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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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É o José Raposo!

Tiago Moreira Ramalho, 27.01.12

O reconhecimento público, coisa pela qual a espécie arranca caras e cabelos, é coisa que pode magoar o pescoço ou partes alternativas da figurazinha que expomos tão zelosamente às massas. Isto é particularmente grave quando se é o José Raposo, facto que se me assomou como evidente quando, perdido nos pensamentos vulgares de uma viagem de eléctrico, que agora exige ao amável consumidor o pagamento de dois euros e oitenta e cinco cêntimos, ouvi, atrás de mim, num jeito manhoso de falar, uma senhora muito risonha afirmando, à cautela, enquanto apontava, ‘É o Zé Raposo, é o Zé Raposo’. Era o José Raposo, que enroladinho no banco do canto, com a calvície mal disfarçada por uns vistosos caracóis que se propagavam pelo espaço envolvente, respondeu, com o sorriso de quem preferia estar num outro lugar, que sim, que sim, que era. Gostava muito dele, a senhora, que continuou repetindo, numa desmesurada emoção, que era o Zé Raposo, enquanto dava pancadinhas no peito do senhor que a acompanhava. O senhor anuiu; também ele achava que se tratava do José Raposo. Criteriosa na crítica, disse-lhe que ele estava muito bem; tanto nas novelas em que entrava como naquelas em que ela julgava encontrá-lo, mistificações que o senhor, solícito, rapidamente dissipou. De espírito elevado pela discussão que estava a ter, naquele espaço e naquele tempo, com tão vetusta figura, a senhora do falar particular não hesitou e aplicou cirurgicamente dois pares de chapadinhas no pescoço e na bochecha esquerda do Zé, que ria, e eu ria com ele, e que rezava, e eu rezava por ele. O José acabou por sair na paragem seguinte, provavelmente decidido a fazer a restante viagem pela segura calçada que permite a fuga educada. Despediu-se de um querido, que ria comigo, e lá foi. A senhora assoou-se e saiu também. Saíram todos e eu, vulgarmente pensando, percebi de uma vez por todas que ser o José Raposo não traz vantagem, não é coisa de querer. Não há como a experienciazinha, para aprendermos boas lições.

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