Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

Laffer, Schumpeter ou outro

Priscila Rêgo, 30.06.12

O João Miranda tem dois posts interessantes acerca do descalabro que está  acontecer na receita fiscal. Lembrei-me que talvez valha a pena introduzir uma nuance na versão que ele chama de 'lafferiana'. 

 

Segundo Laffer, há um determinado nível de taxa de imposto a partir do qual a actividade económica é de tal forma desincentivada que a colecta real acaba por descer. É uma espécie de tiro no pé fiscal. E é com esta 'etiqueta' que o JM classifica quem diz que os impostos já estão no limite do tolerável. 

 

Ora, o que me parece é que há pelo menos duas formas de defender que mais subidas de impostos não vão ter como resultado mais receita:

 

Hipótese lafferiana - os impostos afectam os incentivos e tornam a criação de riqueza relativamente menos atraente do que o lazer (sobretudo se estivermos a falar de taxas marginais progressivas de imposto sobre rendimentos). Aumentar taxas diminui a base de incidência e faz com que a colecta total seja menor. 


Hipótese keynesiana - os impostos não têm grande efeito nos incentivos. Mas os impostos representam procura que é retirada da economia e que ajuda a aprofundar a recessão, diminuindo assim a base de incidência. O que é relevante não é o efeito distorcionário dos impostos, mas o seu impacto macroeconómico. 

 

A primeira hipótese é microeconómica e baseia-se no efeito dos incentivos. A segunda é macroeconómica e foca-se no efeito que uma variável da procura tem sobre a economia. Como é que distingue um do outro? Uma forma simples é manter as taxas constantes e esperar pelo longo prazo. Se a receita voltar a aumentar quando a economia ajustar e a recessão passar, é a segunda hipótese a verdadeira; se a receita fiscal se mantiver ad eternum no nível actual, parece mais fácil aceitar a hipótese lafferiana, segundo a qual houve uma alteração estrutural na economia.

 

Fora isto, está um dia lindo lá fora.  

8 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Miguel Madeira 02.07.2012

    Nunca tinha pensado em tal coisa, mas realmente um modelo keynesiano em que mais impostos, por sí só, levassem a menos receita não faria grande sentido: se a receita fiscal diminuisse, isso quereria dizer que o deficit ficava maior (ou o superavit menor), logo que o Estado estava a injectar mais dinheiro na economia do que antes; mas, se o Estado está, em termos líquidos, a gastar mais do que antes, então (numa perspectiva keynesiana) estaria a estimular mais a economia que antes, pelo que a PIB global deveria ser maior (não menor) que antes; mas a hipotese mais impostos - menos receitas só faz sentido partindo do principio que o PIB vai descer.

    Ou seja, parece-me que, num modelo keynesiano, o efeito receitas fiscais / taxas de imposto até pode ser muito próximo do 0, mas nunca negativo.

  • Sem imagem de perfil

    LA-C 02.07.2012

    Complementando a argumentação do MMadeira. Um aumento da taxa de imposto, num modelo keynesiano, levará a uma retracção da procura via redução do rendimento disponível. É essa retracção da procura que levará a uma redução da produção de equilíbrio que, ao baixar o rendimento, levará a uma redução da colecta de impostos.
    Ou seja, a um aumento de impostos (descrito no início) vai corresponder uma descida de impostos (descrito no fim). Qual dos efeitos é mais forte? O segundo efeito é induzido pelo primeiro e portanto apenas anula parcialmente o primeiro. Caso contrário, entramos no paradoxo descrito pelo MMadeira. Imagino que o multiplicador keynesiano tenha de ser bastante marado para que o resultado não seja uma mera correcção parcial.
    Assim, não estou a ver nenhum modelo keynesiano que tenha as consequências que a Priscila descreve. Por isso lhe perguntei se conhecia algum com tal resultado.
  • Sem imagem de perfil

    Miguel Madeira 02.07.2012

    Eu, antes de escrever o meu comentário, tinha estado a fazer umas contas e concluído que isso só seria assim com uma propensão ao consumo maior que 1.

    Num modelo simples, assumindo G, I e X exógenos, teríamos

    T =(G+I+X)*t/(1-c+ct)

    e se 1-c for positivo, t/(1-c+ct) variará sempre no mesmo sentido que t (se t duplica, 1-c+ct menos que duplicará, logo o valor final crescerá um bocadinho).

    Mas com uma propensão ao consumo maior que 1, começávamos a entrar em terreno muito estranho, em que, em vez de a economia convergir para o Y que resolvia a equação, bastava um desvio de 1 euro para cima ou para baixo para "Y" ir para infinito ou para 0 (ou talvez mesmo para -infinito).

    Dito isto, penso que apesar de tudo, poderíamos imaginar um modelo keynesiano em que um aumento de impostos, mesmo aumentando a receita fiscal, aumentasse o deficit em percentagem do PIB, mas isto já é fugir um bocado ao ponto original.
  • Sem imagem de perfil

    LA-C 02.07.2012

    "um DSGE com fricções keynesianas conta como keynesiano?"

