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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Lições islandesas

Priscila Rêgo, 08.09.11

Rui Tavares escreveu ontem no Público acerca do caso islândes (podem consultar o artigo no seu blogue). O artigo é mais um "puxão de orelhas" à Esquerda tuga que preferiu ficar em casa a dialogar com o FMI do que propriamente um elogio às maravilhas da heterodoxia económica, e por isso o meu apontamento pode até parecer um pouco injusto. Ainda assim, e como estava para escrever acerca disto há algum tempo, aproveito a oportunidade.

 

Esquerda Verde e Sociais-Democratas arregaçaram as mangas e aplicaram praticamente uma contra-receita do que nos está a acontecer. Começaram por uma reforma fiscal a sério, fazendo os ricos pagar muito mais impostos. Criaram taxas sobre a poluição. Depois sim, tiveram de fazer alguns cortes, mas assim foram mais limitados e legitimados. O resultado é que a Islândia, onde os bancos tinham estourado dez vezes a economia do país, o desemprego decuplicado e a moeda caído sessenta por cento, conseguiu dar a volta à crise com um mínimo de injustiça — e sair por cima".

 

Este é o único ponto de que discordo. Quanto ao resto, conversa da Esquerda incluída, nada a objectar e podem assumir, por defeito, que subscrevo as suas palavras (embora isto soe um pouco como ouvir um benfiquista a pronunciar-se sobre os treinadores do Sporting). Mas este é um ponto importante, por dar a entender que é possível sair de uma crise do género da islandesa sem dor. Não é. Podemos senti-la no fígado ou nos rins, só amanhã ou durante muitos anos; mas ninguém perde 10% do PIB e continua a viver como se nada fosse. A economia é como a química: nada se perde, tudo se transforma.

 

Começando pelo mais simples: será de facto verdade que a Islândia não implementou austeridade? À primeira vista, sim. Quem consultar o Memorando de Entendimento assinado com o FMI ficará surpreendido ao constatar que as metas orçamentais se resumem a uns quantos objectivos vagos e pouco detalhados. O contraste com Portugal é óbvio: os islandeses têm uma lista de supermercado, nós ficámos com um autêntico plano quinquenal.

 

É possível, e até provável, que tenham sido implementadas medidas duras e vigorosas, mas o seu teor parece ter ficado mais ao sabor da política islandesa do que da sanha do FMI. E quem olhar para os quadros relativos à situação orçamental (página 32 e seguintes) vai reparar que mesmo ao nível dos grandes agregados não houve mudanças drásticas. Por exemplo, entre 2007 e 2011 os gastos do Estado, em termos reais, não caíram mais do que 3% (ou algo do género - fiz os cálculos mas apaguei-os sem querer e agora não tenho pachorra para os refazer; mas é algo parecido).

 

Por outro lado, o Memorando é fértil em prescrições financeiras. Reservas externas do Banco Central, metas para rubricas da balança financeira, défice externo e por aí fora. Tudo isto está ausente do Memorando de Entendimento de Portugal. Porquê? Porque a natureza dos problemas é diferente. Portugal está num regime de câmbios fixos com o resto da Europa: a moeda tem o seu valor indexado à força do core europeu (Alemanha, França, Itália), porque na verdade é a mesma moeda. Podemos manter o nosso poder de compra, mas não podemos usá-lo para financiar um Estado que se endividou para lá do desejável e deixou de ser credível aos olhos dos credores.

 

A Islândia, por outro lado, tem uma divisa própria, a krona. Tanto dá para comprar leite na mercearia do lado como para financiar o Estado quando a situação o exige. O reverso da medalha é o facto de o seu valor depender da força da economia islandesa. Se a economia vai ao fundo, a krona é um alvo fácil para quem intervém nos mercados, porque não tem um porto seguro, como a Alemanha ou França, ao qual ancorar o seu valor. Presta-se à especulação, quase tanto com o seu nome se presta a trocadilhos.

 

Desta forma, é expectável que a natureza dos problemas seja diferente. Portugal tem de reduzir o défice e pôr o seu orçamento na ordem. Já a Islândia tem de diminuir a sua dependência do exterior e evitar que a moeda desvalorize. As doenças são diferentes e as prescrições também, mas a dor é a mesma. Só varia o sorvedouro para onde os recursos vão ser tragados: o Estado, no caso português, e o exterior, no caso islandês.

 

Uma forma fácil de perceber isto é olhar para os salários reais. Em Portugal, o salários reais vão ser reduzidos por medidas de política (corte salarial, por exemplo) e por actualizações abaixo da inflação. Na Islândia, vão diminuir por causa da subida do preço das importações, em grande medida devido à desvalorização da moeda local. Com isto obtemos um indicador que converte numa "moeda única" o impacto da crise nos dois países. O que mostram os números? Entre 2007 e 2016, os salários em Portugal ficam praticamente estagnados. Na Islândia, caem 8,8%.

 

E estamos a falar de um período de 9 anos, ao longo dos quais o PIB cresceu 7%. Na óptica de alguns, isto representa uma "desvalorização do trabalho em favor do capital". Ok, não se pode dizer que a performance portuguesa seja maravilhosa, mas a Islândia também está longe de ser um pais a sair "por cima" da crise...

 

Há mais um mito acerca da Islândia, que o Rui Tavares não aborda no seu texto mas que é recorrente em grande parte dos debates de Esquerda: a ideia de que a Islândia não salvou a banca. É verdade, não salvou. Mas precisamente pela mesma razão que Portugal não usa o BCE para financiar o seu défice: porque não pode. Grande parte da dívida dos três grandes bancos que entraram em processo de ruptura estava denominada em moeda estrangeira: quando o colapso se deu, o banco central não tinha divisas suficientes para assegurar os pagamentos. Foi tudo por água abaixo, mas não por convicção.

 

O Icesave/Landsbanki, que há um ou e dois anos levou a um referendo na Islândia, é um caso curioso. Na altura, o processo foi apresentado como uma vitória do povo que recusou pagar a salvação dos especuladores da banca. Na verdade, o Icesave entrou em processo de falência e logo se percebeu que os activos seriam suficientes para cobrir a maior parte dos depósitos (entre entre 94 a 99%, segundo o FMI). O Governo islandês activou o sistema de garantia de depósitos mas, devido à falta de legislação internacional clara acerca do assunto, geraram-se dúvidas em relação ao dever de pagar aos depositantes estrangeiros. O Governo queria fazê-lo, os contribuintes não estavam para gastar dinheiro a fazer "bailouts" a estrangeiros. A Esquerda europeia achou piada. Deixou de achar quando um certo povo teutónico no centro da Europeu aplicou o mesmo princípio a um conjunto de países periféricos.

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