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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Compreender a Alemanha V

Priscila Rêgo, 15.02.12

Ok, erro cometido, assumido e registado. E agora?

 

Uma possibilidade é assumir que vamos a tempo de corrigir o erro, voltar atrás e fazer agora o que devíamos ter feito antes: reestruturar a dívida grega, aliviar a austeridade e assumir as perdas daí decorrentes - seja directamente, através de um "haircut" dos empréstimos feitos pelos países da Zona Euro, seja indirectamente, através do balanço do Banco Central Europeu (o que implica monetizar défices ou aumentar o capital do BCE).

 

A solução parece óbvia. A Grécia é pequena. Perder alguns milhares de milhões de euros com um país minúsculo é lamentável, mas compreensível, se a alternativa for o colapso da Zona Euro. Mas esta ideia é tão ingénua como a do post anterior, porque parte do pressuposto de que nada mudou entretanto.

 

Na verdade, muita coisa mudou. A mais relevante é o alastrar do receio dos mercados financeiros à dívida pública "periférica", que já obrigou Portugal e Irlanda a recorrerem à ajuda externa e deixou Espanha e Itália na "corda bamba". Uma grande reestruturação da dívida pública grega seria imediatamente lida pelos mercados como um sinal de que uma decisão semelhante seria tomado em Portugal, Irlanda e Itália. Conhecendo o historial de alguns destes países, é até provável que eles se empenhassem activamente nisso. Itália e Espanha perderiam imediatamente acesso aos mercados e teriam de ser socorridos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira. 

 

O Fundo não chega para estes dois gigantes. Mas vamos assumir que há dinheiro que chegue. Neste cenário, a Europa faz o empréstimo e recebe o capital e respectivos juros quando as obrigações chegarem à maturidade. Em teoria. Na prática, o afrouxar da pressão sobre o orçamento da Grécia teria como consequência provável um afrouxar idêntico sobre países como Portugal, Irlanda e Itália, cuja dívida pública está no limite da sustentabilidade. Haveria aqui o risco sério de que a dívida entrasse numa espiral interminável que acabaria com uma reestruturação em grande escala. Nesta altura, as perdas teriam de ser assumidas pelo BCE e pelos países europeus - com a Alemanha à cabeça.

 

É neste ponto que foi colocada a fasquia nos últimos meses. Os alemães estão, compreensivelmente, receosos com o moral hazard que possa advir da decisão tomada em relação à Grécia. Manter a Zona Euro viva continua a ser um objectivo. Mas uma Zona Euro mantida viva através de um fluxo interminável de dinheiro para a periferia é uma Zona Euro em que os alemães, provavelmente, não quererão viver. Agora, não há soluções fáceis.   

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    PR 16.02.2012

    "Não sei se não haverá aqui um problema "rawlsiano" - isto é, se a institucionalização de um mecanismo de transferências financeiras tivesse sido feita antes de algum país entrar em crise (e, portanto, antes de se saber quem seriam os pagantes e quem seriam os beneficiários), se calhar teria sido mais fácil de aprovar.

    Exacto. Penso que se supôs que o PEC trataria de tudo. Isso, o laxismo no controlo das contas e a ideia de que os problemas da Balança de Pagamentos deixavam de existir com o euro podem ter ajudado a "esquecer" um mecanismo de backstop deste género.

    Em relação às saídas, outras possibilidade podem ser:

    a) as metas para a consolidação grega mantêm-se, mas o crescimento é estimulado por um programa keynesiano no core da Europa (algo que era difícil há uns meses, mas política e economicamente mais aceitável a partir do momento em que a zona euro está em recessão);

    b) deixa-se cair a Grécia e põe-se o BCE a financiar a dívida do resto da periferia, mediante a adesão a um rigoroso plano de consolidação. O BCE pode entrar - em princípio - porque os países em causa parecem solventes (ao contrário da Grécia). E a queda da Grécia pode servir como óptima ameaça para impedir o moral hazard.
  • a solição b) é péssima porque cria um precedente

    a solução a) keynes já teve problemas antes...a estagflacção não foi um episódio menor da aplicação das teorias económicas

    numa economia que é cada vez mais virtual

    economia de casino se preferir

    e cirandar em volta de um extremista com argumentos
    semi-sólidos não contribui para nada

    a não ser para estimular o ego de ambas as partes

    o que é pouco significativo em termos sociais...
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