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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Caridade via preço

Priscila Rêgo, 28.07.11

Alguns leitores defendem a política da subsidiação dos transportes com o argumento de que é preciso ajudar os pobrezinhos. Ajudar os pobrezinhos é um objectivo louvável, mas baixar os preços dos transportes é uma má maneira de o fazer. Em primeiro lugar, porque nem todos os que utilizam os transportes públicos são pobres; em segundo lugar, porque nem todos os pobres utilizam transportes públicos. A política do passe subsidiado abrange muita gente que não deveria ser beneficiada e deixa de fora muita gente que deveria estar bem à frente na lista de espera.

 

Na verdade, a política apenas atinge permanentemente um segmento bem identificado da população: funcionários (entre os quais os gestores) das empresas públicas de transportes, que ficam dispensados de concorrer no mercado, de reduzir custos e oferecer um serviço de qualidade. Como a receita é "insuflada" pelo factor subsídio, têm menos incentivos para racionalizar a rede, melhorar o serviço ou controlar os gastos. Os partidários da política do passe social têm razão quando dizem que o preço subsidiado ajuda muita gente. Só se enganaram ao identificar o estrato.

 

 

9 comentários

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    Nicolau Wurmood 28.07.2011

    Não leve a mal Luis Lavoura mas com o que já vivi e vi essa de não conhecer o mundo real é uma piada de mau gosto vindo de um grupo de pessoas que só fazem é teorizar.

    Quanto aos transportes parece claro que a maioria das pessoas que por exemplo entra em Lisboa (por exemplo) todos os dias não o faz de viatura apesar de acreditar que para quem vai dentro duma assim o possa parecer.

    Isto está ao mesmo nível que o infeliz comentador de TV que afirmou que para poupar a maioria dos portugueses tinham que parar de ir jantar fora todos os dias. É não ter noção de como vive o país real nos grandes meios urbanos.
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    Luís Lavoura 28.07.2011

    Sim, mas o problema é, por que é que tanta gente entra em Lisboa. Por que é que não vivem em Lisboa, ou por que é que não trabalham fora de Lisboa, ou por que é que não vão viver para outra cidade que não Lisboa.

    Sejamos claros, vivemos num mundo em que o petróleo está a aumentar de preço brutalmente e rapidamente. As pessoas têm que se adaptar a essa realidade. Não podem continuar a fingir que as deslocações não custam dinheiro, que se pode perfeitamente viver na Reboleira e trabalhar no Rossio, como se os quinze quilómetros entre a Reboleira e o Rossio não fossem muito caros a transpôr.

    A vida é dura? Pois é.

    As pessoas vão ter que se adaptar. Mudar de casa, arranjar um emprego mais perto de casa, arranjar uma bicicleta ou uma motorizada, partilhar um carro, eu sei lá.

    O que não é possível é as pessoas como os meus primos, que vivem muito longe de centros urbanos, andarem com os seus impostos a financiar modos de vida insustentáveis nas grandes cidades.
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    Nicolau Wurmood 28.07.2011

    E claro que as pessoas não compram casas no Rossio ou nas Avenidas Novas porque não querem?! Tal como não querem parar de ir jantar fora todos os dias! Vocês conhecem pessoas normais??

    Quanto à tentativa de transplantação forçada das pessoas dos grandes meios urbanos já comentei isso no meu sítio há pouco tempo por isso não leve a mal se não lhe responder aqui. Basta dizer que nada é inocente nessas mudanças.

    Eu disse que os transportes fora dos grandes centros não deviam existir nas mesmas condições? Ódios regionalistas não têm qualquer sentido. O que disse é que dada a situação de concentração populacional (e problemas derivados) a situação é mais urgente e mais perigosa. O que é verdade. Quanto à sustentabilidade já se viu que depende dos objectivos do estado. Se for para ser um estado liberal à século XIX sim então todo e qualquer programa social e política de gestão de espaços é incomportavelmente cara. Mas não é isso que se diz às pessoas quando se pede o voto…

    Nestas situações aparece sempre alguém a dizer isso… Mas na realidade uns terão que se adaptar mais que outros não é? :)
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    Luís Lavoura 28.07.2011

    Se as pessoas não podem comprar casas no Rossio ou nas Avenidas Novas, pelo menos as empresas situadas nesses sítios podem mudar-se para outros mais baratos.

    Repare que a subsidiação dos transportes coletivos de Lisboa e do Porto é também uma forma indireta de subsidiar as empresas que se instalam nessas cidades. Essas empresas dispõem, graças a essa subsidiação, de uma abundante fonte de mão-de-obra, pois que podem recorrer, não apenas a quem mora em Lisboa e no Porto, mas também a quem mora nos subúrbios.

    Há imensas empresas por esse país fora que sofrem com a falta de mão-de-obra. Isto acontece porque os trabalhadores disponíveis moram a dezenas de quilómetros de distância e a empresa não pode oferecer salários suficientemente altos para pagar as deslocações dos trabalhadores.

    Em Lisboa esse problema não existe - uma empresa no centro de Lisboa, mesmo pagando salários muito baixos, pode contratar trabalhadores que moram na Rinchoa, porque esses trabalhadores dispõem de transportes subsidiados para se deslocarem da Rinchoa para Lisboa.

    Todo este esquema irracional tem que ser desmontado. Uma sociedade não pode viver de subsídios e de custos ocultos.
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    Nicolau Wurmood 28.07.2011

    Sugere acabar com concentrações urbanas de mais de 50000 pessoas para não existirem grandes questões de transporte? A concentração urbana é um fenómeno natural e histórico, pensava que os engenheiros sociais eram os outros senhores...

    E as empresas mudam por imposição estatal? Parece algo tirânico não? :) onde está a livre iniciativa? :) O que realmente se passa aqui é que todos sabemos que exigir isso às empresas nunca será feito mas imputar os custos de transportes aos trabalhadores é fácil (de consequências sociais imprevisíveis a longo prazo mas tecnicamente fácil) e já está a acontecer. É uma questão do poder relativo de cada parte.

    O que não poderia acontecer é que para abrir um mercado a alguns operadores se imputem custos abusivos ao consumidor final que só está a tentar (sobre)viver numa situação totalmente imposta pelas circunstâncias.
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    Luís Lavoura 29.07.2011

    Não pretendo obrigar ninguém a fazer nada, nem suprimir a livre iniciativa.

    Só digo que, uma vez que as empresas comecem a ter falta de trabalhadores por estes não serem capazes de pagar os custos de transporte, talvez elas - as empresas - decidam, racionalmente, mudar-se para locais que exijam menos transporte.

    (Isto a começar pelo grande empregador que é o Estado, que tem tudo concentrado no centro de Lisboa quando podia muito bem desconcentrar para sítios mais longe do centro.)
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    Nicolau Wurmood 29.07.2011

    Teorias (e negação da história urbana da humanidade - a concentração apareceu por razões concretas... mas lá estamos nós nos planos de engenharia social do novo Homem rural... ou pelo menos regional).

    Já agora, isso tudo vai acontecer em que mundo exactamente? É que estes aumentos estão a ocorrer agora e neste.
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    Luís Lavoura 29.07.2011

    Tal como a concentração apareceu por razões concretas, também os transportes coletivos urbanos apareceram por razões concretas. E deve-se recordar que eles foram criados por empresas privadas, que não o fizeram por motivos filantrópicos mas sim para ganhar dinheiro. Os transportes coletivos urbanos surgiram como empresas rentáveis e devem voltar a sê-lo.
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