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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O dilema do BCE 2 [Pode ser enfastiante]

Priscila Rêgo, 04.12.11

O que é que determina o resultado da "solução BCE"? A credibilidade. Se a garantia dada pelo BCE de que vai fazer tudo o que for necessário para estabilizar a dívida pública for assumida como certa pelos mercados, o cenário ideal acabará por se concretizar. Mas isto tem um problema. 

 

 

O problema é que uma "ameaça credível" implica que o BCE admita directa e explicitamente que está disposto a comprar dívida pública independentemente do que aconteça à inflação. Aqui, não há meias tintas: qualquer ressalva, qualquer "se", "mas" ou "em último caso" será lido pelos mercados como um sinal de que o BCE poderá inverter a marcha se a inflação parecer fora de controlo. Antecipando esse cenário, nenhum investidor mentalmente são irá arriscar comprar títulos que poderão cair a pique a qualquer momento.

 

Ou seja, o BCE parece "preso" entre dois compromissos: stick to the plan e manter-se focado na inflação, ou actuar nos mercados de dívida pública e assumir directamente que riscou dos seus estatutos aquele que era o objectivo número 1. Estará o BCE disposto a seguir o segundo caminho? O meu palpite é que não. Mais importante ainda, suspeito de que ninguém acredita nisto e que o próprio BCE sabe bem o quão pouco credível seria a ameaça de utilizar a impressora para salvar a periferia. Não é de espantar que não achem piada à ideia. 

 

Isto faz-me pensar em duas coisas. A primeira é que parece (bom, parece-me a mim, mas admito que esteja a ver mal as coisas) que um mandato restrito como o do BCE não permite a flexibilidade necessária para actuar em contextos de urgência. Os investidores não acreditam que o BCE abdique do controlo da inflação e, caso ela saísse de controlo, reagiriam de forma imprevisível - pura e simplesmente não saberiam qual era a nova linha de acção. No caso da Fed, há a certeza a priori de que a inflação é apenas um dos objectivos. Uma inflação de 5% não sinaliza necessariamente uma mudança de política: afinal de contas, soluções de compromisso são expectáveis.

 

A segunda é que todo este problema pode ser atacado através de uma combinação de políticas: o BCE pode dar a certeza de que vai intervir de forma ilimitada desde que haja uma garantia externa ao Banco de que esta intervenção será muito limitada. Um exemplo, completamente hipotético: se um órgão reconhecidamente prudente e conservador do ponto de vista orçamental tomar conta das contas da periferia e garantir que dentro de dois anos não há défice a exigir compras do BCE, o problema é parcialmente eliminado. Claro que isto implicaria pôr a Alemanha a mandar no Orçamento português. Ou, como outros diriam, caminhar para uma verdadeira união fiscal.

 

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