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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O que fazem os défices

Priscila Rêgo, 04.01.12

Vamos imaginar uma economia fechada, que funciona com plena utilização de recursos (PIB = PIB potencial). Esta economia não tem impostos, pelo que toda a despesa pública é financiada por dívida pública. O investimento privado também é financiado com recurso à dívida. É algo deste género:

 

 

  • PIB = 100
  • Consumo privado = 60 
  • Investimento privado = 20
  • Consumo público = 10
  • Investimento público = 10
  • Dívida Pública = 20
  • Dívida privada = 20
  • Activos privados = 40
  • Posição líquida externa = 0
Se o Governo aumentar o défice para fazer investimento público - e mantendo o pressuposto de que a economia está a funcionar no seu potencial -, há crowding out. O investimento público faz-se à custa do investimento privado. A coisa fica assim:
  • PIB = 100
  • Consumo privado = 60
  • Investimento privado = 10 
  • Consumo público = 10
  • Investimento público = 20
  • Dívida Pública = 30
  • Dívida privada = 10
  • Activos privados = 40
  • Posição líquida externa = 0
Se o Governo aumentar o défice para fazer mais consumo público, os valores alteram-se para:
  • PIB = 100
  • Consumo privado = 60
  • Investimento privado = 10 
  • Consumo público = 20
  • Investimento público = 10
  • Dívida Pública = 30
  • Dívida privada = 10
  • Activos privados = 40
  • Posição líquida externa = 0
Vamos agora imaginar que o Governo aumenta o défice para financiar o consumo público ou o investimento público no contexto de uma economia aberta, em que não há nenhum efeito ricardiano. Ou seja, os consumidores e empresas não reduzem o seu consumo/investimento quando o Governo aumenta o seu défice - pura e simplesmente passam a importar os bens de consumo e de capital que antes compravam no mercado interno. Isto deve ficar mais ou menos assim:
  • PIB = 100
  • Consumo privado = 60
  • Investimento privado = 20 
  • Consumo público = 10/20
  • Investimento público = 20/10
  • Dívida Pública = 30
  • Dívida privada = 20
  • Activos privados = 40
  • Posição líquida externa = -10
Daqui extraem-se três conclusões. Primeiro, um défice não implica que o país fique endividado (exemplos 1 e 2). Pode simplesmente implicar que uma parte do país fique endividada a outra parte do mesmo país. E um país que deve a si mesmo não é uma família que deve ao banco.  
Segundo, um défice também não implica qualquer transferência de recursos da geração seguinte para a geração actual. No exemplo 2, o Governo aumenta o consumo às custas do investimento - que é consumo futuro. Mas no exemplo 1, o investimento total permanece constante. No limite, o investimento público pode até ser financiado com cortes no consumo privado, o que significa uma transferência de recursos das gerações actuais para as gerações vindouras. 
Terceiro: no último caso, o país fica de facto endividado perante o exterior. Só que este endividamento não é necessariamente mau nem significa um fardo para as gerações futuras. Basta que sirva para financiar investimento público e que o efeito deste investimento no crescimento económico seja suficiente para contrariar o efeito dos juros (e capital) da dívida externa.
 

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