Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

No Insurgente, António Costa Amaral (AA) refere um artigo que explica a inveja como subproduto de pressões selectivas exercidas durante o Paleolítico. O artigo defende que a inveja é uma emoção que terá proporcionado "sucesso" há alguns milhares de anos mas que não faz sentido nas "civilizações" altamente complexas de hoje em dia, em que os jogos de suma nula foram substituídos por jogos de soma positiva. Actualmente, este quadro mental já não garante "sucesso". Bom: num texto tão confuso, o título que o AA escolheu - O socialismo deriva de psicologias da idade da pedra - até acaba por parecer um mal menor.

 

Ou quase. Na verdade, e de forma geral, toda a nossa psicologia remonta à idade da pedra. A selecção natural não actua suficientemente rápido para que o nosso hardware mental acompanhe as mudanças vertiginosas da paisagem cultural à nossa volta. Geneticamente falando, continuamos todos na idade da pedra. E a "inveja" que está na base do socialismo é tão tributária do Paleolítico como o desejo de superação pessoal que enforma o capitalismo. Socialismo, comunismo, social-democracia e capitalismo são apenas respostas diferentes a emoções que, tanto quanto sabemos, parecem bastante transversais a todos os homo sapiens.

 

Esta é uma nota de pormenor. Mais importante é aquele "sucesso" que o autor do artigo usa, sem nunca definir muito bem. É que sucesso, em termos de selecção natural, significa sucesso reprodutivo: deixar mais descendência fértil do que a concorrência (e talvez nem isso). E este sucesso é intrinsecamente relativo. O que conta não é o número de filhos que deixamos, mas o número de filhos que deixamos relativamente à concorrência. Portanto, e mesmo "comprando" o argumento de que não havia jogos de soma positiva no Paleolítico, é um disparate dizer que, a este nível, this time is different. Não é.

 

Mas e se fosse? Por que é que deviamos mudar a nossa natureza apenas porque esta não é a que nos garante mais "sucesso"? Sobretudo quando "sucesso" significa apenas "sucesso reprodutivo". Milhões de anos a evoluir neste planeta para acabarmos a elevar a maximização da prole a estatuto de objectivo de vida? Sinceramente. 

 

Ainda assim, o artigo toca num ponto importante: as emoções e sentimentos que estão "hardwired" no cérebro. A inveja é uma. O ódio é outra. Ambas podem ser destrutivas, mas não é óbvio o que devemos fazer a respeito delas. Sobretudo porque, estando tão impregnadas na nossa psicologia, não é provável que possam ser sublimadas através da aculturação. As experiências comunistas com reeducação de crianças mostram bem como nem todo o condicionamento do mundo é suficiente para quebrar um dos laços mais viscerais do ser humano: a ligação entre pais e filhos. Há coisas que não se mudam. A aversão à desigualdade pode ser uma delas. 

 

O que fazer? Pense-se no caso da dor física. A dor física é tão real como a dor psicológica instigada por sentimentos de inferioridade que resultam da desigualdade. Não passa pela cabeça de ninguém dizer à populaça que poderia ter uma vida muito melhor se pura e simplesmente ignorasse a dor física. Não é possível - a dor está lá. Mas o esforço, persistência e um ambiente cultural apropriado podem tornar este apelo mais aceitável em contextos mais específicos. Por exemplo, para ajudar a ultrapassar a dor de apanhar uma vacina ou o incómodo de fazer exercício com frequência. São dores pequenas com benefícios implícitos grandes.

 

O mesmo princípio pode aplicar-se à desigualdade. Uma parte da dor psicológica da desigualdade pode ser combatida através da educação: por exemplo, ensinando a teoria da produtividade marginal do trabalho e a ligação entre produtividade e salário; explicando que a redistribuição do bolo económico tem efeitos na sua dimensão; e defendendo a importância ética de não meter a foice em seara alheia. A cultura, e o discurso liberal, em particular, têm um papel importante a jogar aqui. A aversão social à desigualdade diminui na medida em que ela for considerada mais legítima. 

 

Fora estes ajustes pontuais, que serão sempre de alcance limitado, será provavelmente necessário reconhecer que uma boa parte da desigualdade tem de ser resolvida de forma directa: impostos de um lado, subsídios do outro, serviços públicos e por aí fora. Não é a solução ideal; mas talvez mais fácil gerir estas tensões mudando o código fiscal do que a posição dos nossos nucleótidos.  

 

  

 


8 comentários:
De Palamedes a 19 de Janeiro de 2012 às 04:58
Eu não sou especialista em welfarism mas sempre pensei que uma alocação sem inveja resulta da distribuição de uma dotação e não do ganho individual que possa resultar de uma determinada interacção. Ou seja aplica-se tanto a jogos com soma nula ou positiva. E já agora se no paleolítico as relações humanas eram essencialmente caracterizadas por jogos de soma nula, então porque é que os humanos se foram juntando em grupos? Enfim.

