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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

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Passar Cavaco

Rui Passos Rocha, 01.01.12

 

Durante muito tempo vivemos a ilusão do consumo fácil, o Estado gastou e desperdiçou demasiados recursos, endividámo-nos muito para lá do que era razoável e chegámos a uma “situação explosiva”, como lhe chamei há precisamente dois anos, quando adverti os Portugueses para os riscos que estávamos a correr. Agora temos de seguir um rumo diferente, temos de mudar de vida e construir uma economia saudável. Somos todos responsáveis. [1]

Se os cálculos do gráfico acima [2] estão correctos (Priscila, dá-me lá uma mãozinha), a «ilusão do consumo fácil» foi-nos dada sobretudo pelo agora Presidente da República. O seu papel na «situação explosiva» é bem mais discutível: foi em 2000 que começou a subida vertiginosa da dívida pública em percentagem do PIB [3]. De qualquer forma não, não somos «todos responsáveis» por igual: há quem tenha governado e há quem tenha interpretado os sinais de quem governou.

8 comentários

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    Miguel Madeira 02.01.2012

    Em primeiro lugar, isso é um aumento de 900% e de 700%, respectivamente (não de 100% e 80%).

    E, à sua pergunta, penso que a resposta é... sim. Faz sentido atribuir as maiores culpas a quem teve o maior crescimento relativo (se fossemos pelo absoluto, o último seria quase sempre o culpado).

    No entanto:

    a) faria mais sentido fazer uma média anual - Cavaco teve 10 anos no governo, é natural que nesses 10 anos a divida (e tudo) tenha crescido mais do que nos 7 de Guterres ou de Sócrates

    b) a dívida em valor absoluto não interessa nada, o que interessa é a dívada em relação ao PIB
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    RPR 02.01.2012

    Sim, mas para o efeito pretendido neste post (dizer que ele não foi propriamente frugal nem pode agora acusar os outros, sem se acusar também a si, de terem recorrido fortemente à dívida para inflaccionar o nível de vida e gerar expectativas erradas) penso que a imagem serve: relativamente, e mesmo que dividamos aquelas percentagens por uma média anual, Cavaco Silva deverá ficar em primeiro.
  • Não conheço muito bem os dados, mas acreditando no que dizes relativamente a eles, o que seria estúpido seria o não aumento da dívida. Seriam oportunidades que se desperdiçariam, até porque a dívida em percentagem do PIB estava estável no tempo do Cavaco. Ele fez a política acertada. Mal estiveram os outros que não perceberam que o país que governavam não era o mesmo.
  • Sem imagem de perfil

    RPR 02.01.2012

    Mas a "ilusão do consumo fácil" não é um antónimo do viver de acordo com as nossas possibilidades? Se sim, o agora PR não é criticável por ter aumentado tão significativamente a nossa ilusão?
  • Não. Em primeiro lugar, a ilusão do consumo fácil lida com endividamento privado, não com endividamento público. Depois, muito do endividamento era 'acomodado' por taxas de crescimento extraordinárias. Não endividar seria parolo. E não há nada de incentivo aqui. Não é legitimo que se aponte a Cavaco uma alteração de incentivos quando ele fez o que qualquer governante decente faria.

    Além disso, eu diria que os incentivos ao endividamento privado (o consumo fácil) não vieram da acção política, mas da entrada na UE e, depois, da entrada no Euro, que criaram expectativas (bastante válidas, apesar de overrated) de crescimento futuro dos rendimentos.
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    RPR 02.01.2012

    Estás a dar pontapés ao meu cérebro e eu a gostar. Mas tenho dúvidas sobre a magnitude desse acomodamento do crescimento da dívida pelas taxas de crescimento do PIB; sobre essa suposta não ligação entre o crédito privado e os gastos públicos (seria preciso confirmar se não houve alterações à regulação bancária naquela altura, relaxando-a); e sobre os incentivos ao endividamento privado não terem vindo "da acção política, mas da entrada na UE". Cheira-me que ambas as coisas estão interligadas.
  • Isto é apenas o que eu penso, mas eu diria que as coisas estão correlacionadas, não havendo relação causal entre uma e outra. Dizer que a dívida privada aumentou porque a dívida pública aumentou é como dizer o inverso.

    Pensa antes assim: anos 80, perspectivas perfeitamente racionais de grande expansão da economia devido ao efeito catch-up (mercado integrado com economias muito mais ricas). Taxas de crescimento que sustentam um aumento da dívida que não põe em causa a sustentabilidade financeira do país (tanto é que nunca tivemos problemas de financiamento até agora). Ao mesmo tempo, as famílias vêem os seus rendimentos a subir, com perspectivas de subir ainda mais. Mais tarde, as taxas de juro decrescem abruptamente. O consumo fácil não era uma ilusão; era uma realidade. No entanto, foi tudo um pouco em 'bolha', que como quase todas as bolhas não foi bem controlado. A certa altura deveríamos ter acalmado os défices e talvez passar a ter superavits, coisa que nunca fizemos nem tivemos.

    Os dois endividamentos foram, essencialmente, fenómenos que andaram paralelamente e que, por isso, parecem causa-efeito. Pessoalmente, diria que não é o caso.
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