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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O futebol como metáfora

Bruno Vieira Amaral, 08.09.11

No seu livro A Doença Como Metáfora, Susan Sontag insurgia-se contra o recurso a metáforas bélicas quando se fala de doenças. Sontag pensava que essa utilização despreocupada da metáfora condicionaria a percepção que o paciente tinha da doença (um ataque, uma declaração de guerra) e do próprio corpo (um campo de batalha). Isto contribuiria para uma auto estigmatização do doente de cancro (e todos nós sabemos como ainda hoje o cancro é tão dificilmente verbalizado, encolhido no eufemismo da doença prolongada) que depois se transferiu para os doentes de Sida (A Sida e as suas Metáforas foi o livro que Sontag dedicou ao assunto).

 

Será que a doença tem um potencial metafórico bélico inato ou foi a utilização continuada da metáfora bélica que formou a nossa percepção da doença enquanto guerra? Certamente o conhecimento científico do modo como o nosso corpo se defende (já estou no domínio da metáfora) das doenças aumentou a metaforicidade da doença. Algumas pessoas vencem a batalha contra o cancro (fortes) e outras perdem-na (fracos). O sobrevivente do cancro é um vencedor, mas aquele que sucumbe ao cancro será um derrotado? Quando se sabe que uma figura pública padece de uma doença grave, a metáfora é inevitável: “x prepara-se para a maior batalha da sua vida”. No fim, quando as coisas correm mal: “Esta era uma batalha (desafio, guerra) que não podia ganhar” ou “o grande x finalmente encontrou um inimigo que não pôde derrotar”, etc.

 

Com o desporto passa-se algo idêntico. O futebol, por exemplo, é em si mesmo, no rectângulo de jogo, uma metáfora da guerra, e os próprios jogadores são caracterizados metaforicamente (defesas, atacantes, ponta-de-lança, médio defensivo, o guarda-redes que protege “o último reduto”, etc), há remates que são bombas, petardos, mísseis; há entradas assassinas (mas que não matam ninguém), ambientes infernais (mas é só barulho), equipas que sofrem baixas (mas recuperáveis a tempo do próximo jogo), toques a reunir, treinadores especialistas em levantar o moral das tropas, guerreiros do Minho, sargentões, bombardeiros alemães, setas apontadas à baliza adversária, etc, etc. Num desporto que é todo ele uma imensa metáfora porque é que o termo “desertor” causou tanta indignação a algumas pessoas? Paulo Bento respondeu à altura e justificou-se precisamente com as inúmeras metáforas à volta do futebol (algo tão natural que Ricardo Carvalho arranjou logo outra, a do mercenário, tão frequentemente utilizada). A acusação que Paulo Bento ter-se-á excedido ao usar uma linguagem militar não é ofensiva, mas simplesmente estúpida. Paulo Bento limitou-se a esticar o potencial metafórico do futebol para cobrir uma situação concreta e pouco habitual. Porque no imenso parque de diversões metafórico que é o futebol àquilo que Ricardo Carvalho fez chama-se deserção. Ao contrário do que se pode pensar, Paulo Bento não teve um excesso de imaginação militar. Limitou-se a falar na língua que mais bem domina, o futebolês.

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