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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Lentidão

Bruno Vieira Amaral, 20.04.10

Todos sabemos que a ideia de um Deus misericordioso faz mais sentido quando temos as férias estragadas, mas o vulcão islandês não deixa de ser uma semi-tragédia. É verdade que temos o poder da Natureza, que inspira aos bloggers o mesmo terror que assaltava o homem das cavernas sempre que um raio rasgava o céu; é verdade que muita gente, à falta de uma crença sólida na divindade, redescobriu o misticismo que perdera para os ginásios, o facebook e os livros de Paulo Coelho (a ocorrência de uma epifania é mais provável quando estamos às portas da morte ou quando o nosso voo é cancelado); é verdade que o vulcão, tal como o terramoto no Haiti ou Bernard Madoff, é uma óptima desculpa para que se arrase o estilo de vida ocidental; é verdade que os prejuízos da aviação civil são enormes; é verdade que o Barcelona teve de ir para Milão de autocarro; é verdade que tivemos os inevitáveis directos dos aeroportos; é verdade que não faltaram reportagens com música melancólica que nos perguntavam: “É assim que a civilização ocidental vai acabar? À espera que a menina da TAP diga qualquer coisa?” É verdade que tivemos tudo isto, mas faltaram as vítimas. Quer dizer, quando o que mais se assemelha a uma vítima é um inglês gordo com ar de quem acabou de fazer turismo sexual na Tailândia, sabemos que o vulcão islandês é uma semi-tragédia. Um pirralho inglês, entrevistado pela RTP, confessou o seu incomensurável aborrecimento por ser obrigado a regressar de comboio à pátria e à X-Box . De todos os efeitos do vulcão islandês nenhum é mais revelador do que o tédio ferroviário daquela criança. O nosso tempo abomina a lentidão.