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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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Do investimento em educação

Priscila Rêgo, 31.05.12

O Carlos Guimarães Pinto diz que houve um excesso de investimento na educação em Portugal. Esta era uma ideia de que eu partilhava há algum tempo, precisamente com base no mesmo tipo de elementos que ele refere: desemprego entre licenciados, “brain drain” e um desconforto profundo em relação ao “critério do guiness” que parecia ser a única métrica de avaliação da qualidade da política educativa e científica em Portugal (mais doutorados, mais investigadores, mais licenciados, etc.). 

 

Agora, parece-me que as coisas não são bem assim. Há dois elementos que convém relembrar, e algumas justificações auxiliares a dar.

 

 

Dado número um: Portugal tem poucos licenciados. Quer dizer, Portugal tem muitos licenciados relativamente ao que tinha há 15 ou 20 anos, o que causa um efeito de contraste muito forte e permite à classe política encharcar as manchetes dos jornais de números berrantes. Mas tem poucos licenciados relativamente ao que é comum na Europa desenvolvida, que devia ser o nosso benchmark (fonte). Este dado, por si só, não significa necessariamente muita coisa. Mas é um sinal de alerta. 

 

Outro dado interessante, e este mais conclusivo, é o “prémio” salarial que é pago em Portugal aos licenciados. Os estudos disponíveis (referidos aqui, por exemplo- ver página 79) mostram que Portugal é dos países da União Europeia onde a diferença entre os salários de licenciados e não licenciados é mais alta. Os números dizem respeito a 2000, mas o desnível era tão grande na altura que dificilmente terá atingido os níveis europeus entretanto.  

 

Estes estudos são limitados, e podem ser até enganadores se não controlarem devidamente outras variáveis. Pessoalmente, tenho muitas dúvidas de que uma parte deste desnível não seja um mero reflexo de desigualdade de oportunidades e fraca mobilidade social (se os filhos dos ricos têm, por “inércia social”, mais possibilidades de ganhar bons salários e são também os que estudam até mais tarde, os dois elementos estão apenas correlacionados). Mas, como evidência empírica, são mais sólidos e sistemáticos do que algumas notícias da imprensa acerca de salários pagos a engenheiros. 

 

Então e a emigração? E a "Geração à Rasca"?

 

Primeiro, a questão da emigração. Apesar de todo o burburinho em torno da fuga de cérebros, não sei até que ponto é fácil extrair esta conclusão dos dados disponíveis. Os números que eu conheço, que são os que vi na imprensa, parecem ser recolhidos através das embaixadas de cada país, e não identificam concretamente o grau de escolaridade dos emigrantes. Parece-me que estamos a falar de uma realidade ainda bastante mal diagnosticada. 

 

Mas mesmo que a subida do desemprego tenha atingido todas as faixas educativas por igual, também é possível que as alternativas no estrangeiro estejam sobretudo concentradas em áreas de qualificações elevadas (enfermeiros na Alemanha versus trabalhadores da construção civil Espanha, por exemplo). Isto justificaria um enviesamento claro da emigração no sentido de se concentrar mais em licenciados, sem contudo suportar a tese de que há um sobreinvestimento em educação. 

 

Em relação à "Geração à Rasca", já falei um pouco acerca do assunto. O desemprego é mais alto e os salários são mais baixos entre os jovens, mas a diferença relativamente às restantes categorias etárias da população não é hoje significativamente diferente do que era há dez ou 15 anos atrás. Apanharam todos por igual; só que uns tiveram o azar de começar num ponto de partida bastante pior.

 

Este ponto de partida é provavelmente resultado de leis laborais que prejudicam sobretudo os mais jovens (é uma longa história e um longo debate; que não me apetece ter aqui). Mas é precisamente nesta faixa que estão concentrados os licenciados. Portanto, quando olhamos para as estatísticas e vemos salários mais baixos e taxas de desemprego mais altas, o que estamos a ver é, provavelmente, apenas o resultado do factor “idade”, que está altamente correlacionado com o factor “educação”.

 

A histeria em torno da “Geração à Rasca” pode ficar a dever-se a dois efeitos curiosos. O primeiro, que também tem confirmação no paper do Pedro Portugal, é a grande dispersão do “prémio salarial” consoante as áreas científicas escolhidas. O que me parecia há um ano (e agora me parece cada vez mais) é que nos últimos tempos a “cauda” da distribuição de rendimentos dos licenciados engordou razoavelmente - o suficiente para ter massa crítica que chegue para chamar a atenção para a sua situação. Ou seja, há uma franja efectivamente muito mal paga, mas que está longe de representar a maioria dos licenciados.

 

Esta franja é composta sobretudo por licenciados em ciências sociais, artes e comunicação social: pessoas com um acesso desproporcionado aos “media” e que tendem, portanto, a enviesar consideravelmente a imagem que passa para a opinião pública (a respeito disso, vejam este e este post; o primeiro confirmaa hipótese com alguns dados e o segundo parece-me bastante revelador). Acho que era um bom tema de investigação para algum aluno de mestrado de economia. 

 

Finalmente, uma hipótese mais subtil. Na maior parte das profissões não qualificadas, a produtividade não aumenta com a idade, o que faz com que o salário à entrada não seja significativamente diferente do salário auferido por um trabalhador experiente. No caso das profissões qualificadas, por outro lado, existe o fenómeno inverso: o salário tende a subir com a idade e aprendizagem. É possível que isto cause choque os licenciados, que entram num mercado a “preço de saldo” e constatam que os pedreiros ou costureiras ganham já o salário de um trabalhador de meia idade (e, nalguns casos, mais do que os próprios licenciados). Selecção e percepção, portanto.

 

[Créditos: esta hipótese foi proposta pelo Miguel Madeira. Acabei mais tarde por reunir alguns dados que a confirmam perfeitamente – clap, clap – mas não tive tempo para escrever sobre o assunto. Em todo o caso, fica feita a referência]

 

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