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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Adúlteros Americanos

Bruno Vieira Amaral, 05.12.11

Na Ler de Novembro:

 

“Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.” A ameaçadora primeira frase de O Teatro de Sabbath, de Philip Roth, pertence curiosamente à amante e não à legítima. É quase inevitável que, num determinado momento da sua vida de enganos e pequenas mentiras, o adúltero seja confrontado com o espectro da exclusividade, quando não com a conversão forçada às virtudes da monogamia. Contornar os deveres matrimoniais requer uma considerável ginástica da consciência. Da bíblica carne fraca aos modernos viciados em sexo, da adrenalina egoísta da novidade à justificação filosófica e genética da traição masculina, o menu de desculpas para o adultério é variado e suculento quando comparado com as razões frugais para a fidelidade: amor e respeito pelo outro ou a (pouco admitida) falta de oportunidades. Haverá outra, mais maquiavélica e praticamente desconhecida do homem comum. Trata-se do interesse político. Muitos políticos americanos têm aprendido que um desvio conjugal pode prejudicá-los mais do que um desvio de dinheiro. Pode parecer uma confusão entre a esfera pública e a privada, resquícios de uma mentalidade puritana (cf. A Letra Escarlate, de Hawthorne), mas se um homem nem sequer merece a confiança da própria mulher com que cara pedirá aos eleitores para confiarem nele? Um político exposto em público como adúltero tem de eliminar do léxico a palavra “confiança”, o equivalente a pedir a um dirigente comunista para nunca mais usar a expressão “ataque aos direitos dos trabalhadores.” Porém, deduzir de um comportamento moral privado uma eventual conduta imprópria na gestão da coisa pública é algo tão ingénuo como a pergunta “compraria um carro em 2ª mão a este homem?”, pensada para questionar a integridade de um presidente manhoso. Todos nós conhecemos alguém fiel à mulher e a quem não hesitaríamos em comprar um carro, mas inadequado até para conduzir uma reunião de condóminos. Isto (e, num dos casos, a pontaria de Lee Harvey Oswald) ajuda a explicar a contínua popularidade de dois presidentes americanos muito propensos a pular a cerca.

 

Em meados da década de 90 do século passado, tivemos direito a uma ópera do sabão sobre as faltas conjugais do homem mais poderoso do mundo. A saga envolvia charutos amolecidos e temperados nas intimidades de uma estagiária e incursões céleres na Sala Oral. O reinado de William Jefferson Clinton ficou manchado por um vestido azul, por sua vez manchado para a eternidade por um vestígio de esperma presidencial. Monica, a estagiária, guardou com fervores de devota a relíquia numa caixa como prova da frágil constituição moral do presidente. Vítimas retroativas apresentaram-se ao mundo, emergindo do fundo dos tempos, feias como demónios, para reclamar o respetivo quinhão de ignomínia a tão duras penas conquistado. Também elas tinham sido tocadas pelo eleito e ungidas pela sua semente, ainda que não depositada no vaso recomendado pela ortodoxia. Hillary suportou a humilhação porque tinha em vista galardão mais elevado do que o de esposa traída. Concedeu-lhe o perdão público e o povo, saciada a fome de escândalo, também. Bill Clinton saiu da Casa Branca com níveis de aprovação pública superiores aos de Ronald Reagan, o que prova que é mais vantajoso saber representar do que trair a mulher.

 

Mais de trinta anos antes, John Fitzgerald Kennedy não teve de enfrentar procuradores esfaimados a morder-lhe as canelas. Era, contudo, um adúltero em série e insaciável. No início de Adúltero Americano, de Jed Mercurio, lemos: “Sempre teve mulheres – várias, em sequência e simultaneamente, e podiam ser amigas da família, herdeiras de famílias ricas, senhoras da alta sociedade, modelos, atrizes, relações profissionais, esposas de colegas, “meninas” amigas de festas, lojistas e prostitutas.” O seu lema poderia ser a frase da personagem de Joe Pesci em O Touro Enraivecido: “I try to fuck anything”. A popularidade de JFK pode atribuir-se à morte prematura e também ao desinteresse da imprensa da época por delitos menores. A fama de mulherengo não lhe arruinou a aura de menino de ouro da política americana. Pelo contrário, essa aura aristocrática de eleito contaminou todos os aspetos da sua vida pública e privada.

 

O escritor Theodore White, responsável pela associação da presidência de Kennedy à Camelot do Rei Artur, escreveu na revista Life que aqueles tempos foram “um momento mágico na história americana, em que homens galantes dançavam com belas mulheres, uma época de grandes feitos, em que artistas, escritores e poetas se reuniam na Casa Branca enquanto os bárbaros permaneciam no outro lado das muralhas.” Clinton, pese embora o reconhecimento das suas qualidades intelectuais por figuras como Toni Morrison ou Gabriel García Márquez, nunca foi o rei de uma corte sofisticada. Adúlteros omnívoros, a grande diferença entre Kennedy e Clinton – esqueçamos o facto de um ser católico e o outro batista, das origens irlandesas de um e do outro ter sido chamado o “primeiro presidente negro” e de o rol de conquistas de JFK incluir uma tal de Marilyn Monroe – é de classe social. É a diferença entre a Washington de Gore Vidal e os subúrbios de John Updike. Entre a aristocracia possível e a classe média inevitável de uma mesma nação. Entre patrícios e plebeus. À distância, os rumores das ligações entre o clã Kennedy e a mafia são muito mais fascinantes do que os duvidosos negócios de compra e venda de terrenos dos Clinton. O casal Kennedy esbanjava classe, era matéria de conto de fadas. O casamento dos Clinton é da fibra das sociedades de negócios, recende a obstinação. Apesar do seu inegável carisma, podemos imaginar Clinton como um remediado vendedor de automóveis ou mediador de seguros a seduzir empregadas de cafetaria no Arkansas. Nos corredores do poder ou nos de uma agência bancária, Clinton seria sempre um adúltero de província. Kennedy instalou-se, desde cedo, num trono mitológico. Nos anos de Camelot, imprimia-se a lenda. Nos de Clinton, imprimiu-se a verdade. Porque até os adultérios presidenciais precisam de uma hierarquia, de gradações classistas entre a aristocracia e o povo. Há um mar de estatuto a separar uma Casa Branca de uma casa com cercas brancas.

 

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