Terça-feira, 7 de Agosto de 2012
Rui Passos Rocha

Todos queremos parecer muito inteligentes. Ou, no mínimo, todos queremos dar a entender que não somos idiotas. Custa perceber que em rigor devemos incluir "não sei" ou "acho que" em 90% das nossas frases; custa bem menos não usar essas expressões, talvez até convencendo-nos de que não é por orgulho que o fazemos mas porque seria, aos olhos dos outros, redundante fazê-lo. Mas isto provavelmente custa mais a quem menos faz por ser realmente inteligente, sendo a inteligência um critério mais qualitativo do que quantitativo - e fazer por ser inteligente implica saber como se deve fazê-lo, o que implica sentir atracção pela busca inacabada, para usar termos que farão João Carlos Espada rejubilar.

O texto de Elísio Estanque no Público de ontem é, para não variar, um exemplo de como é mais fácil encaixar a realidade, que é maçadoramente complexa, nas preferências pessoais. O texto tem o título sugestivo "Às portas do trabalho escravo" e reza assim:

 

«[...] Pode dizer-se que a luta é agora entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos coletivistas". As novas leis do trabalho são, portanto, o resultado de uma luta persistente dos primeiros contra o conservadorismo coletivista dos segundos (e contra o vírus sindical, que está moribundo mas não morto), visando a generalização do trabalho forçado, isto é, criando um amplo exército de famintos, uma nova força de trabalho disponível para o trabalho gratuito, que começa a emergir dos destroços da atual classe trabalhadora. Em vez da busca de compromissos que, desde o século XIX, o capitalismo industrial tentou estabelecer entre capital e trabalho, a linha dura que esta nova "internacional liberal" fortemente apoiada no capitalismo financeiro fez aprovar (e que, naturalmente, o Governo português foi dos primeiros a subscrever) retoma a velha ideia do "trabalho-mercadoria" como primeira prioridade a caminho do "Sol nascente" do hiperliberalismo competitivo. [...]»

Quase arrisco dizer que é também um exemplo de como o dito de Kahneman no post abaixo também se aplica a quem faz da investigação profissão, mas não posso estar seguro disso. E é também um exemplo de como o uso de palavras difíceis no discurso, para lhe dar uma roupagem inteligente, acaba por ter o efeito contrário: o de o interlocutor ficar com a impressão de que aquela pessoa não se saberia explicar em termos simples, no mínimo, ou está mesmo a tentar enganar os outros. Sobre isto, e para umas risadas, recomendo o livro Imposturas Intelectuais de Sokal e Bricmont e, como atalho, este paper de Daniel Oppenheimer.

Mas atenção que a realidade não é a preto-e-branco: o argumento da falta de honestidade intelectual aplica-se a quase toda a raça, talvez até a toda ela a espaços (sim, estou a incluir-me no lote). É a necessidade de não parecerem estúpidos que faz com que mesmo os que compreendem o método científico (no sentido de método para adquirir conhecimento o mais fiável possível) escorreguem: aconteceu com Orlando Figes, um dos especialistas da história soviética, e com Jared Diamond, um entendedor de como a geografia condiciona o desenvolvimento económico. Ambos quiseram embelezar as suas narrativas inventando uns estropiados cujas histórias de vida ilustrariam o declínio desta ou daquela civilização.

Curiosamente ou não, ambos se especializaram em realidades remotas: uma sociedade que já lá vai, no caso de Figes, e sociedades que ainda estão no sítio mas sobre as quais com sorte ouvimos falar meia dúzia de vezes por ano e devido a catástrofes naturais ou massacres (como a Papua Nova Guiné). Figes chegou mesmo a escrever na Amazon comentários negativos a obras de um seu concorrente, Robert Service; Diamond ficou-se por embelezar, ou até mesmo inventar (há um processo judicial em curso), citações - coisa que certamente chocaria o Sindicato dos Jornalistas, que tem a barriga cheia por a imprensa nacional não ter o hábito nem meios para fazer double-checking com as fontes. Diamond e Jonah Lehrer, que escreveram para a New Yorker, não tiveram essa sorte.

Elísio Estanque escreveu (como de costume) sobre aquilo em que se especializou (no sentido de "tema sobre o qual mais lê e escreve", mas acho que se percebe o que quero dizer com isto): o mercado laboral português. Fê-lo de forma henrique-raposiana, criando conceitos populistas para algo que é demasiado abstracto para poder ser falsificável, mas que obnubila e acicata quem se abespinha com facilidade (estou a ficar contagiado). O reverso da medalha é que - no caso de um como no do outro - escrever assim deixa um rasto indisfarçável de mau cheiro. Contra a tentação do pensamento estanque valha-nos o peer review.


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