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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Os prodígios

Tiago Moreira Ramalho, 09.12.11

Aborrecido e sem televisão, tenho dado por mim a percorrer no Youtube pequenos videozinhos de pequenos cantorzinhos que se dão a conhecer naquelas coisas dos talentos. Sobra talento a uma Inglaterra que exporta doses cavalares de Simon Cowell em pacotes promocionais cheios de piadas esforçadas e tantas vezes forçadas.

Quando aparece um garoto de onze anos por lá, os juízes, geralmente pessoas reconhecidas por já terem envergado pouca quantidade de roupa em público, perguntam enternecidos se o piquinalho faltou às aulas. A criancinha lá responde o óbvio: que sim. Sorriem e mandam o ganha-pão pré-púbere fazer as maravilhas que ali veio para fazer. No fim, levantam-se e aplaudem e choram e dizem que aquela coisa a quem ainda só nasceram pêlos na cabeça é uma estrela. Um prodígio.

A seguir, manda-se a escola para essa terra de onde veio e investe-se na voz e no estilo e no marketing e em tudo isso. A criança torna-se cada vez mais prodigiosa, o público em geral aplaude, adora, venera. Ocupam-se capas de revista com as primeiras experimentações sexuais, com nudez parcial, com crises mentais, com gravidezes e drogas. Aqui já terá o prodígio feito a barbinha penugenta umas quatro ou cinco vezes.

Claro que a vida estável, com as banalidades da aprendizagem, da família e das relações normais que tão caras são à opinião pública, essa monstruosidade que não se coíbe de julgamentos sumários a tudo o que mexe, são colocadas de parte. Em regra, adoramos que a pequenada cresça saudável e forte, mas não abdicamos de uma aberração que nos faça passar o tempo e esquecer as frustrações. Mesmo que a aberração ainda não se tenha livrado dos dentes de leite.

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