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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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"O que pensa João Semedo disto?"

Priscila Rêgo, 30.08.12

Eu sei que já vem tarde - o post tem uns cinco ou seis dias - mas só agora li a pérola. Helena Matos cita um trecho de um texto que diz que "todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos, tenta retirar aos últimos o direito a ter direitos somente por pertencerem a uma espécie diferente da nossa"

 

Vindo de onde vem (Esquerda.net...) eu até diria que é uma das coisas mais ponderadas, sensatas e razoáveis que se lê por aquelas bandas. Mas a Helena Matos extrai, daqui, que "Nesse caso é tão válido a nossa espécie retirar direitos como dá-los porque os animais per si são alheios a essa visão humanizada da sua vida. Por este caminhar as águias ainda são obrigadas  a optar pelo vegetarianismo e o BE ainda vai exigir um canal do  serviço público de televisão para vacas e RSI para as ratazanas altruístas".

 

Hum, como disse?

 

Ó Helena, os bébés e alguns deficientes mentais também são alheios a essa "visão humanizada" da sua vida. Isso não significa que tenhamos a liberdade de os espancar, violar ou matratar. Os direitos éticos não se fundam na reciprocidade. Isso não é ética nem moral nenhuma - é calculismo. E para promover o calculismo não precisamos de alterar a lei - acredite que cada um chega lá por si mesmo. 

 

E eu não sei o que o João Semedo acha do excerto do artigo em questão. Mas imagino o que ele acharia de um texto que começa a ironizar com uma trivialidade (que a distinção humano/não humano é um critério especista), passa para a conclusão de que só quem tem deveres pode ter direitos, e acaba a falar em RSI para ratazanas altruístas. Como ele é médico, talvez conseguisse identificar a patologia. 

 

14 comentários

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    PR 03.09.2012

    Nope. O raciocínio é o contrário. O facto de alguns animais serem sensitivamente semelhantes a alguns deficientes não nos dá o direito de maltratar os últimos; pelo contrário, obriga-nos a respeitar os primeiros. Isto é o que o Singer verdadeiramente diz, por oposição ao que a direita religiosa diz que o Singer diz :)
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    Nuno Gaspar 03.09.2012

    É. Só a Priscila é que sabe ler o que Peter Singer escreve.
    http://criticanarede.com/eti_aborto.html
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    PR 03.09.2012

    Yes. Por isso é que eu usei o termo "alguns animais" e "bébés e deficientes". Matar um orangotango não é a mesma coisa que matar um ácaro. Matar uma pessoa com paralisia cerebral não é a mesma coisa que matar um zigoto. O critério do Singer é o das propriedades intrínsecas de cada ser, e não o isolamento biológico (critério de espécie) dos respectivos DNA'a (dito assim, até perde grande parte da sua nobreza).
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    Nuno Gaspar 03.09.2012

    Pode ser. Talvez por isso seja cada vez comum encontrar gente a tratar melhor os seu cães e periquitos do que os velhos e mendigos com que se cruzam.
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    PR 03.09.2012

    Exacto. É isso que se extrai do princípio que eu enunciei.

    O Nuno está rapidamente a passar da categoria de "pessoas enganadas por informação deturpada acerca de Peter Singer" para a categoria de "pessoas que deturpam informação acerca de Peter Singer".
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    Nuno Gaspar 03.09.2012

    Colocar o link de um texto do autor é deturpar?
    Belo.

    "categoria de "pessoas que deturpam informação acerca de Peter Singer"", militante da direita religiosa, e que mais? Ser que uiva nas noites de lua cheia?
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    PR 03.09.2012

    Nope. Deturpar é passar daqui:

    "Matar um orangotango não é a mesma coisa que matar um ácaro. Matar uma pessoa com paralisia cerebral não é a mesma coisa que matar um zigoto. O critério do Singer é o das propriedades intrínsecas de cada ser, e não o isolamento biológico (critério de espécie) dos respectivos DNA'a (dito assim, até perde grande parte da sua nobreza)."

    Para aqui:

    "Talvez por isso seja cada vez comum encontrar gente a tratar melhor os seu cães e periquitos do que os velhos e mendigos com que se cruzam."

    Ou então pensa mesmo que os mendigos e velhos sentem menos do que os periquitos. E aí o seu problema já é de natureza diferente.



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    Nuno Gaspar 03.09.2012

    "Ou então pensa mesmo que os mendigos e velhos sentem menos do que os periquitos"

    Não sei quem deturpa quem. Se o critério moral depende das "características intrínsecas de cada ser" e não do reconhecimento absoluto da dignidade humana porque é que uma sociedade se há-de ralar em gastar mais dinheiro com hospitais e comida para cães e gatos do que com instituições de acolhimento a doentes terminais, por exemplo?
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    PR 03.09.2012

    Respondo-lhe com uma pergunta. Imagine que descobria que o seu melhor amigo era um extraterrestre, e portanto reprodutivamente isolado da espécie humana. O Nuno defenderia que o seu melhor amigo, subitamente despojado de "dignidade humana", devia ser tratado como um cão? Ou defenderia que o relevante não seria o seu material genético mas as suas características intrínsecas?
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    LA-C 03.09.2012

    Ambos fugiram às duas questões, mas eu gostava de saber as vossas respostas, por acaso.

    Priscila, ao dizeres que o extraterrestre é o meu melhor amigo, estás a humanizar o meu melhor amigo. Isso parece-me batota nesta discussão. é como se eu te perguntasse: "imagina que descobres que o teu melhor amigo, sei lá o Tiago Moreira Ramalho, é um cão, passas a tratá-lo como tratas os restantes cães?"

    De qualquer forma, e respondendo à questão, penso que somos geneticamente programados para defender a nossa espécie e para garantir a sobrevivência do homo sapiens. Extraterrestres, por muito inteligentes que sejam, não terão os mesmos direitos que nós.
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    PR 04.09.2012

    Luís, é mais específico do que isso. Nós não somos geneticamente programados para defender a espécie - a selecção de grupo é um fenómeno raro. Somos geneticamente programados para nos defendermos a nós e aos nossos familiares.

    Em muitos períodos da história, a família coincidia com o clã ou com a tribo, e por isso não é de estranhar que de facto os códigos morais da altura frequentemente apenas impusessem restrições nas relações dentro do grupo. Mas e daí? Vamos elevar o nepotismo a baluarte da ética?

    A pergunta tem todo o sentido. No caso do Tiago, tal como no caso do extraterrestre, não mudaria nada na minha relação se soubesse que ele afinal era um cão [o que, tecnicamente, significa apenas que seria capaz de acasalar com uma cadela e produzir descendência fértil]. Continuava a tratá-lo da mesma forma e a atribuir-lhes os mesmos direitos, precisamente porque o que conta não é o seu genótipo mas determinadas características do fenótipo (capacidade de sentir dor, capacidade de pensar e raciocinar, consciência e por aí fora).

  • Priscila, então penso que está na altura de to dizer... Eu na verdade sou um cão. Uma espécie de Brian do Family Guy. Fico muito contente por continuares a ser minha amiga.
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    PR 04.09.2012

    Eu gosto de ti à mesma =)
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