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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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A austeridade zombie de Espanha

Priscila Rêgo, 19.06.12

Os espanhóis andam todos a barafustar com os cortes de salários, subidas de impostos e por aí fora. Mal sabem eles que é tudo ilusão. Em Espanha, como nos explica uma criatura iluminada no Wall Street Journal, a austeridade não falhou – porque nunca foi tentada

 

 

Ora apreciem bem esta pérola (agradecimento ao Insurgente, que parece que os apanha a dedo), que começa por constatar que a despesa pública cresceu 13% entre 2007 e 2011:

 

In the current debates on fiscal policy in Spain it is often forgotten that during 2008 and 2009 the then socialist government implemented one of the biggest stimulus packages of all developed countries, comparable only to U.S. stimulus levels (…) These policies were ineffective at best. Neither the U.S. nor Spain managed to avoid sharp job losses in the private sector, and instead actually increased the number of public-sector employees. In contrast, with far less expansionary fiscal policies, Germany’s labor market has barely suffered (…) But the worst consequence of the fiscal stimulus packages is the ensuing surge in national debt burdens and other related costs. First, they perpetuate the spiraling deterioration of public finances by crowding out bank credit from the private sector and preventing the healthy deleveraging of the economy as a whole, which would reduce the need for external finance.

 

Uma pessoa olha para isto, arregaça as mangas e só apetece perguntar: mas por onde é que se começa? 

 

A coisa dos 13% é um bom ponto de partida, até porque está logo no subtítulo da peça. Entre 2007 e 2011, a despesa espanhola cresceu mesmo a este ritmo? Sim. Chama-se inflação…

 

É que os preços habitualmente sobem de ano para ano, e em Espanha até têm subido mais do que no resto da Zona Euro. Com uma taxa de inflação anual de 3%, uma despesa pública constante em termos reais chega facilmente aos 13% num período de cinco anos (ah, e não vale a pena fazer contas muito precisas: o índice de preços para o sector público é diferente do índice de preços geral, que aparece nos jornais e na maioria das fontes estatísticas).

 

E isto é olhando para a ‘big picture’. Se olharmos para a coisa ano-a-ano, utilizando a mesma fonte do autor, concluímos que a despesa cresceu 17% entre 2007/2009 e caiu 3% entre 2009/2011.

 

Mas o mais curioso é que o autor defende que o estímulo económico falhou completamente em Espanha, ao contrário do que aconteceu com a Alemanha, onde a rectidão orçamental supostamente deu bons resultados. E imediatamente a seguir diz que a Alemanha teve uma recessão superior à da Espanha em 2009…

 

Vamos fazer um exercício. Pegar nos itens de despesa que são mais ou menos insensíveis ao ciclo, e usar isso como barómetro do “estímulo económico” dado à economia. Comparar Espanha com a Alemanha. E, finalmente, tentar tirar conclusões depois de olhar para os dados. 

 

 

 

 

Aqui usei três itens: salários da função pública, compras de bens e serviços e investimento. Ficam de fora coisas como as despesas sociais, que estão largamente fora da margem de manobra do Governo, e transferências financeiras para bancos. 

 

E a imagem que se obtém – surpresa, surpresa – vai precisamente no sentido contrário da ideia do artigo do WSJ. Não só o estímulo espanhol não foi assim tão diferente do que foi feito pela Alemanha entre 2008 e 2009, como foi rapidamente revertido em 2010, e a um ritmo que destoa claramente do que aconteceu no resto da Zona Euro. O que também ajuda a explicar a tal recessão em 2011 e 2012 (que o nosso autor atribui à falta de austeridade).

 

Ah, e não sei se repararam a quem pertence aquela linha a vermelho, que não pára de subir entre 2007 e 2011…

 

E agora podem dizer: mas e a dívida que se criou entretanto? Pois é. É um problema do caraças. 

 

 

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