    Para esta discussão, nos termos em que a Priscila, a colocou, eu diria que não. Num modelo DSGE, os agentes optimizam e portanto respondem a incentivos. O efeito de um aumento dos impostos será, precisamente o de tornar menos atractiva a criação de riqueza. Ora isto é, precisamente, o que a Priscila designou como "Hipótese lafferiana".

    O efeito que a Priscila descreveu na "Hipótese keynesiana" tem a ver com os efeitos na procura agregada, algo que é captado no modelo keynesiano simples.

    Miguel, se 1-c>1 pura e simplesmente o modelo não funciona. Qualquer desvio infinitesimal do equilíbrio levará a que a Economia expluda. Pura e simplesmente tal modelo não serve para captar a realidade macroeconómica. Se usamos o modelo keunesiano simples para descrever a realidade, temos, obrigatoriamente, de considerar 0<c<1.
  • Sem imagem de perfil

    PR 03.07.2012

    "Para esta discussão, nos termos em que a Priscila, a colocou, eu diria que não. Num modelo DSGE, os agentes optimizam e portanto respondem a incentivos. O efeito de um aumento dos impostos será, precisamente o de tornar menos atractiva a criação de riqueza. Ora isto é, precisamente, o que a Priscila designou como "Hipótese lafferiana".

    Hum... Pois.

    E se reformularmos e dissermos que há dois efeitos possíveis que o aumento da carga fiscal pode ter na actividade económica (e portanto na colecta fiscal), no contexto de um DSGE:

    a) O efeito gerado nos incentivos dos agentes através da tributação (que se verifica sobretudo no caso dos impostos sobre rendimento, como disse o Miguel; + impostos -> - actividade)

    b) o efeito gerado na actividade pelo facto de haver fricções (sticky prices, custos de transacção, etc.) que impedem um ajustamento imediato da oferta às flutuações na procura. (Um efeito que só se verifica no curto prazo, portanto).

    Já agora, duas coisas.

    - Como é que o LA-C classificaria o modelo usado neste paper http://www.brookings.edu/~/media/Files/Programs/ES/BPEA/2012_spring_bpea_papers/2012_spring_BPEA_delongsummers.pdf

    - podemos tratar-nos por tu! :-)
  • Sem imagem de perfil

    LA-C 03.07.2012


    Quando falaste em modelos DSGE neokeynesianos, pensei exactamente que esses modelos incorporariam ambos os efeitos. A rigidez introduzida por alguma fricção seria keynesiana e o ajustamento decorrente do facto de os agentes optimizarem captaria o efeito lafferiano que descreves.

    Perguntas-me como classificaria esse paper do Delong e Summers. Tenho de concordar que este é um modelo keynesiano. Apesar de me fazer alguma espécie que se use hipóteses keynesianas para analisar comportamentos de longo prazo, tal não altera a resposta à tua pergunta: este é um modelo de génese keynesiana onde as políticas orçamentais expansionistas podem ser auto-financiadoras. Ou seja, a expansão económica que geram são, por si só, suficientes para aumentarem as receitas fiscais que as financiam.

    Faço no entanto uma ressalva. Repara que neste caso a política orçamental expansionista decorre de um aumento dos gastos, e não de uma redução dos impostos. Lembro que o aumento dos gastos tem um efeito direito no rendimento de equilíbrio, enquanto a diminuição dos impostos teria apenas um efeito induzido. Aqui, não me parece necessário haver um multiplicador marado para obter os resultados pretendidos.

    Aliás, este efeito, de certa forma, é captado nos modelos keynesianos simples, onde podemos o multiplicador do orçamento equilibrado superior a zero: ou seja, um aumento dos gastos do governo, acompanhado por um aumento dos impostos de igual montante tem um impacto positivo. Isto acontece precisamente porque o impacto da despesa pública é directo enquanto o impacto do aumento dos impostos é indirecto, via rendimento disponível.

    De qualquer forma, concordo, parcialmente, contigo. Este modelo capta bem os efeitos que descreves no post.
  • Sem imagem de perfil

    LA-C 03.07.2012

    Usando modelos parecidos com os que MMadeira está a usar, podemos obter o que descrevi no comentário anterior (Y é o rendimento e y é o rendimento disponível após impostos):
    Y=G+I+C
    C=a+by
    y=(1-t)Y
    I=d+fY
    Y=G+d+a+(b(1-t)+f)Y
    Y=(G+d+a)/(1-b(1-t)-f)
    tY=(G+d+a)(t/(1-b(1-t)-f))

    Se t/(1-b(1-t)-f)>1 temos o efeito pretendido. Por exemplo, com t=0.5, b=.75 e f=0.2 temos o resultado pretendido: um aumento dos gastos leva a um aumento da receita fiscal.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.