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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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«O estranho verbo nosso»

Tiago Moreira Ramalho, 06.09.11

 

De profundis amamus

 

Ontem
às onze
fumaste

um cigarro

encontrei-te

sentado

ficámos para perder

todos os teus eléctricos

os meus

estavam perdidos

por natureza própria

 

Andámos

dez quilómetros

a pé

ninguém nos viu passar

excepto

claro

os porteiros

é da natureza das coisas

ser-se visto

pelos porteiros

 

Olha

como só tu sabes olhar

a rua os costumes

 

O Público

o vinco das tuas calças

está cheio de frio

e há quatro mil pessoas interessadas

nisso

 

Não faz mal abracem-me

os teus olhos

de extremo a extremo azuis

vai ser assim durante muito tempo

decorrerão muitos séculos antes de nós

mas não te importes

não te importes

muito

nós só temos a ver

com o presente

perfeito

corsários de olhos de gato intransponível

maravilhados maravilhosos únicos

nem pretérito nem futuro tem

o estranho verbo nosso

 

Mário Cesariny, Pena Capital (1957)

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