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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Economistas, esses porcos

Priscila Rêgo, 02.05.12

O LA-C pergunta aqui por que é que os economistas são pessoas egoístas que desejam o mal aos outros. Excelente pergunta. A resposta é que é tramada. Deixem-me dar a minha, assumidamente especulativa. 
As atitudes que temos em relação a terceiros - o tipo de coisa que podemos habitualmente enquadrar algures no espectro de atitudes altruístas/egoístas - raramente são determinadas por questões de princípio. Ninguém empresta dinheiro ao irmão ou ajuda o amigo a estudar para o exame porque está a fazer um bem "abstracto", subproduto de algum sistema ético. A nossa moral é uma coisa muito mais telúrica: ajudamos os familiares, os amigos, quem está próximo, ou quem nos ajudou num passado recente. Não se lê "Utilitarismo", do Stuart Mill, antes de decidir como proceder perante um dilema moral. 
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Talvez esta "moral intuitiva" - uma espécie de heurística que guia o nosso altruísmo - tenha sido "fixada" no nosso hardware cerebral após milhões de anos de pressões selectivas. A longo prazo, esta heurística é mais útil do que a aplicação do princípio de custo/benefício a todos os casos em que temos de decidir se cooperamos ou não. Não só porque permite poupar tempo em circunstâncias em que é óbvio que a cooperação é vantajosa (um amigo de longa data é o caso óbvio) mas, mais importante, porque reduz a incerteza que os outros possam ter em torno do nosso comportamento, funcionando como um lubrificante da cooperação: a melhor forma de parecer-se honesto (e com isso colher os frutos dessa honestidade) é ser-se honesto
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Esta hipótese tem alguma confirmação. Não me passa pela cabeça agradecer um jantar em casa de amigos perguntando quanto lhes custou e predispondo-se a fornecer-lhes uma iguaria do mesmo preço em troca, embora seja óbvio que a relação de amizade sairá prejudicada se eu não retribuir os gestos que eles me dispensam. Então qual é o problema em tornar explícito um acordo que já existe em termos tácitos? Provavelmente, o constrangimento gera-se pelo facto de revelar um calculismo que deveria estar ausente de relações de pura amizade. Quem encara a amizade como um jogo de toma-lá-dá-cá não pode ser confiável. Talvez seja por isso que tenhamos desenvolvido dois registos aparentemente antagónicos de fazer escolhas: as normas de mercado e as normas sociais (ver aqui, por exemplo).
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Ora, a mensagem central - ou pelo menos, a principal mensagem dos cursos introdutórios de economia - é que o egoísmo não só não é incompatível com o bem estar geral, como na verdade o fomenta. Esta descoberta, para além do poderoso efeito soporífero que tem na mente dos jovens estudantes (é sempre o máximo saber algo contra-intuitivo que mais ninguém sabe, como os rapazes do Insurgente mostram diariamente), expõe com clareza os problemas do "altruísmo ingénuo" que adoptamos diariamente, e que a selecção natural nos ensinou a associar a traços de carácter apreciáveis. O economista transcende este altruísmo ingénuo e passa a olhar de forma desconfiada para acções que, se examinadas à lupa, têm resultados oposto ao pretendido. 
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Há vários exemplos. Um clássico é o das prendas de Natal: valorizamos muito oferendas nesta altura do ano, mas a análise económica mostra que há claramente uma perda de utilidade associada a isto, porque quem recebe sabe sempre mais acerca dos seus próprios gostos do que quem dá. A melhor opção é, pura e simplesmente, dar o dinheiro empenhado na prenda. Porém, e como as prendas não se dão - trocam-se -, o melhor mesmo é não dar prendas nunca (pelo menos no caso de pessoas que tenham rendimentos semelhantes) e deixar que seja cada um a gerir a sua própria utilidade, sem custos de transacção. Quem pensa desta forma é um tipo racional, dizem os economistas. E um ser humano miserável, acrescenta o resto da humanidade. 
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O egoísmo é, neste "modelo", um subproduto do ensino (provavelmente correcto) do princípio económico de que, sob determinadas circunstâncias, conduz à maximização do bem estar, e que nesse sentido legitima comportamentos mais egoístas - ou, pelo menos, um cepticismo justificado acerca de algumas formas de altruísmo. Mas a "chave" para perceber o porquê de uma coisa tão banal como esta obter uma reacção tão negativa por parte do resto da população está nas pressões selectivas que fizeram com que o "altruísmo ingénuo" - ajudar por ajudar, independentemente dos resultados - se tornasse uma emoção tão arreigada na nossa psique. O próprio acto de levar ao exame da razão algumas acções altruístas é alvo de censura social, porque historicamente esta foi uma disposição mental que foi penalizada pela selecção natural.   
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Este tipo de raciocínio levanta questões interessantes relacionadas com o proveito de "viver na ignorância". Por exemplo, há quem argumente que a redução da participação em actos eleitorais é resultado directo do facto de nos tornarmos mais racionais - e é difícil pensar, pelo menos, que esta ideia não tem alguma plausibilidade: qualquer pessoa que perca algum tempo a pensar acerca dos números envolvidos conclui que a probabilidade do seu voto resultar nalguma coisa concreta é diminuta (ok, há sempre o "voto por convicção"; mas isso é semelhante ao "altruísmo" por convicção, que é independente dos seus resultados concretos). Outra questão: será que os sociobiólogos que estudam as condições que determinam a escolha de parceiros sexuais têm especiais dificuldades em estabelecer relacionamentos estáveis? À partida, um "querida, só estamos juntos porque estamos no mesmo nível de rendimento, beleza e estatuto social" parece má conversa de circunstância para firmar um casamento.

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