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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Tiranias

Tiago Moreira Ramalho, 18.04.10

A tese é recorrente – aborrecidamente recorrente – e resume-se facilmente: alguém que, ouse defender que o Estado não deve privilegiar nenhum credo é, por meio de um silogismo de meandros tortuosos, na realidade, um tirano que quer a pátria feita um deserto incréu.

Agora é o Jorge Costa, muito suportado pelo João Gonçalves, quem denuncia a tramóia. Concidadãos – quase diz – alertai-vos para as pretensões desses danados que se insurgem contra a tolerância de ponto – um tema que já aborrece – pois são um bando de enviados do belzebu com o único intento de nos roubarem a fé, com maiúscula. Pois, Jorge Costa, não é bem assim. Que o Jorge Costa ache tolinhos os textos e as posições de pessoas como Hitchens, Dawkins ou Silva, Palmira F. Silva, quando tentam evangelizar ao contrário, tudo bem. Até podemos rir um bocadinho à conta disso, que eu também acho o folclore muito ridículo. Muito diferente é o Jorge Costa assumir que todos aqueles que defendem o princípio do Estado Laico são cópias ampliadas ou reduzidas da tríade infernal supra-citada. Aliás, atrevo-me, esse processozinho de intenções tão típico em alguns temas – como o da religião – padece, precisamente, daquilo que o Jorge Costa quer «denunciar»: é tirânico. Esse estalinismozinho de colocar a questão nos primários «quem não está comigo está contra mim» é do mais tirânico – e, infelizmente, do mais corriqueiro – que pode haver numa discussão. E, por abuso dos filiados, é um dos principais motivos pelos quais a direita conservadora portuguesa é o que é: nada. Julgando todos idiotas, continua a abusar das mesmas falácias, dos mesmos dedos em riste, dos mesmos julgamentos sumários de todos – e a palavra «todos» é importante, pois a generalização não tem excepção – os que não partilham da mesma «luz».

Resumidamente, Jorge Costa, é-me (a mim e, muito provavelmente, a uma boa parte daqueles que não consideram normal a tolerância de ponto concedida) completamente indiferente aquilo em que o Jorge, o João e todos os outros acreditam. Pouco me importa se são católicos, calvinistas, luteranos, satânicos, hindus, confucionistas ou o que mais houver. O que me importa, sim, é que à conta das vossas crenças – legítimas e com as quais, reforço, não tenho nada a ver – pretendam subverter as regras institucionais porque, enfim, dá jeito.

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