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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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A manif

Priscila Rêgo, 16.10.11

Os "indignados" da manifestação de hoje à tarde foram animados por uma ilusão: a de que é possível sair desta crise de uma forma diferente. Não é. As alternativas ou são mais violentas (sair do euro), ou politicamente impossíveis (a Alemanha que pague) ou simplesmente anacrónicas (não se corta ou défice e depois logo se vê quem o financia). No contexto político e económico actual, seguir o guião que traçámos com a troika é o menos mau dos mundos possíveis.

 

Ainda assim, manifestações deste género são, se devidamente doseadas, algo a saudar. Os sacrifícios que estão a ser exigidos são brutais e é bom que a pressão sobre o Governo não esmoreça. Essa pressão, e o escrutínio permanente que a ela está associado, é a melhor garantia que temos de que o Governo tem os incentivos certos para não ser complacente com os grupos de interesse que inevitavelmente acabarão por surgir: militares, forças de segurança, juízes, o sector da saúde, etc. Os manifestantes estão enganados; não quer dizer que não sejam úteis.

 

 

8 comentários

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    PR 18.10.2011

    </i>"Não é para mim claro que, no momento atual, essa alternativa fosse mais violenta"</i>

    Em vez de ter uma desvalorização real de 20% na função pública, seria de 30 ou 40% para toda a gente.

    "diluir um tanto as dívidas internas através da inflação (incluindo a que resultaria dessa desvalorzação cambial"

    Disparate. A nossa dívida está em euros. Com a desvalorização, a dívida subiria. [Claro que a dívida interna diminuiria, mas repare que isso era apenas reduzir a dívida de um português para diminuir os activos de outro português]
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    Luís Lavoura 18.10.2011

    Tal como eu disse no meu comentário anterior, penso que ninguém, nem eu nem você, sabe exatamente em que consistiria o cenário de saída do euro, dado que tal cenário dependeria das negociações que pudessem ser feitas entre entidades portuguesas e estrangeiras para perdões parciais da dívida. Portanto, estamos aqui ambos apenas a especular.

    Dependeria também da determinação do governo português em forçar - mesmo no quadro da saída do euro - sacrifícios para alguns - por exemplo, para os funcionários públicos - em vez de diluir tudo mediante uma impressão maciça da nova moeda nacional. Ou seja, o governo português, após a saída do euro, poderia recorrer à impressão de moeda para pagar os salários dos funcionários públicos - gerando com isso uma inflação maciça - mas também poderia ser mais razoável, diminuindo os salários dos funcionários públicos com o fim de evitar a tal inflação.

    Quero dizer, a saída do euro não evitaria, num cenário razoável, austeridade. Mas permitiria uma desvalorização da moeda que facilitaria a transição de empregos para as indústrias exportadoras.

    É também verdade que a nossa dívida está em euros. Como é evidente, essa dívida teria que, em parte, deixar de ser paga. O que, de qualquer forma, acontecerá sempre, dado que Portugal está, tal como a Grécia, incapaz a longo prazo de pagar tudo o que deve. Tudo dependeria, pois, dos arranjos que se fizessem para a forma de essa dívida não ser paga.
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    PR 18.10.2011

    "Portanto, estamos aqui ambos apenas a especular"

    Sim, estamos a especular. Mas a minha especulação não cai do ar: baseia-se no que sabemos dos outros casos de desvalorização aguda, como o da Islândia, em que o câmbio representou uma queda no nível de vida de 30 a 40%.

    "Quero dizer, a saída do euro não evitaria, num cenário razoável, austeridade. Mas permitiria uma desvalorização da moeda que facilitaria a transição de empregos para as indústrias exportadoras"

    Não percebeu. A desvalorização É a austeridade. Se a moeda cai 40%, o seu rendimento cai na mesma medida. Ganha o mesmo em euros, mas esses euros valem menos.

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    Luís Lavoura 18.10.2011

    A desvalorização dificilmente seria de 40%. Um valor mais razoável seria 20%.

    Mas não haveria uma queda do nível de vida dessa ordem. Portugal tem uma capacidade grande de substituir importações por produtos nacionais. Além disso não haveria uma maciça falência de empresas, como presumivelmente irá haver agora por efeito da queda da procura interna.

    A minha opinião é que Portugal está, de qualquer forma, falido, pelo que é só uma questão de tempo até à Europa chegar à razão e decidir que uma parte da dívida terá que ser perdoada e que o país terá que sair do euro. A saída do euro é essencial para o país poder recuperar competitividade mediante desvalorizações da moeda. É também essencial porque o nosso ritmo económico é diferente do da Alemanha e portanto a taxa de juro precisa de ser diferente também.
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    Priscila Rêgo 18.10.2011

    Ooooops...

    Tem razão, Miguel. Por outro lado, no caso islandês e semelhantes, a redução do nível de vida foi mesmo de 35/40%. O que provavelmente indicia que a desvalorização foi bastante superior aos tais 40% que eu referi. [Mesmo descontando o facto de o país ser mais aberto e depender mais de importações].

    Luís, gosto sempre da leviandade com que aborda estes assuntos. Refere 20% de desvalorização como quem dá bitaites acerca do resultado do jogo enquanto come tremoços no café. Se quiser um exemplo, olhe para a Islândia.

    Ah, e essa da "capacidade de substituir importações" é uma treta. A capacidade de substituit importações está condicionada à capacidade de reutilização da capacidade produtiva.

    Fora o "problema bancário" que o Miguel Madeira refere...
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    Luís Lavoura 19.10.2011

    Os 20% não são um bitaite. (A sua comparação com o caso islandês é que é - cada caso é um caso.) São uma estimativa daquilo que os salários portugueses terão crescido mais do que os alemães desde a criação do euro. É um número que tem sido repetidamente utilizado, por exemplo, pelo economista Pedro Arroja.

    A capacidade de substituir importações é real. As pessoas hoje compram bicicletas fabricadas no estrangeiro em vez de comprarem produto nacional, compram queijos estrangeiros em vez de comprarem nacionais, etc. Fazem isso porque o produto estrangeiro tem, na sua perceção, melhor relação qualidade-preço. Mas, se o produto importado ficasse 20% mais caro, essa relação alterar-se-ia.

    E, como mostram todas as estatísticas, e a realidade observada, o investimento em Portugal tem caído a pique. O que quer dizer que, se a procura aumentasse, haveria muita capacidade para investir (na nova moeda nacional, mais abundante, claro - não em euros).
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    Miguel Madeira 19.10.2011

    Eu tenho mais ouvido falar em 30%
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