Domingo, 20 de Novembro de 2011
Vasco M. Barreto

O que mais surpreende no famoso vídeo com as respostas estapafúrdias dos universitários portugueses a perguntas de cultura geral é a falta de vergonha. À primeira apreciação, pensamos na falta de vergonha com que os alunos entrevistados toleraram a exposição das suas tristes figuras; à segunda, pensamos num comportamento vergonhoso da revista Sábado. Qualquer pessoa com um mínimo de experiência na edição de informação sabe que é possível passar a imagem que se pretende com uma escolha judiciosa do que se mostra. O caso extremo consiste em montar uma sequência de cortes que isolam o movimento dos lábios quando pronunciam sílabas e pôr a pessoa a dizer por playback o que bem entendermos, mas mostrar só as respostas falhadas a um conjunto de perguntas é um outro exemplo, que apenas difere do anterior no grau. Presumo que o artigo publicado na revista em papel terá uma ficha técnica e a descrição do contexto em que foram feitas as perguntas, só que isso não satistaz, porque, entre outras razões, comprar a revista depois de ver o vídeo não é o comportamento mais frequente. Sem mais elementos, este testemunho de um dos estudantes entrevistados parece-me credível e pleno de razão. 

 

Martin Amis definiu a Literatura como uma guerra contra o clichê. É uma definição tão boa ou tão má que serve para quase tudo. Se substituirmos a guerra contra a frase feita pela guerra contra a ideia feita, temos uma definição de jornalismo. Ora, se no trabalho da Sábado a provável manipulação irrita, a total falta de originalidade deprime - e da soma destas reacções resulta uma estranha apatia. A ideia de que os nossos universitários são hoje mais ignorantes é um clichê. Resulta, em parte, desta espécie de eterno efeito de paralaxe geracional que faz com que os pais lamentem sempre a decadência cultural da geração dos filhos - o que se fosse verdadeiro já nos teria feito subir às árvores de onde desceram os nossos antepassados. E resulta também da massificação do ensino superior e da criação de licenciaturas de mérito mais do que duvidoso, o que levanta a suspeita de um decréscimo dos níveis de exigência. O que a Sábado fez foi servir de bandeja aquilo que as pessoas gostam de consumir em modo de guilty pleasure. Mas é a Sábado que ignora uma regra básica: fazer prova de ignorância é mais difícil do que provar o conhecimento, tal como é muito mais difícil provar que algo não aconteceu do que o contrário. Enfim, trata-se de uma interpretação demasiado optimista, porque a curar a ignorância é muito mais simples do que acabar com a má-fé.

 


De JS a 21 de Novembro de 2011 às 05:32
@manuel.m,

Já quando esse vídeo dos americanos era popular (curioso que se reproduziu por países como UK ou Alemanha com uma certa facilidade) e entre amigos me diziam que eles eram burros e que tinham um vídeo de gaffes , eu dizia que em 1 hora em qualquer cidade portuguesa ou europeia conseguia gravações suficientes para tal.

E este vídeo da sábado nem é inovador, já se fez isto e até com um bocadinho de mais piada (5 para a meia noite).

Esta peça (não vi o artigo, apenas me refiro ao vídeo) é uma imagem da imprensa actual que só procura mediatismo. É mau jornalismo (o vídeo lá está) porque apenas se deu ao trabalho de fazer um Best (?) of ... das resposta gaffes dos alunos.

Ah, o problema não são os jovens nem os universitários, o pessoal é que não compreende que (1) todos nós sabemos pouco, podendo dar uma gaffe do género a qualquer momento, e (2) que boa parte da população - não sei se mais ou menos, mas ainda relevante - não sabe 1/4 do que era suposto saber um tipo com "cultura geral" (que sendo geral também tem muito que se diga quem é o tipo que tem um mínimo de cultura geral aceitável).

Isto tudo depende do meio envolvente, se for ter com um grupo de agricultores típicos rurais e não souber uma coisa que para eles é intuitiva também corre o risco de ser gozado.

O interessante é que, neste vídeo, boa parte do pessoal goza quando, de facto, sabe responder a pouco mais de metade das questões, mas como existem algumas básicas para eles que resultam em gaffes dos outros toca partir para o gozo.

João Saro


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