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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O desertor

Tiago Moreira Ramalho, 03.01.12

Ao decidir transferir os capitais da sua empresa para a Holanda, Alexandre Soares dos Santos parece ter comprado o ódio generalizado das «elites esclarecidas». Lideradas por Nicolau Santos, autor de colunas de opinião invejáveis (invejáveis!), as almas indignadas atacam o homem que agora não pagará impostos em Portugal. Este homem que não é patriota, que é um Judas televisivo, que é, se nos permitíssemos tanto, um pulha.

Pois tudo isto consiste num conjunto de erros de facto ou erros de análise. Com a transferência, a única coisa que não paga impostos é a empresa em questão – uma empresa detentora de capitais financeiros que recebe coisa de 50% dos dividendos da Jerónimo Martins. A Jerónimo Martins continua a pagar todos os necessários impostos – IVA, IRC e restante molhada. Os Pingos Doces ainda são da gente, malta, ainda nos pagam impostos. Isto para não referir (referindo) a quantidade de empregos que a Jerónimo Martins mantém em Portugal, coisa muito contra a pátria que esse Soares dos Santos, o malandro, anda a fazer.

Agora a ética. Ai, como gostamos de mandar uma laracha ética, uma pequena chapadinha de moralismo. Este Judas, que vinha para a televisão mandar bitaites, agora furta-se ao imposto bom que Portugal cobra. Não contribui, o maldito. O que Soares dos Santos fez foi uma decisão perfeitamente banal nos mercados: arranjou o seu portfolio de maneira a ter os melhores resultados. A elite indignada, em vez de atacar quem toma decisões acertadas, devia ajudar a perceber porque é que as decisões acertadas não passam por aqui. Nem para o Soares dos Santos, nem para qualquer pessoa que queira ter uma vida decente. Olhemos para esses milhares de jovens trabalhadores, investigadores e empreendedores que se vendem ao monstro estrangeiro, gente sem pátria nem honra, nem ética. É isso, não é?

4 comentários

  • Vai. No entanto, o Miguel sabe perfeitamente que quando dizem publicamente que vai deixar de pagar impostos estão a manipular informação. O grosso da receita fiscal proveniente das actividades pelas quais Soares dos Santos é responsável ficará cá. A receita devida aos dividendos é uma gota de água no meio daquilo tudo. Além de ser idiota acusá-lo de falta de ética. Optar pela pior solução não é ético - é estúpido.
  • Sem imagem de perfil

    Grevista do sector privado 03.01.2012

    Se o ganho é irrisório não percebo a mudança. Ainda para mais quando o gestor multimilionário em causa sabia muito bem que esta questão levantaria alguma polémica, e até pode funcionar como mau marketing para a marca.

    Apenas um acrescento. O grupo Jerónimo Martins não mantém empregos em Portugal por motivo de caridade. A empresa precisa de gente para facturar, quando poder robotizar tudo... robotiza, no interesse dos accionistas.

    Depois o grupo JM tem sido, ao longo dos anos, um dos maiores importadores nacionais. Compra mais baratos, vende mais barato. E o que é aparentemente bom para todas as partes tem sido ruinoso para a economia nacional, que vê grande parte da produção agrícola destruída, por razões diversas, a maior parte das quais nem é da responsabilidade de quem se aproveita das regras do jogo para ganhar mais algum.

    Por fim, e chame-me indignado à vontade (elite é que não, que não cumpro critério nenhum para entrar no grupo), comparar este caso com o de "milhares de jovens trabalhadores, investigadores e empreendedores que se vendem ao monstro estrangeiro" é pura e simplesmente arrasar a credibilidade do seu post.
  • 1. Não é o ganho que é irrisório. É o impacto dessa taxação em Portugal (que é 20% do ganho). É uma gota de água que não vale a tinta que anda a ser gasta nos jornais. Além de que o senhor não tem de perceber a decisão de Soares dos Santos - ele é um agente privado que não tem de prestar contas do que faz a ninguém, desde que se mantenha dentro da lei (coisa que fez).

    2. Ninguém disse que era caridade. Mas os gestores do grupo Jerónimo Martins, ao fazerem o que fazem (seja qual for o propósito) fazem mais pelo país que o senhor ou eu.

    3. Isso é uma barbaridade.

    4. Não pode dizer que a credibilidade do meu post é arrasada apenas afirmando-o. Qual é, então, a diferença?
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