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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Quatro pontos acerca da energia

Priscila Rêgo, 15.03.12

1. As energias renováveis são um enorme fetiche de grande parte dos comentadores, sobretudo à medida que a questão ambiental ganha importância. Acerca disto, subscrevo as palavras do Miguel Madeira: não há nenhuma razão para subsidiar, directa ou indirectamente, energias renováveis (muito menos determinado tipo de energias renováveis). Se o problema são as externalidades negativas dos combustíveis fósseis (poluição), pois taxe-se esses combustíveis. Não vamos criar uma distorção (ou várias, pelos vistos...) para eliminar outra distorção.

 

2. O caso específico das energias renováveis em Portugal parece contudo ser bastante mais grave do que um mero second best mal aplicado. Eu pensava que o projecto de renováveis era uma política industrial (das tugas, claro) nascida do umbigo do anterior primeiro-ministro e gizada à medida dos seus horizontes. Mas a informação veiculada pela imprensa nos últimos dias dá mais a ideia de uma verdadeira política mafiosa de compadrio entre o Governo e grandes grupos económicos. Alguns dos contratos são tão escandalosos - desde preços garantidos até possibilidade de arbitragem assegurada (!) - que é difícil imaginar como é que foi possível chegar aqui sem que ninguém tivesse dito que o rei ia nu. Isto não foi incompetência. Não pode ter sido. Foi uma chulice

 

3. Curiosamente, as renováveis foram durante muito tempo, e até muito recentemente, vistas quase consensualmente pelos comentadores nacionais como um dos sucessos do Governo anterior. Quando Pinho saiu do Governo, a aposta nas renováveis foi apresentada como o seu grande legado, uma medalha no currículo que destoava num mandato manifestamente negativo. Sempre estranhei que tanta gente aplaudisse algo que, além de ir contra princípios económicos básicos (a subsidiação não é eficiente!) tinha dado tão poucas provas de ser uma política bem pensada. A única medida do seu sucesso era o número de barragens a funcionar, eólicas a trabalhar e energia "renovável" produzida. Dos custos, não se sabia nada. Mas isto, aparentemente, foi suficiente para tipos supostamente informados como Nicolau Santos e Marcelo Rebelo de Sousa. E são estes os comentadores que formam a opinião em Portugal. 

 

4. Rasgar contratos não é, por norma, uma ideia brilhante. Mas se a opção for entre rasgar os contratos de garantia de potência da EDP ou  rasgar os contratos dos contribuintes, parece-me que a escolha é razoavelmente evidente. O argumento do João Miranda, de que as energias renováveis não foram uma imposição de lóbis, e na verdade até terão sido aceites pela população, não colhe. Aumentos salariais para a função pública e um subsídio de desemprego demasiado generoso também foram bem acolhidos. So what? O João Miranda refinou agora o seu argumento e diz que afinal o problema é o impacto que isto terá na atracção de Investimento Directo. Mas puxa o exemplo da Venezuela e logo aí borra a pintura. A Venezuela passa por um processo de nacionalizações e de pressão sobre a iniciativa privada que sinalizam claramente aos investidores que o território se está a tornar progressivamente menos business friendly. O Governo português está a privatizar, liberalizar e tudo o mais que se possa pensar. Neste quadro geral, rasgar os contratos com a EDP não sinalizaria que estamos a caminhar para o socialismo; mas que estamos a empenhados em limpar a tralha que alguns deixaram por cá e pôr a casa em ordem. E, pelo caminho, diminuir os preços da energia. 

5 comentários

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    Pedro 15.03.2012

    Consumimos eletcicidade a baixo preço? É a primeira vez que leio esta. Todos os estudos que li até agora (incluindo da eurostat) me dizem que pagamos uma das tarifas mais elevadas da Europa na energia. Mas já começo a sentir pena dos chineses... ;).
    O Luis Lavoura acha que somos uns priveligiados. Quem nos dera a nós termos as regalias que têm os ingleses menos favorecidos, por exemplo, que têm subsídios para aquecimento das suas casas. Isso é que é coisa de pais desenvolvido. Entre nós, como sempre, vai fazendo caminho esta ideia de que somos uns privilegiados com montes de direitos adquiridos. Isto, quando há muita gente que desliga o aquecimento no Inverno porque não o pode pagar.
    p.s. nesses exemplos que dá, o unico resultado é que os tais lojistas vão pagar uma pipa de massa ao fim do mês de electricidade.
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    Luís Lavoura 16.03.2012

    Pois eu vi uma estatística ainda há pouco tempo, que indicava que o preço da eletricidade é mais baixo em Portugal do que a média europeia.
    De qualquer forma essas estatísticas têm um valor limitado, porque muitos outros países também subsidiam o preço da eletricidade.
    Além disso, a eletricidade é uma forma muito cara de aquecimento, dado que apenas 1/3 da energia produzida na central elétrica sob a forma de calor chega a nossa casa sob forma de eletricidade. É muito mais racional investir um bocado comprando uma salamandra ou um aquecimento central.
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    Pedro 16.03.2012

    Os dados que consegui encontrar são estes:
    http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_PUBLIC/8-29062011-BP/EN/8-29062011-BP-EN.PDF (ter em atenção ao PPS - ajustado ao poder de compra).

    Não se pode dizer que a energia seja barata para o consumidor português, como se estivéssemos a falar da gasolina no kuwait. Desperdício é outra coisa, isso pagam-nos os consumidores do seu bolso. Quanto ao aquecimento, o melhor método é esse que diz. o problema é que nem todos t~em dinheiro para pagar um sistema de aquecimento central, nem uma salamandra. como diz. Um sistema de recuperador de calor custa cerca de 5000 euros, fora a mão de obra, quatro ou cinco dias. É muito bonito aconselhar as pessoas a fazer investimentos racionais e pensar a longo prazo, mas o facto é que a maior parte não pode dispor desse dinheiro assim de repente. As salamandras são mais baratas, mas as pessoas t~em que comprar o material combustível na mesma.
    Sobre isto, queria só chamar a atenção para o facto de noutros países existir uma politica social de apoio aos mais desfavorecidos, seja no gás, seja na eletricidade. O caso da Inglaterra é um que conheço bem. Não sei se a EDP dá, ou não dá prejuízo e se os seus acionistas são uns sacrificados. Só sei que a empresa é apetecível para os investidores estrangeiros. Se acham que a intervenção do Estado prejudica os acionistas, só têm de pedir que o estado se afaste e não "chule" a empresa. Mas duvido que estejam muito incomodados..
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    Luís Lavoura 16.03.2012

    Não faz qualquer sentido pôr ajustamentos ao poder de compra nos preços da energia. A energia é um bem transacionável no mercado internacional. O petróleo tem o mesmo preço em todo o lado. A eletricidade que consumimos é produzida por centrais nucleares espanholas. Os paineis solares têm o mesmo preço em todo o lado.
    Portanto, o preço da energia elétrica deve ser comparado com o do resto da Europa mas sem fazer ajustamentos com o poder de compra.
    (É claro que há algumas parcelas do preço energético que podem ser diferentes de país para país. O mesmo painel solar produz mais eletricidade em Portugal do que na Alemanha. A lenha pode ser mais barata de apanhar e cortar em Portugal do que na Suécia, porque esse é um trabalho intensivo em mão-de-obra. Mas isso são exceções à regra.)
    (Eu tenho uma salamandra na minha casa na aldeia. Serve para aquecer a cozinha e cozinhar. Custou-me 300 euros - é fabricada na China, claro. Não custou 5000.)
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