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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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O imperativo do crescimento

Tiago Moreira Ramalho, 09.01.12

É muito difícil imaginar uma sociedade que não tenha na geração de ambundância um propósito fundador. A organização social, seja ela qual for, persegue um objectivo de maximização de bem-estar, o qual está tradicionalmente associado a uma maior quantidade de bens disponíveis. Claro que algumas ideologias e sociedades levam este objectivo a uma obsessão, subordinando-lhe tudo o resto (e tantas vezes falhando, como na China maoísta). No entanto, uma certa base de acumulação de riqueza está (diria eu) sem excepção na fundação de qualquer associação de pessoas.

Interessantemente, é este imperativo que Kenneth Rogoff põe em causa num artigo publicado no Project Syndicate. Poderá ser pouco racional ter como objectivo o crescimento, precisamente porque a natureza social a que somos impelidos para o gerar anula os seus efeitos – se todos os rendimentos duplicarem, a riqueza relativa entre uns e outros mantém-se. Assumindo que as pessoas são mais afectadas pela sua percepção de riqueza (isto é, pela comparação da sua riqueza com as dos outros) do que pelo valor total de riqueza que possuem, o facto é que o crescimento não gerou mais bem-estar. Este argumento tem sido ostensivamente defendido por Robert Frank e é uma das bases de The Darwin Economy sobre o qual já escrevi aqui no blogue. Para provar esta ideia, Rogoff recorre-se de estudos feitos sobre a felicidade das pessoas, que mostram uma certa constância após a Segunda Guerra Mundial, apesar de os rendimentos terem crescido imenso.

O argumento pode parecer persuasivo à partida. O que nos deve mover deve ser a felicidade da população e se a população não está mais feliz, então o esforço do crescimento é uma espécie de fardo sisífico. No entanto, o argumento não resiste a uma análise um pouco mais profunda, a qual nos é felizmente apresentada por Will Wilkinson. Crescimento económico não significa apenas mais gadgets da Apple. O crescimento económico que, segundo os estudos de felicidade, teve efeitos nulos no bem-estar da população é o principal responsável por a vida hoje ser infinitamente menos penosa que a vida há um par de séculos atrás. Crescimento económico significa, à falta de prova em contrário, diminuição do sofrimento da população. E isso, mesmo que não seja percepcionado, é real – basta que comparemos as nossas vidas com as vidas que nos são relatadas de passados longínquos.

A observação, muito acertada, de que os rendimentos relativos são relevantes na avaliação do sucesso pessoal não invalida que o aumento generalizado de riqueza não seja um propósito para o qual valha a pena trabalhar. Até porque isso seria uma estranha negação do que nós somos. Afinal, desde que existimos enquanto espécie que nos preocupamos com a criação de mais riqueza e não apenas com a distribuição da que já existe. E porque é que o faríamos se, no final, tal não nos trouxesse real benefício? 

2 comentários

  • Bom, muitas pessoas conceituadas e reputadas (isto significa exactamente o quê em ciência?) escrevem coisas erradas.
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