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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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A vis vitalis do FC Barcelona

Vasco M. Barreto, 26.01.12

Não leio a imprensa desportiva com a regularidade que provavelmente seria recomendada para a escrita desta entrada, mas tenho a intuição de que seria interessante uma tese de doutoramento - enfim, talvez apenas um mestrado - sobre o modo como a análise técnica do futebol publicada na imprensa e discutida na rádio e televisão evoluiu ao longo das últimas quatro ou cinco décadas, da sua complexidade intrínseca aos paralelos com as teorias de interpretação que foram aparecendo noutros domínios, o que implicaria um trabalho de mapeamento prévio para encontrar o Carlos Daniel e o Luís Freitas Lobo dos mil novecentos e sessentas (ou explicar as suas ausências), algum aparato estatístico, referências a Umberto Eco e a um qualquer dos franceses. A minha tese seria simples: caminhamos para a completa mistificação - e em vez de termos parado na metafísica, o que seria recomendável, entrámos já no domínio da pseudociência; mas isto pede à Epistemologia menos do que pede à Sociologia (pressão dos pares e subida da educação média dos apreciadores do fenómeno desportivo). Estas manifestações incluem os muito gozados barroquismos de gramática e lexicais dos intérpretes da bola (de Gabriel Alves a Rui Santos), mas é no modo como se vai pensando o futebol que atingimos o êxtase. E o excepcional futebol do FC barcelona dá-nos a melhor matéria-prima.

 

"No fundo, a pergunta básica da Filosofia (como a da psicanálise) é a mesma do romance policial: de quem é a culpa?", escreveu o Eco. Ora, nos últimos dias chegámos a um novo cúmulo interpretativo e, por causa de umas declarações de Pep Guardiola, o culpado está encontrado: é o Busquets. Ainda a estupefacção não assentara, já corria doutrina a explicar ao povo aquilo que ainda ninguém tinha visto ou a que não dera o devido valor (1,2). Não faço a menor ideia se o Busquets é o segredo do FC Barcelona. Não sei se Pep Guardiola disse o que disse por ser mais amigo da verdade ou do balneário. Mas suspeito que esta tese vinga porque é contra-intuitiva, o que faz com que o intérprete brilhe com indisfarçável ansiedade e orgulho. Estamos tão fartos do excepcional futebol do Barcelona como em tempos estivemos fartos do Serguei Bubka, mas como ainda estamos mais fartos das explicações (a Cantera, a identidade cultural, o baixo centro de gravidade do meio-campo, o Messi, o Iniesta, o Xavi - e todas as combinações com dois destes elementos), qualquer novo dado interpretativo entusiasma o adepto tanto como uma nova relíquia entusiasma o crente ou uma nova teoria entusiasma o jovem académico. Que venha então o Busquets. Amanhã será a perturbação electrostática que emana dos caracóis do Pujol. E depois será a sopa da mulher-a-dias do Piqué, que dá solidez à defesa porque tem propriedades calmantes. Dito isto, ontem gostei muito de ver o Ozil.

 

 

 

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