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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Ah, afinal era isto

Priscila Rêgo, 25.12.11

O editorial de hoje do Expresso revela bem como é que uma coisa tão inócua como as declarações de Passos Coelho acerca dos professores podem contaminar a opinião pública como contaminaram durante uma semana. O autor, que teve a sensatez de permanecer anónimo, consegue, num texto de quatro parágrafos, abordar o assunto através de três prismas diferentes e cometer a proeza (estatisticamente falando, claro) de meter a pata na poça em todos eles.  

 

O editorial começa bem logo a abrir. "O [erro] mais grave é falar na emigração como uma fatalidade absoluta". Mas quem leu de facto as declarações do primeiro-ministro (um grupo aparentemente muito restrito) sabe que Passos não disse isto. Perante uma pergunta directa - o que fazer? -, Passos limitou-se a avançar duas alternativas ao desemprego: a requalificação ou a emigração. Onde é que está a fatalidade? Pois é. Não está. 

 

No fundo, o editorialista até reconhece que o primeiro-ministro não disse nenhuma mentira. Mas preferia que ele desse de vez em quando "uma mensagem de esperança a todos os que ficam num país que tarda em modernizar-se". Só que uma mensagem de esperança que não assentasse no axioma fundamental da política portuguesa dos próximos cinco ou seis anos - acabou-se o dinheiro - arriscava-se a servir apenas para alimentar sonhos que já não podem ser cumpridos. Uma mensagem de realismo, pelo contrário, pode pelo menos ajudar a que os anseios dos professores se canalizem rapidamente para metas mais razoáveis.

 

Finalmente, o editorialista diz que "falar de emigração não pode ser tabu. Mas o Governo deveter cuidado com esse discurso". E logo a seguir, num assomo de coerência, escreve que "a emigração de professores, quando não decorre de um movimento puramente individual, só pode ser feita no quadro de acordo entre Estados. A única maneira de este processo ter algum sucesso (e lógica) passa por uma negociação liderada pelo Governo português"

 

Ou seja. Se o homem diz, numa entrevista, que os professores sem emprego devem ponderar a requalificação ou, caso não queiram mudar de ramo, a emigração, isto é um erro e um discurso pouco cuidadoso. Mas se depois acrescentar que o Estado está já a fazer acordos de intercâmbio laboral, a pôr os passaportes a imprimir e a publicitar lá fora o professor tuga - ah, bom, aí já não há problema. Se isso tivesse acontecido, aliás, de certeza que o tom do editorial seria muito diferente.

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