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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Situação crítica

Bruno Vieira Amaral, 05.10.11

Na polémica inaugurada por Maria do Rosário Pedreira, no blog Horas Extraordinárias, a propósito de uma crítica de José Riço Direitinho ao novo romance de Valter Hugo Mãe, reparei no comentário (e já são mais de oitenta) da leitora Carla Ferreira. Diz isto: “Poderá servir (a crítica), para nos situar na história do livro daquele autor, e nunca para julgar o que lá expõe, que pode ser perceptível ou não ao crítico, depende.” Depreende-se, pois, que a crítica é aceitável desde que seja feita ao nível dos textos de badana e contracapa, isto é, que sirva de bússola para “situar” o leitor, mas que nunca se atreva a querer ser farol para o iluminar. Lembrou-me este comentário um post publicado pela autora do blog há uns meses. Nele, insurgia-se, e com razão, contra alguns textos de divulgação de livros em que pouco mais se faz do que reproduzir por outras palavras a informação da badana e da contracapa. Critica-se a crítica por ser crítica, por julgar, e criticam-se textos que se fazem passar por crítica mas que, na verdade, não julgam, reproduzem.

 

A questão com a crítica de José Riço Direitinho é diferente, porque a mesma não é discutida no post de Maria do Rosário Pedreira. Fala-se na indignação de algumas pessoas pela parcimónia na atribuição de estrelas ao romance de Valter Hugo Mãe e a autora até sugere que o crítico, por ser também escritor e concorrente do outro, não deveria ter escrito sobre o livro para evitar que pessoas atribuam a crítica negativa a dor de cotovelo e rivalidade. Sobre aquilo que JRD escreveu nada se diz. Mas creio que ainda há uma grande diferença entre pessoas que se indignam com estrelinhas sem terem lido o livro (e provavelmente sem terem lido os livros de José Rodrigues dos Santos e de Mónica Marques que mereceram mais estrelinhas de outros críticos do Público), entre pessoas que vêm logo falar de rivalidade e dor de cotovelo, e um crítico que assina com o nome e que toda a gente sabe que é escritor (e podemos até ignorar que alguns dos críticos mais conhecidos são romancistas/poetas com obra publicada e menciono apenas quatro: Eduardo Pitta, José Mário Silva, Miguel Real e Pedro Mexia). A crítica só vincula quem a escreve. Da mesma forma, as acusações de rivalidade, de ajuste de contas e de inveja, ou em alternativa, as de lambe-botismo, amiguismo e fellatios literários, só descrevem as pessoas que as proferem. Uma coisa é certa: quando se lê uma crítica, não se está a consultar o oráculo de Delfos ou a subir ao Monte Sinai para regressar com as tábuas da Lei. Lê-se a opinião de alguém, uma opinião parcial, subjectiva, condicionada pelas leituras (que podem ser mais ou menos do que as do autor), pela cultura, pelos preconceitos, pelo gosto e até por aquilo que se comeu ao almoço ou por quem se comeu a noite passada, ou seja, a opinião de um indivíduo. Até aquilo que se espera de um escritor influencia a crítica: pode-se ser mais exigente com um grande autor do que com outro de quem nada se espera. É por isso que a crítica é assinada por alguém e não é reclamada por um colegiado de sábios. É por isso que um crítico dá cinco estrelas a um livro e outro dá uma bola preta ao mesmo livro.

 

No nosso pequeno meio, uma crítica negativa gera sempre discussão, mas normalmente pelos motivos errados: fazem-se processos de intenções, contabilizam-se agravos passados, alguém recorda um episódio obscuro entre crítico e escritor, esquadrinha-se a vida privada de cada um, mencionam-se invejas por prémios atribuídos, desentendimentos na fila do supermercado, estado civil, preferências sexuais, etc. Que o que está escrito seja a opinião livre de alguém que assina com o próprio nome e que, dessa forma, leva a jogo a sua honestidade intelectual e o seu trabalho é coisa pouco valorizada. O que interessa é falar das intenções subterrâneas, de jogadas de bastidores, dos ódiozinhos. Se formos por aí, a discussão arrisca-se a ser longa e desagradável e, aliás, até pode começar por onde tudo começa, pela publicação de um livro (porque é que uns são publicados e outros não),  passar pelo interesse mediático (porque é que um romancista estreante dá cinco entrevistas e outro não tem sequer direito a uma notícia) e acabar na atribuição de prémios (porque é que uns ganham mais prémios do que outros). Mais vale fazer de conta que vivemos no melhor dos mundos e que tudo isto tem apenas a ver com a qualidade do livro e não com factores extra-literários. Porque, a haver alguma discussão, não é justo que, sendo possível atirar tanta lama para cima de tanta gente e esconder a mão, havendo tantos factores a contribuir para o sucesso ou insucesso de um livro, para o reconhecimento ou esquecimento de um escritor, só as motivações do crítico/escritor sejam escrutinadas.

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