Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Sobre a ignorância dos nossos universitários

Vasco M. Barreto, 20.11.11

O que mais surpreende no famoso vídeo com as respostas estapafúrdias dos universitários portugueses a perguntas de cultura geral é a falta de vergonha. À primeira apreciação, pensamos na falta de vergonha com que os alunos entrevistados toleraram a exposição das suas tristes figuras; à segunda, pensamos num comportamento vergonhoso da revista Sábado. Qualquer pessoa com um mínimo de experiência na edição de informação sabe que é possível passar a imagem que se pretende com uma escolha judiciosa do que se mostra. O caso extremo consiste em montar uma sequência de cortes que isolam o movimento dos lábios quando pronunciam sílabas e pôr a pessoa a dizer por playback o que bem entendermos, mas mostrar só as respostas falhadas a um conjunto de perguntas é um outro exemplo, que apenas difere do anterior no grau. Presumo que o artigo publicado na revista em papel terá uma ficha técnica e a descrição do contexto em que foram feitas as perguntas, só que isso não satistaz, porque, entre outras razões, comprar a revista depois de ver o vídeo não é o comportamento mais frequente. Sem mais elementos, este testemunho de um dos estudantes entrevistados parece-me credível e pleno de razão. 

 

Martin Amis definiu a Literatura como uma guerra contra o clichê. É uma definição tão boa ou tão má que serve para quase tudo. Se substituirmos a guerra contra a frase feita pela guerra contra a ideia feita, temos uma definição de jornalismo. Ora, se no trabalho da Sábado a provável manipulação irrita, a total falta de originalidade deprime - e da soma destas reacções resulta uma estranha apatia. A ideia de que os nossos universitários são hoje mais ignorantes é um clichê. Resulta, em parte, desta espécie de eterno efeito de paralaxe geracional que faz com que os pais lamentem sempre a decadência cultural da geração dos filhos - o que se fosse verdadeiro já nos teria feito subir às árvores de onde desceram os nossos antepassados. E resulta também da massificação do ensino superior e da criação de licenciaturas de mérito mais do que duvidoso, o que levanta a suspeita de um decréscimo dos níveis de exigência. O que a Sábado fez foi servir de bandeja aquilo que as pessoas gostam de consumir em modo de guilty pleasure. Mas é a Sábado que ignora uma regra básica: fazer prova de ignorância é mais difícil do que provar o conhecimento, tal como é muito mais difícil provar que algo não aconteceu do que o contrário. Enfim, trata-se de uma interpretação demasiado optimista, porque a curar a ignorância é muito mais simples do que acabar com a má-fé.

 

11 comentários

Comentar post

Pág. 1/2