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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Londres I

Priscila Rêgo, 11.08.11

Bom, na verdade não tenho grande explicação para o que se passa em Londres. Mas acho curioso que tanta gente tenha. Eu ainda hoje estou a tentar perceber por que raio é que o tipo que partilha a casa comigo é genuinamente incapaz de lavar a loiça depois do jantar. A blogosfera lusa, por outro lado, saca da algibeira uma explicação completa e detalhada para a razão pela qual umas centenas (ou milhares) de ingleses desataram a partir montras em Londres, Manchester e por aí fora. E sem estarem no local. É o que se chama investigação à distância.

 

Mas do que queria falar é mesmo do texto de hoje da Helena Matos, no Público (sem link). A Helena faz um paralelo entre  os distúrbios no Reino Unido e o ataque na Noruega. Diz ela que "com aquele ar de ariano Anders Breivik é tratado como aquilo que de facto é - o autor de um acto hediondo - e por uma única vez somos poupados à cartilha desculpabilizante sobre a sua cor, a sua infância, a sua família e a sua pobreza ou riqueza". Mas há aqui uma confusão de base.

 

O caso Breivik é o tipo de caso que facilmente pode ser atribuído a um problema mental ou a circunstâncias particulares. Por que é que Einstein era brilhante? E por que é que o Ronaldo é tão bom jogador? Estes fenómenos têm causas, mas ou são tão triviais que se tornam desinteressantes (como a "sorte" de terem a mistura correcta de genes), ou são tão particulares que nem sequer lhes atribuímos o  estatuto de causa no sentido inteligível do termo. A razão pela qual estou a escrever neste blogue é o facto de ter abandonado um projecto na precisa altura em que um amigo saía de um blogue e se preparava para fazer outro. Mas isso não é muito interessante para ninguém.

 

Por outro lado, se de um dia para o outro aparecessem Ronaldos e Einstens aos potes, dificilmente seria possível explicar o facto como produto de uma mera coincidência. "Calhou" serve para um caso, mas não justifica uma série de casos. Seria necessário examinar os casos, encontrar elementos transversais e relacionar isso com potenciais causas. Alterações sociais e económicas - aquilo que a Helena identifica como "desculpas" - são candidatos mais promissores do que o "são animais" porque a sociedade e a economia mudam, mas as pessoas não passam de humanos a bestas de um dia para o outro.

 

E isto não é desculpar. É mesmo compreender. 

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