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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Compreender a Alemanha II

Priscila Rêgo, 15.02.12

O Luís Naves citou um dos meus posts acerca da posição da Alemanha e sugeriu, como complemento, um post do Mr. Brown. O post em causa enquadra a situação da seguinte forma: "Agora que esse problema está evidente para todos, não vejo como possa ser corrigido que não por um ajustamento para baixo do nível de vida desses povos. Não é lá grande opção? Não, não é. Mas é por isso que se diz que não há alternativa à austeridade". Como isto não tem muito a ver com a minha posição, aproveito para fazer uma clarificação.

 

Começo pelo mais simples: é óbvio que o nível de vida dos gregos estava artificialmente empolado pela participação na Zona Euro. Mas este excesso de consumo (despesa) relativamente à produção (PIB) deve ser "lido" nos défices externos, e não nos défices orçamentais (embora, no caso grego, este seja provavelmente a principal causa daquele). Viver "acima das possibilidades" é simplesmente manter um nível de despesa superior ao nível do PIB. Ponto. 

 

O problema, central a esta discussão, é que uma economia não é uma dona de casa. Uma família pode ajustar a sua despesa ao seu rendimento mensal e passar a viver alegremente dentro das suas possibilidades. Numa economia, por outro lado, a despesa de um indivíduo é o rendimento de outro. Ou seja, se a Grécia quiser ajustar as suas despesas (consumo) às suas possibilidades (PIB), haverá feedback entre as duas variáveis: o próprio ajustamento diminuirá as suas possibilidades de pagar a dívida, porque a fonte de rendimentos tende a secar ou, pelo menos, a reduzir.se. 

 

A partir de certo ponto, esta estratégia pode tornar-se auto-destrutiva. Uma economia a cair aos bocados pura e simplesmente não consegue gerar rendimentos para pagar os juros da dívida em falta nem para amortizar o capital quando a maturidade for atingida. Portanto, e paradoxalmente (mas apenas para quem não estiver habituado a pensar em termos macroeconómicos), pode ser do interesse mútuo de credores e devedores que o período de ajustamento se prolongue um pouco mais no tempo. Deste ponto de vista, há de facto alternativa à austeridade e a Alemanha pode ser um dos principais interessados em manter essa porta aberta.

 

O ponto do post anterior não era negar este ponto, mas enfatizar a circunstância específica em que tal acordo poderia ter lugar: caso houvesse garantia de que a Grécia aceita mesmo fazer o reajustamento e que o dinheiro entregue hoje terá contrapartidas amanhã. O drama grego é que essa garantia não só não existe como dificilmente pode ser revelada a uma terceira parte (no caso, a Alemanha). A imposição de uma austeridade severa e imediata, com efeitos na própria capacidade de pagar a dívida, acaba por ser a second best policy germânica: pior do que uma austeridade mitigada, mas melhor do que a sua completa ausência.

 

 

 

 

5 comentários

  • Sem imagem de perfil

    PR 16.02.2012

    É mais ou menos consensual que nenhuma economia pode viver com défices orçamentais persistentemente na casa dos 10 a 15% do seu PIB. A grande cisão entre as duas facções não é em relação à consolidação orçamental, que é obviamente necessária, mas à sua dimensão.

    Quando o Mr. Brown se está a colocar num dos lados da barricada e a dizer que "não há alternativa à austeridade", deve ter consciência de que o que se extrai das suas palavras não é a ideia de que o défice tem de ser diminuído - em si comum, transversal e trivial - mas de que apoia a forma como esta consolidação está a ser feita.

    Mas o ponto mais importante para onde eu apontei nem foi esse, mas a analogia enganadora entre uma economia e uma dona de casa, como se a consolidação fosse equiparável a cortar despesas para gerir o orçamento familiar.
  • Imagem de perfil

    Mr. Brown 16.02.2012

    Só duas notas:
    1. «o défice tem de ser diminuído - em si comum, transversal e trivial». Antes fosse. Isso de que a grande cisão é em relação à dimensão da consolidação orçamental talvez seja verdade entre as pessoas sensatas (digamos assim). Ou a Priscila não conhece os que defendem que o que é necessário neste momento - não se sabe como - é uma política expansionista? A esses chamo eu os vendedores de ilusões e não são tão poucos quanto isso (nem os vendedores, nem os iludidos).
    2. O quê que a Priscila entende por uma política de austeridade? Quanto acabam com feriados estamos perante uma medida de consolidação orçamental? Quando aos gregos pede-se que baixem o salário mínimo estamos perante uma medida de consolidação orçamental? E não é, ainda assim, política de austeridade? Quando falo da inevitabilidade da austeridade tenho na cabeça essa definição mais larga e não estou meramente a pensar no combate ao défice orçamental. Por exemplo, quando refiro a necessidade de um «ajustamento para baixo do nível de vida desses povos» estou claramente a pensar em algo como a desvalorização interna para ganhar competitividade. E sinceramente, no quadro actual, também não vejo alternativa a essa política.
  • nenhuma economia pode viver com défices de 3%

    durante 30 anos consecutivos se não pagar alguma coisa

    ou a dívida diminuir frente ao gigantesco aumento do PIBe

    el Pibe ...Maradona...

    (1+0,03) elevado a 30...é só fazer as contas....
  • Sem imagem de perfil

    Miguel Madeira 18.02.2012

    «(1+0,03) elevado a 30...é só fazer as contas....»

    Essa conta não faz grande sentido - os 3% não são uma taxa de crescimento
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