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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Revoluções

Bruno Vieira Amaral, 21.10.11

Agora que passaram alguns dias desde esse momento inteiro e limpo que foi o 15 de Outubro da indignação, já me sinto com forças para escrever sobre o assunto. Nos dias que se seguiram à manifestação, não me foi possível pensar coerentemente sobre o maravilhoso exemplo de participação cívica, de democracia directa e de construção do futuro que nos foi legado por milhares de compatriotas, um dos quais empunhava o que me pareceram ser duas garrafas de cerveja enquanto era infamemente varrido da democrática escadaria por forças policiais comprometidas com o Mal. Para me emocionar mais, só faltou um carrinho de bebé por ali abaixo. A bizarra proposta de invasão da Assembleia da República, que pode ser tranquilamente visitada por qualquer cidadão durante a semana, encantou-me: ficámos a escassos degraus de um novo regime, de uma nova constituição e de termos, finalmente, o governo que merecemos. Estava tudo muito bem feito: houve debate de ideias, votações de braço no ar e um megafone usado por um empenhado democrata que aconselhava, aos berros, os restantes democratas a não provocar distúrbios. Houve aplausos e apupos, imprecações e cartazes arte povera para ajudar ao realismo da reconstituição histórica. Foi assim um género de feira medieval, mas para recriar o ambiente dos anos 70. Sou um apreciador das revoluções feitas nestes moldes pacíficos e em que toda a gente procura, acima de tudo, não se aleijar e não enervar a polícia. Isto, para quem não teve a oportunidade de acompanhar as cerimónias em directo, é a verdadeira democracia e, se estiverem de acordo, podemos fazê-la uma vez por mês, à porta da Assembleia ou num descampado qualquer. Temos sempre o pretexto da austeridade que, insensível ao talento e à criatividade dos indignados, vai continuar a andar por aí.

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