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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Educação superior [2]

Tiago Moreira Ramalho, 14.11.11

Não me comovo particularmente, e tive oportunidade de o dizer a quem o quisesse ouvir, que quem escolhe estudos superiores apenas com base no interesse presente (o prazer de estudar) e sem olhar para o interesse futuro (a rentabilidade do curso) acabe a trabalhar naquilo a que se chama o mercado pouco qualificado e a competir com imigrantes com um centésimo do investimento em educação. A história de perseguir «sonhos» é uma falácia, um engano em que a geração dos meus pais incorreu na hora de educar a minha geração. Partiu-se do pressuposto que trabalho e lazer são uma e a mesma coisa. A partir daí, cursos que seriam estudos de tempos-livres tornaram-se majors. E a geração dos sonhos tornou-se a geração barata, auto-apelidade de «à rasca». Lamento, mas as escolhas têm consequências. Uma má decisão individual não pode constituir um dever para ninguém.

4 comentários

  • João,

    Partamos da simples afirmação de que tudo tem um custo. Se eu fizer um trabalho que gosto de fazer, esse prazer será aproveitado pelo meu empregador (ainda que eu tenha mais habilidade - os ganhos são partilhados, no fim). No entanto, comparemos duas situações:

    Numa área em que tenha pouca habilidade, o meu salário poderá ser 3000€ e a minha probabilidade de ser empregado nessa área é de 90%. Pensemos, aqui, na engenharia, por exemplo.

    Numa área em que tenha muita habilidade, o meu salário poderá ser de 5000€, mas a minha probabilidade de ser empregado nessa área é de 25% (pensemos em História da Arte).

    Qual é que acha que seria a opção racional (excluamos opções por risco)?

    Quanto ao que diz da enfermagem, isso poderia ter sido facilmente previsto. Isso até é um fenómeno bem conhecido de Economia do Trabalho. Se uma certa capacidade paga bem, segue-se que muita gente a procura, o que conduz a um excesso de oferta de empregados. O problema com muitas áreas é que elas, ao contrário da Enfermagem há uns anos, já não pagam bem e, mesmo assim, há camiões de recém-licenciados nestas «artes». O que aconteceria normalmente seria que o baixo salário esperado destas áreas levaria a uma diminuição dos estudantes e, por efeito contrário do tal modelo de Economia do Trabalho (Cobweb Model), a um excesso de procura, que aumentaria o salário e por aí em diante. No entanto, há uma série de incentivos baralhados aqui. Nomeadamente o preço de estudar. O preço de estudar é baixo o suficiente para que estudos possam ser consumo pago pelo Estado. Afinal, perder 5000€ para estudar uma certa matéria quando se tem o Estado e a família a financiar não parece ser muito mau. E quando o mesmo Estado assegura uma série de almofadas que fazem reduzir em larguíssima escala a aversão ao risco (já para não falar dos movimentos cívicos e políticos que criam uma ilusão errada dos riscos, ao defenderem que todos têm direito a trabalhar na área para que estudaram e coisas assim).

    Eu diria que aqui o Estado tem duas funções. Prestar informação clara e tentar distorcer ao mínimo os incentivos normais de uma economia de mercado.
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    Miguel Madeira 16.11.2011

    A impressão que eu tenho é que é mesmo nas escolas privadas que dominam os tais cursos sem saída.

    Se isto for verdade (não sei se é, nem sequer se é possivel averiguar isso), põe em causa parte da teoria (afinal, mesmo sem subsídios do Estado os alunos vão para "Ciências do Desenvolvimento e da Cooperação")
  • Sem imagem de perfil

    Hugo Monteiro 16.11.2011

    Miguel

    Muitos desses cursos com bastantes saídas profissionais têm um custo de ensino muito alto (Engenharias, Medicina, etc.). É complicado as privadas competirem nesse nicho. Mas também é verdade que em Portugal o mercado do "canudo" ainda tem uma presença forte. Há muita gente a ir para a universidade "porque sim". É normal que essas pessoas não encontrem emprego no final.
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