Mas o que queria mesmo referir é que essa ideia de ensinar produtividades marginais, teorias do produtor e modelos de equilíbrio geral é útil para amenizar o custo das desigualdades, parece-me tão peregrina como a de pensar que espécie humana escapou do mesmo destino dos Neandertais porque os nossos antecessores fizeram muitas apostas do tipo tesoura, pedra e papel. Já basta o embaraço que os economistas profissionais têm de suportar por não dominarem o conceito de custo de oportunidade (como foi verificado num ASSA há uns anos atrás). Não vale a pena embaraçar também os restantes elementos da sociedade forçando-os a estudar essa dismal science.

Já concordo consigo em como a educação pode ser útil; especialmente se se focar no importante como a matemática e o português.


De eric a 26 de Março de 2012 às 22:57
isso é uma porcaria so fALA D ASUIA IMPRESA QUE MERDA


De jj.amarante a 19 de Janeiro de 2012 às 11:46
Muito bom, mais uma vez.


De Miguel Madeira a 19 de Janeiro de 2012 às 22:37
"A selecção natural não actua suficientemente rápido para que o nosso hardware mental acompanhe as mudanças vertiginosas da paisagem cultural à nossa volta."

Além desse suponho que há outro efeito, que provavelmente até reforça esse - a selecção natural tende a seleccionar os traços mais apropriados à sobrevivência num contexto em que haja grandes riscos de não-sobrevivência.

Imagine-se que a regra é haver centenas de anos de paz e prosperidade, com alguns anos intermitentes de "fome, peste e guerra", e que esse padrão se prolonga durante milénios - provavelmente esse processo irá seleccionar os traços mais favoráveis à sobrevivência nos pequenos periodos de "fome, peste e guerra", já que é nesses curtos períodos que a "selecção natural" age de forma mais intensa. Por outras palavras, nos séculos de prosperidade (quase) toda a gente sobrevive e deixa descedência, nos anos de crise só os mais adaptados à crise - resultado final: humanos preparados para situações de crise.

Já agora, é frequente entre os autores liberais dizer que não se pode deduzir a moral a partir de "life boat situations" (penso que tanto Rothbard como Rand escreveram sobre isso); mas se a minha teoria do paragráfo anterior estiver certa, quer dizer que os humanos estão "hard wired" para "life boat situations".

[nota final - suspeito que, das três grandes ideologias - socialismo, liberalismo e conservadorismo - é capaz de ser o liberalismo a menos "instintiva", o que no fundo também é mais ou menos o mesmo que o AA diz]


De Sofychan a 20 de Janeiro de 2012 às 18:01
Not really. Se são "curtos períodos", não há tempo suficiente para que ocorram mutações que vão então levar à selecção dos mais adaptados. Ou seja, digamos que temos uma população maioritariamente com o gene X, que em situações de não-crise é mais favorável. Se houver uma mutação que o transforme no gene Y, favorável em situações de crise, ele até pode continuar na população, mas numa frequência reduzida (porque não é favorável). Mesmo que ocorra uma situação de crise, uma vez que ela é curta, não há tempo suficiente para que ocorra a selecção (era preciso esperar várias gerações para se ver os efeitos disso... tipo, muitas, mesmo...). Uma evolução tão acelerada eras capaz de encontrar era em bactérias, por exemplo =P


De Miguel Madeira a 20 de Janeiro de 2012 às 23:53
A minha teoria não se baseia na ideia de ocorrerem mutações nos curtos períodos de crise; a ideia é que essas mutações vão surgindo ao acaso nos períodos de prosperidade e NÃO são extripadas da população porque, na prosperidade "toda" a gente sobrevive (este "toda" deve ser entendido de forma relativa, tal como aliás "prosperidade"); e quando surge a crise, a taxa de sobrevivência dos "mutantes" é muito superior.

Ou dito de outra maneira - se na maior parte do tempo a taxa de mortalidade dos portadores do gene X é ligeiramente superior aos dos do gene Y, e nuns momentos ocasionais a taxa de mortalidade dos Y é bastante superior à dos X, isso poderá levar a que o gene X se torne dominante, mesmo que seja ligeiramente mal adaptativo na maior parte do tempo


De blablazada a 20 de Janeiro de 2012 às 21:21
...a ideia 'peregrina' de que a evolução vai no sentido do 'melhor'...é uma espécie de tiro nos pés ou nos…


De chat a 14 de Julho de 2014 às 17:34

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