objectivos do estado. Se for para ser um estado liberal à século XIX sim então todo e qualquer programa social e política de gestão de espaços é incomportavelmente cara. Mas não é isso que se diz às pessoas quando se pede o voto…

Nestas situações aparece sempre alguém a dizer isso… Mas na realidade uns terão que se adaptar mais que outros não é? :)


De Luís Lavoura a 28 de Julho de 2011 às 14:42
Se as pessoas não podem comprar casas no Rossio ou nas Avenidas Novas, pelo menos as empresas situadas nesses sítios podem mudar-se para outros mais baratos.

Repare que a subsidiação dos transportes coletivos de Lisboa e do Porto é também uma forma indireta de subsidiar as empresas que se instalam nessas cidades. Essas empresas dispõem, graças a essa subsidiação, de uma abundante fonte de mão-de-obra, pois que podem recorrer, não apenas a quem mora em Lisboa e no Porto, mas também a quem mora nos subúrbios.

Há imensas empresas por esse país fora que sofrem com a falta de mão-de-obra. Isto acontece porque os trabalhadores disponíveis moram a dezenas de quilómetros de distância e a empresa não pode oferecer salários suficientemente altos para pagar as deslocações dos trabalhadores.

Em Lisboa esse problema não existe - uma empresa no centro de Lisboa, mesmo pagando salários muito baixos, pode contratar trabalhadores que moram na Rinchoa, porque esses trabalhadores dispõem de transportes subsidiados para se deslocarem da Rinchoa para Lisboa.

Todo este esquema irracional tem que ser desmontado. Uma sociedade não pode viver de subsídios e de custos ocultos.


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 18:15
Sugere acabar com concentrações urbanas de mais de 50000 pessoas para não existirem grandes questões de transporte? A concentração urbana é um fenómeno natural e histórico, pensava que os engenheiros sociais eram os outros senhores...

E as empresas mudam por imposição estatal? Parece algo tirânico não? :) onde está a livre iniciativa? :) O que realmente se passa aqui é que todos sabemos que exigir isso às empresas nunca será feito mas imputar os custos de transportes aos trabalhadores é fácil (de consequências sociais imprevisíveis a longo prazo mas tecnicamente fácil) e já está a acontecer. É uma questão do poder relativo de cada parte.

O que não poderia acontecer é que para abrir um mercado a alguns operadores se imputem custos abusivos ao consumidor final que só está a tentar (sobre)viver numa situação totalmente imposta pelas circunstâncias.


De Hugo Monteiro a 28 de Julho de 2011 às 19:57
"E as empresas mudam por imposição estatal? Parece algo tirânico não? :) onde está a livre iniciativa? :)"

Onde é que está a liberdade de não pagar impostos para subsidiar essas empresas? Passam a vida a falar nos direitos, mas nunca na liberdade de dizer não a subsidiar tudo o que mexa.


De PR a 28 de Julho de 2011 às 20:31
O seu comentário tem muitas confusões que pode ser complicado de identificar por aqui. A resposta do Luís Lavoura é um ponto de partida, mas respondo-lhe mais logo, em forma de post.

Um abraço


De Luís Lavoura a 29 de Julho de 2011 às 09:37
Não pretendo obrigar ninguém a fazer nada, nem suprimir a livre iniciativa.

Só digo que, uma vez que as empresas comecem a ter falta de trabalhadores por estes não serem capazes de pagar os custos de transporte, talvez elas - as empresas - decidam, racionalmente, mudar-se para locais que exijam menos transporte.

(Isto a começar pelo grande empregador que é o Estado, que tem tudo concentrado no centro de Lisboa quando podia muito bem desconcentrar para sítios mais longe do centro.)


De Nicolau Wurmood a 29 de Julho de 2011 às 11:48
Teorias (e negação da história urbana da humanidade - a concentração apareceu por razões concretas... mas lá estamos nós nos planos de engenharia social do novo Homem rural... ou pelo menos regional).

Já agora, isso tudo vai acontecer em que mundo exactamente? É que estes aumentos estão a ocorrer agora e neste.


De Luís Lavoura a 29 de Julho de 2011 às 11:53
Tal como a concentração apareceu por razões concretas, também os transportes coletivos urbanos apareceram por razões concretas. E deve-se recordar que eles foram criados por empresas privadas, que não o fizeram por motivos filantrópicos mas sim para ganhar dinheiro. Os transportes coletivos urbanos surgiram como empresas rentáveis e devem voltar a sê-lo.


De Nicolau Wurmood a 29 de Julho de 2011 às 12:10
Já estamos reduzidos a uma simples afirmação de ideologia.

E contar a história toda... e mudaram os padrões de urbanização e de industrialização e surgiu uma necessidade pública que não podia ser satisfeita apenas pelos meios lucrativos. É sempre a mesma coisa.

Sempre a colocar as teorias antes daquilo que está em frente aos nossos olhos. Antes do concreto.


De PR a 29 de Julho de 2011 às 12:22
Nicolau, aquilo que está à frente dos nossos olhos são factos. Mas para os interpretar vai precisar sempre de uma boa teoria, caso contrário vai ficar-se pela banalidade de dizer que as coisas são como são porque nunca as viu serem diferentes.


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