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A Douta Ignorância

Política, Economia, Literatura, Ciência, Actualidade

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A tristeza de Cristiano

Bruno Vieira Amaral, 05.09.12

Cristiano está triste. Sabemos que Cristiano está triste porque Cristiano anunciou após o jogo do Real Madrid que estava triste. Disse também que as pessoas do clube conheciam as razões da sua tristeza e que não queria falar mais sobre isso. O anúncio da tristeza de Cristiano é, sem qualquer dúvida, mais uma jogada política do que um sintoma de verdadeira tristeza. Se há no mundo moderno alguém geneticamente impreparado para a tristeza é o craque madeirense. Não tem a ver com as quantidades obscenas de dinheiro. Messi, por exemplo, ganha tanto ou mais que Ronaldo e mesmo assim vê-se que há naquele olhar uma possibilidade de melancolia, de genuína tristeza. Em Cristiano até os 3000 abdominais por dia são uma forma de repelir qualquer investida das nuvens negras da depressão. O übermensch Cristiano é simplesmente incapaz de nos convencer da sua tristeza, sobretudo quando a anuncia cirurgicamente após um jogo de futebol. De Cristiano esperamos frustração e raiva perante as derrotas, mas a armadura de músculos e de gel tornam-no invulnerável, aos olhos do público, aos dramas mais subtis e vaporosos dos estados de alma. Não é uma questão de dinheiro. Aliás, é bem curiosa a reacção filistina dos pobres (os de espírito e os outros) confrontados com a anunciada tristeza de Cristiano: “Então o gajo ganha um milhão de euros por mês e tem a lata de dizer que está triste?” Sublinho que são estes arautos do senso comum que nos lembram constantemente que o dinheiro não traz felicidade. Qualquer pessoa, mesmo um jogador de futebol muito bem-sucedido, pode sucumbir ao demónio da tristeza (lembram-se de Robert Enke?). O que é obsceno nas declarações de Cristiano não é o dinheiro que ele tem em comparação com o que nos falta a nós. O que é chocante, pelo menos para alguém que, como eu, dá tanto valor à verdadeira tristeza, é a leviana utilização da tristeza como arma num negócio político-futebolístico. Não é o dinheiro de Cristiano que o torna indigno da tristeza que anunciou; é o fazer da tristeza moeda de troca, falso estandarte, arma de chantagem. Isso, sim, é uma tristeza e um insulto, não aos que não têm o dinheiro de Cristiano, mas aos que sofrem a tristeza real que lhe falta.

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