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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Duelo

Bruno Vieira Amaral, 16.04.10

Chico da Vinha esperou o primo e, com este montado numa égua, desferiu três tiros, dois dos quais lhe diminuíram a parentela, tendo o outro acertado no infeliz animal, que desgraçadamente se viu no meio da contenda familiar. Neste, como em muitos outros casos, há que procurar a mulher. E a mulher do caso tinha sido em tempos a do Chico, mas já não era. Como a lealdade era mais forte à família do que ao pobre do Chico da Vinha, a mulher foi viver com o primo deste, o tal que vinha sossegado na égua. Lembra-me esta tragédia alentejana um conto de Guimarães Rosa, Duelo. Aqui não há dúvidas, nem Capitus ambíguas. Silivana traiu o marido. Turíbio Todo, o marido, vingou-se. Atirou a matar mas acertou no homem errado, irmão de Cassiano Gomes, o tal que lhe usurpara o conjugal leito. Nisto, o traidor enche-se de brios e parte em busca do corno assassino para limpar o sangue fraternal. O corno, corajosamente, foge. Os dois homens andam num vai-e-vem de desencontros, já sem saber quem anda atrás de quem, até que o traidor feito caçador de maridos é traído pelo coração e bate as botas de ex-militar. A notícia da morte do rival alivia Turíbio que decide regressar a casa para a felicidade possível junto da mulher e dos seus grandes olhos de cabra tonta. Acontece que o marido não regressa a casa e mais não dizemos.

 

Entre o nosso Chico da Vinha da vida real e o Turíbio Todo do conto a diferença é pouca. Uma questão de pontaria. Chico matou o primo mas teve de disparar três vezes e quase que despachava a égua. Turíbio, a considerável distância, disparou uma bala certeira no homem errado. Na sombra, como sempre e já desde Tróia, ficam as mulheres e os seus grandes olhos.