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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Tentativas, erros e algumas possibilidades

Tiago Moreira Ramalho, 28.11.11

Um lugar comum da Economia é que não é possível fazer experiências, o que não é bem verdade. Todas as políticas económicas são experiências e a ciência evolui com sucessivas tentativas, umas responsáveis por bons resultados, outras por calamitosas desgraças. O Euro é uma experiência. As respostas à crise do Euro são experiências. Dessas experiências, os economistas tiram as devidas conclusões.

Os últimos anos europeus permitem, para já, algumas possibilidades relevantes, mesmo que não tenhamos certezas sobre nada. Enquanto os Estados Unidos foram a força propulsora da crise e continuam com défices clamorosos, o mercado esbofeteia-se por lhes comprar títulos do tesouro. Já a Europa, que levou com a onda como resultado das tropelias americanas, vê-se sem grande solução e até a própria Alemanha começa a tremer. Isto parece lugar comum, depois de meses de discussão, mas um problema grego alastrou-se a Portugal, Espanha, Itália e França, pelo menos até agora. O problema da periferia é, como li algures, um problema de meia Europa. E a Alemanha, lamenta-se, depende das exportações para essa meia Europa. Afundar uma das partes significa afundar a outra. Tudo isto, atente-se, apesar de programas de austeridade sérios (pelo menos em parte dos países), de governos depostos, de tecnocracias instaladas e de similares movimentações. Contudo, pouco ou nada se vê.

Poderia argumentar-se com o tempo, dado que tudo é muito recente. No entanto, os mercados raramente olham para o passado, por isso o tempo é uma variável pouco relevante. Poderia argumentar-se com a incapacidade de cumprimento dos programas, mas até a troika diz que Portugal está a fazer o que é certo. Poderia argumentar-se com campanhas dos mercados, mas esta já ninguém engole.

A lógica tem sido, grosso modo, a seguinte: impor austeridade aos países devedores e não dar mais margem de manobra ao BCE, anulando um instrumento de política macroeconómica. Basicamente, anulam-se deste modo os dois instrumentos de política macroeconómica existentes: política fiscal (os países não se conseguem financiar) e política monetária (o BCE só existe para assegurar uma inflação teutónica). Claro que se criam mecanismos para deixar o vapor sair em pequenas doses, como os fundos europeus (que nem chegam para ajudar a Itália, quanto mais meia Europa), que têm como fundamental objectivo replicar o que seriam os resultados de uma das políticas, mas cujo alcance é fundamentalmente reduzido.

Pessoalmente, concordo com as medidas de austeridade impostas. Os países têm de honrar os compromissos, mesmo que possam ter pontuais ajudas. Não se pode resolver tudo com emissão de moeda, ou lá teremos as criancinhas europeias a brincar com notas de quinhentos nas ruas. No entanto, a obsessão leva à desgraça. A simples possibilidade de um credor de último recurso acalma as expectativas negativas (que, nos mercados, geram por si próprias realidades negativas). Pode ser por isso que dois países essencialmente indistinguíveis na maior parte dos aspectos políticos como são a Finlândia e a Suécia comecem a ter diferenças substanciais na capacidade de financiamento, sendo o juro para a Finlândia cada vez maior (provavelmente porque a Suécia, caso seja necessário, pode imprimir a sua própria moeda). Ou pode ser também por isso que o Reino Unido começa a financiar-se a preços mais baixos que a própria Alemanha. Dificilmente se pode dizer com certeza que há aqui relações causais, mas começa a adivinhar-se uma tendência.

A The Economist dá-nos algumas semanas para agir antes do colapso. Não sei se terá razão, mas alguma coisa tem de ser feita. Pode ser que com a água a chegar às solas nórdicas a pressão sobre o eixo director comece a fazer-se sentir e a Europa páre de se contaminar com os traumas alemães.

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