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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Despesa III

Priscila Rêgo, 01.09.11

Outra coisa curiosa é a forma como está a ser enquadrado o corte de despesa planeado para os próximos anos. O Diário Económico, por exemplo, critica implicitamente o Governo por congelar os salários na função pública, com o argumento de que é um sacrifício exigido às famílias e não um verdadeiro corte na "gordura do Estado". É como fazer dieta cortando na comida: é cá um sacrifício pedido ao estômago...

 

Tenho uma novidade para o Diário Económico: não são só os funcionários públicos que têm família. Os trabalhadores de empresas de obras públicas que vão deixar de ter encomendas estão na mesma categoria, tal como os maquinistas da CP que vão ficar com a corda na garganta para atrair clientela suficiente para manter as mordomias que tinham até aqui. Não há volta a dar: qualquer corte de despesa tem necessariamente de lixar alguém, porque os gastos do Estado são sempre dirigidos a pessoas - directamente, por salários ou transferências, ou indirectamente, através de empresas.

 

O argumento habitual é que isto não é a "gordura" do Estado. Mas a gordura não é uma rubrica do Orçamento do Estado, é toda a despesa que não resulta num aumento de bem estar ou que poderia ser mais bem utilizada se feita pelo sector privado. Fala-se muito nas empresas do Estado e no sector "para estatal" que circula na sua órbita - empresas, fundações, institutos, etc. Fechar organismos e promover fusões, contudo, tem o mesmo resultado: cortes de salários, de bens e serviços e transferências. Não há volta a dar: a consolidação vai doer.

 

Os próximos tempos vão ser férteis em episódios deste género. Cortar nos salários será "atacar as famílias" e "desprestigiar a função pública"; reduzir os consumos intermédios será "acabar com os serviços públicos"; diminuir as prestações sociais será "culpar os desempregados" e "matar o Estado Social"; apertar com os subsídios será "acabar com (o que resta d)a actividade económica"; e travar a formação bruta de capital será "parar investimentos de proximidade" e "acabar com projectos reprodutivos potenciadores de crescimento". Já vimos este filme antes. Foi assim que chegámos aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

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